O Chevette e as amoras

Tem dias que a gente acorda e se sente aquele Chevette a álcool dos anos 80: velho e com dificuldades ligar. Hoje eu acordei assim: eu parecia acordada, mas o peso do mundo estava nas minhas pernas. E rotina de mãe com filhos que estudam pela manhã é sempre um tanto frenética.

Mas voltando ao meu corpo Chevette, no último ano eu organizei minha vida para conseguir encaixar não só o trabalho, mas também atividades que me trouxessem uma qualidade de vida melhor: eu rezo, eu faço exercícios quase todos os dias da semana, eu leio, eu ouço música, eu tomo sol. E todas essas coisas são coisas que eu faço para me sentir com a cabeça em paz – não só o corpo. E hoje, mesmo com toda a minha dificuldade, eu me arrastei para manter tal rotina.

Depois de levar as crianças na escola, eu saí para correr – mesmo meu corpo me dizendo que não estava a fim e que, tal como o motor do Chevette, não responderia aos meus esforços de ligar à força. Andei devagar para aquecer e quando terminei o aquecimento, até tentei correr, mas as pernas não acompanharam o meu desejo racional e falharam. E nisso eu só andei pelo caminho, devagar e sempre, ida e volta pra casa.

Andar me permitiu olhar com mais atenção a paisagem ao meu redor: e a ciclovia está repleta de amoras nestes dias. Eu parei pelo caminho, sem nenhuma pressa, para colher as amoras e utilizei meu boné – que àquela altura eu já havia tirado por conta do peso dele na minha cabeça – para transportá-las até em casa. Enquanto eu colhia amoras na rua, eu ouvi uma voz dentro de mim quase que sussurrando: “Aline, quem está sempre correndo, não se permite colher amoras”.

E fazer isso me encheu de amor e me fez entender que não importa o que aconteça: depois de um longo inverno, as amoreiras sempre darão frutos, mesmo que nós não prestemos atenção ou tenhamos tempo de colhê-las. Assim é com tudo na vida. Que nos permitamos reconhecer a graça de Deus mesmo nos dias mais sombrios. E que nossos frutos, tal como as amoreiras de Curitiba em setembro, sejam sempre doces e disponíveis para todos!

Ah, quanto ao Chevette, apesar de velho, ele até que tem seu charme! 🙂

Quem é Deus para você, mamãe?

Essa semana saímos meus meninos e eu para comer pastel na feirinha noturna aqui perto da nossa casa. E sair com meus dois filhos é sempre uma experiência pra mim: eu adoro a companhia deles, não só porque eu os amo com a minha alma, mas também porque eles me ensinam tanta coisa que eu penso que eu devo ser alguém muito legal – afinal Papai do céu me deu dois filhos incríveis, meus companheiros eternos na jornada da vida!

E nós falamos muito quando estamos juntos. E enquanto andávamos pela feirinha, eles comentavam sobre o uso de máscaras, sobre o repertório do cara que tocava violino na frente da igreja que frequentamos, sobre as barraquinhas de comidas diversas que ali se colocavam uma ao lado da outra… enfim, tudo é motivo para continuar falando. Escolhemos os pastéis e voltamos andando para a pracinha que fica ao lado da feira. E ali começou, entre uma mordida e outra, um dos diálogos mais profundos que já tivemos:

Mamãe, você consegue imaginar algo que você não tem total conhecimento?

Sim, filho. Por exemplo, nós imaginamos Deus, mas nós não sabemos exatamente o que é Deus, porque nós somos limitados. Deus, ao contrário de nós, é onisciente, onipresente e onipotente. Nós nunca saberemos o que de fato é ser assim.

Como limitados? Perguntou o Murilo, já formulando seus argumentos.

Limitados pelo tempo – nós envelhecemos e morremos, limitados pelo conhecimento, limitados pela linguagem… Por coisas que não temos capacidade de conceber por não conseguir descrever.

Sim, mamãe… eu sou limitado, você é limitada, mas a humanidade não é limitada. Nós vamos passar, mas o nosso conhecimento será importante para o que vier acontecer no futuro. Às vezes, a gente pensa coisas que não vamos ver realizadas, mas que serão realizadas por outras pessoas que virão depois de nós. E por isso a humanidade não é limitada… nós tudo podemos!

Não, Mu… nós não podemos tudo, só Deus pode tudo!

Sim, mamãe… e nós somos imagem e semelhança de Deus. Não temos os poderes de Deus, mas Deus quis ser como nós. Quem é Deus pra você?

Deus é o criador de todas as coisas. É quem vive desde sempre, é o ser que não se submete ao tempo, ao espaço, não acaba. O princípio e o fim de tudo, meu filho.

Então se Deus conhece todas as coisas e todos os caminhos, seria Deus um determinista, mamãe?

Não filho, porque embora ele conheça todos os caminhos, nós somos livres para escolher o que de fato queremos da nossa vida. Deus nos dá liberdade – até para escolhermos amá-lo ou não.

Mamãe, Deus não nos limitou como humanidade. Portanto, Deus está presente na continuidade, no conjunto que formamos como humanidade. Deus não se limita ao que pensamos individualmente dele – porque Ele não está limitado por nós – e isso fica claro quando pensamos na humanidade – que chegou em pontos que séculos atrás pareciam impossíveis de serem concebidos, tanto mais materializados.

É filho… fazemos parte de algo muito maior que nós!

Mamãe, viu como consegue conceber algo que não tem conhecimento completo? Eu estava certo quando imaginava que sim!

E nisso voltamos pra casa, com o coração cheio de um Deus que não conhecemos em sua totalidade, mas que nos maravilha quando, dentro das nossas limitações, nos permite ouvir Sua voz nos momentos mais improváveis. Deus nos ama todo o tempo – e se dar conta disso numa conversa com os meus meninos é um presente que eu não me sinto capaz de agradecer de forma suficiente. Portanto, sei que Deus deve ler esse blog… afinal, Ele nos conhece por inteiro – mesmo o que eu penso e não escrevo. E como eu acredito que Ele lê, eu faço aqui meu agradecimento público – pelos dois meninos especiais que Ele colocou no meu caminho e que, por graça, somente pela graça de Deus, me chamam de mamãe!

Aquele da vacina: Num dia frio, Deus se fez presente nas pequenas coisas!

Eu sou Aline e sou uma alienada em termos de COVID. Aliás, Aline e alienada combinam (aliás combina com as duas palavras também). Enfim, eu sou alienada de COVID por escolha própria. Desde o começo da pandemia, não permiti que a narrativa regesse a minha vida. Tal como o João de Santo Cristo, por escolha própria, escolhi a solidão – a solidão ao me isolar das estatísticas, das grandes notícias que não valiam nada no dia seguinte… talvez tenha sido esta a maneira que eu encontrei de manter a minha sanidade mental, de manter na minha vida um mínimo de funcionalidade, de fugir do medo e da ansiedade e de me manter no controle da narrativa da minha própria história.

O fato de eu me isolar não me deixou, porém, imune às centenas de obrigações de nós terráqueos vivendo em meio à pandemia: uso máscaras em locais onde é estritamente obrigatório, tenho álcool gel em casa e não fui mais ao cinema porque fechou. Eu sou uma boa garota, não arrumo encrenca à toa, mas ser impedida de ir à missa, ao mercado no domingo e ao cinema me deixaram puta com os chineses muitas vezes nesses quase 18 meses de pandemia. Tirando isso, foi quase sempre tranquilo – sim, eu me sinto feliz e privilegiada por ter conseguido passar sem grandes arranhões por um período em que quase todo mundo surtou. A pandemia foi um período incrível pra mim – como mulher, como mãe e como profissional. Eu amei trabalhar em casa, ser dona do meu horário, ter um tempão com os meus filhos… mudei de casa, arrumei um gatinho, aumentei a minha fé em Deus e a minha prática religiosa atingiu níveis nunca antes alcançados. E tudo porque eu tive tempo para organizar a minha vida (e perceber quantas coisas eu precisava dar atenção e melhorar depois de anos vivendo no piloto automático).

Feitas as considerações sobre a Aline na pandemia (não esqueçam que eu escrevo pra registrar as minhas memórias do tempo pra mim mesma, pra quando eu tiver alzheimer eu ler e pensar – oh, essa moça aí tem umas histórias legais), chegamos à minha idade – 39 – na vacina. E eu confesso que não estava ansiosa pra tomar a vacina, porque ela sinceramente não mudaria nada na minha vida. Eu não tenho mais redes sociais e se tivesse não postaria foto dizendo “viva o SUS” – só quem nunca dependeu do SUS posta esta merda… como diz um amigo meu: se puder, pague plano de saúde e se livre dessa bosta. Enfim, eu não sou normal… Eu não fui no dia que tinha que ir e na semana seguinte vi que tinha a repescagem. E aí resolvi ir pra ficar livre.

E lá foi a Aline… saí de casa às 15h, de camiseta e macacão numa tarde de inverno ensolarada em Curitiba. A minha impressão, de pessoa alienada, era que eu chegaria no local da vacina, entregaria a minha identidade e sairia de lá 05 minutos depois vacinada e livre de mais essa obrigação (porque tamo ligado que não é muito facultativo pra quase todo mundo tomar ou não vacina). Cheguei no local e já não tinha lugar pra estacionar… aí consegui estacionar em uma rua próxima, e fui em direção ao local da vacinação. Chegando lá uma fila enorme, com centenas de pessoas, mas eu achei que em uma hora eu seria atendida – afinal é só uma picada que dura alguns segundos – e fui ficando na fila: uma hora, uma hora e meia… quem conhece o inverno curitibano, sabe que o sol é altamente enganador por aqui. Parece que está quente, mas da mesma forma que ele aparece, ele some – e por volta das 17 horas a minha camiseta não dava mais conta do frio. A minha mão estava ficando roxa e os meus pés estavam congelados dentro do tênis. E a fila dava sinais de que não acabaria tão rápido quanto eu achava no começo.

A temperatura caiu 7 graus nas duas primeiras horas de fila. Eu saí de casa com 16 graus e sol, e às 17h fazia 9 graus e já não havia mais sol. O local da fila era um campo aberto, num bairro alto e com bastante vento. Ou seja, os 9 graus pareciam bem piores. E sem nada pra fazer na fila, resolvi rezar o terço pra mexer os dedos. Rezei o terço, depois ouvi o Evangelho e a homilia no YouTube, dei pequenos pulinhos pro corpo se sentir vivo e, ao final, já tremendo por dentro e sem muita força, mas me mantendo dignamente na fila, disse assim pra Jesus: “Jesus, eu tô com tanto frio que te ofereço esse frio para que o Senhor salve as almas do purgatório… mas se não quiser usar pra isso, usa do meu frio como sacrifício por alguém está precisando de orações!”.

Aquilo me confortou um pouco, o frio não passou, mas parecia ter algum sentido. Mas aí uma coisa linda aconteceu. Alguns minutos depois da oração, uma moça que estava na fila, em outro ponto, parou ao meu lado e disse assim: “você parece com muito frio, pegue o meu cachecol que é grande e se cubra um pouco”. Eu agradeci e disse que devolveria, mas ela disse pra eu não me preocupar, que era um presente. E aí ela voltou para o lugar dela na fila (que já era quase no final, enquanto eu ainda estava no meio, depois de 3 horas de fila). Uns cinco minutos depois, uma outra moça parou ao meu lado e tirou um dos casacos que ela usava e me deu, dizendo que era pra eu não passar frio. Eu fiquei mais uma vez emocionada e agradeci, dizendo de novo que gostaria de saber o lugar dela na fila para devolver o casaco antes de ir embora. Ela me disse, porém, que nós todos éramos irmãos e estávamos juntos naquela situação – que eu não me preocupasse em devolver o casaco.

E naquele frio congelante, naquela fila interminável, Deus mandou dois anjos para me aquecer. Dois anjos em forma de gente, que tiraram as roupas do corpo pra me dar, pra eu não congelar naquela fila interminável. Eu me vacinei depois de 5 horas de fila e muita conversa com Deus naquela tarde lenta e fria. Se eu não tivesse me alienado de tudo sobre COVID eu saberia que as pessoas passam horas na fila e talvez tivesse ido mais cedo e levado uma blusa… mas se eu não tivesse me alienado, se eu não tivesse usado desse tempo para alimentar a minha fé, eu não teria presenciado e vivenciado um milagre. Deus cuidou de mim quando eu me senti sozinha e sem condições de fazer nada para mudar a minha situação naquela fila. Quando eu aceitei a minha cruz, Deus me mostrou que eu não estava sozinha para carregá-la e que Ele cuidaria de tudo, mesmo que eu não esperasse nada naquele momento.

Eu sou grata a Deus por ter ido tomar a vacina, não pela vacina, mas porque Ele se mostrou pra mim ali, naquele instante que eternizo agora nesse texto. Eu sempre quis ser parte de um milagre na vida de alguém e aquelas duas moças foram um milagre para mim naquele dia. Ao chegar em casa, ainda tremendo de frio (mesmo agasalhada), guardei com carinho a blusa e o cachecol e vou mantê-los comigo para sempre. Eles são a minha prova do milagre. A prova que Deus não só existe, mas é generoso, gentil e cuida de nós nas pequenas e nas grandes coisas. Talvez um dia chegue a minha vez de ser o milagre. Tomara que aconteça e que eu esteja atenta e disponível – para que outra pessoa possa se sentir da mesma forma que eu me senti naquela tarde.

E você, já viu um milagre? 🙂 Se quiser mandar um e-mail, um comentário ou um sinal de fumaça, eu realmente adoraria saber. 🙂 O e-mail é alinespmenezes @ hotmail.com
Boa noite a todos e bom final de sábado!

Sim, é necessário enxergar a beleza oculta! :)

Às vezes a gente acha que está pronta: pronta para viver a vida, pronta pra tomar decisões, pronta pra resolver os problemas do mundo ou os problemas de todo mundo… Não importa: nem sempre o que a gente pensa é realmente verdadeiro ou possível. Na maioria das vezes a gente cria uma ilusão e mergulha nela, como se ela fosse real e sólida, e os nossos “sim” fossem realmente fortes e destemidos.

Construímos altares para os nossos “sim”, para as nossas vontades. Distraímo-nos com tudo o que nos entorpece, como um viciado que se droga para se sentir vivo. Quais são as minhas drogas, quais são as vontades, as minhas vontades que me fazem acreditar que eu alcancei o céu, quando no fim eu estou me afundando no mais profundo dos infernos?

Eu quero tanta coisa… uma criança olhou no fundo dos meus olhos e disse “como você é bonita, como teu cabelo é bonito!” e eu sorri… e sorri sem graça porque eu realmente não esperava receber aquele elogio. Eu parei pra pensar: como eu recebo elogios de crianças e como recebê-los alimenta a minha alma de alegria. Talvez eu tenha passado a vida inteira esperando elogios das pessoas que não são crianças… E eu os recebo, mas eu realmente nunca acreditei neles. Eles sempre me pareceram protocolares e educados demais. No fim, há sempre muito pouca verdade nos “sim” que nós dizemos uns aos outros.

Eu abandonei recentemente as redes sociais. Eu sinto que o mundo está me devorando e eu preciso me proteger de tudo. Eu tenho me sentido sinto vulnerável quando sou encarada pelos olhos do mundo. Eu não quero mais receber elogios por minhas fotos, por meus insights ou pela vida que eu mostrava pra todo mundo. Quantas daquelas coisas eram reais? Quantas das minhas fraquezas não foram mascaradas pelo “sim” alheio, aquela espécie de aprovação social que nos faz nos sentir relevantes e importantes?

Outro dia eu fiz uma viagem solitária, madrugada adentro, num exercício de dirigir sozinha por uma estrada praticamente deserta. Enquanto eu me assustava com o que estava fazendo, eu disse pra Jesus sentar comigo no banco do carona e falei tudo o que eu pensava sobre as coisas que acontecem comigo, falei tudo o que eu pensava Dele e pedi pra Ele dar um jeito de me responder porque eu sabia que Ele estava ouvindo e não aceitaria nenhum silêncio como resposta.

Eu não podia ficar em silêncio porque o silêncio, naquelas condições, seria quase como um atentado à minha própria vida. Eu precisava de companhia, eu precisava saber que eu não estava sozinha no meu caminho e Deus, em suas sutilidades, começou a falar comigo através de músicas aleatórias que tocavam uma atrás da outra na playlist. Essas músicas falavam de caminhos, da necessidade de nos reconhecermos solitários… algumas bradavam revoltas, enquanto outras enchiam o meu peito de raiva, tristeza e lágrimas. Enquanto eu ouvia cada palavra, das dezenas de músicas providenciadas pelo universo para que eu entendesse o que Deus gostaria de falar comigo, a lua despontou no horizonte, gigante, naquela forma de sorriso, um sorriso capaz de iluminar uma estrada chuvosa e deserta numa noite fria e solitária.

Nas várias horas em que eu passei no caminho, o meu caminho passou por mim. E pela primeira vez eu agradeci, de forma real e sincera, por tudo o que me levou a estar ali, naquele tempo em que o “sim” foi realmente verdadeiro e consciente. Eu quero uma vida repleta de “sim” como o que dei naquela noite… eu quero uma vida repleta de elogios como do menininho tão lindo que me fez tão feliz. Eu quero continuar de pé, sabendo que o meu caminho é meu, só meu e do carinha lá de cima, que gentilmente aceitou o meu convite e resolveu ser meu carona e companhia, não só numa viagem de poucas horas, mas na viagem da vida. E eu sou grata – porque existe sentido no caminho, mesmo que nós não sejamos capazes de entender o sentido durante o caminho!

Sim, é necessário enxergar a beleza oculta! 🙂

Coragem! Eu venci o mundo!

Hoje fui à missa e no início dela o Padre disse que ela seria celebrada por alguns falecidos: um homem que morrera ontem, um que morreu há 07 dias, outros que morreram há meses ou anos.  Dificilmente você vê a igreja cheia por uma missa em que se recorde a morte de alguém que ocorreu há meses ou anos, mas a celebração do 7º dia é, costumeiramente, a celebração em que um contingente considerável de familiares e amigos do falecido se encontram para se consolar e abraçar – algo agora meio fora de moda nesses tempos de máscaras e pandemia.

Apesar da tristeza, hoje também ocultada pelas máscaras dentro da Igreja, é bonito ver que essas celebrações pela alma de alguém têm o poder de reunir pessoas que não se veem com frequência e dentre essas pessoas, levar à Igreja um grande número de homens e mulheres que não frequentam a missa de forma regular: o católico “não praticante”, que vai à Igreja participar de batismos, casamentos e missas de sétimo dia. 

Independente da crença – ou da falta dela – esse fenômeno vivenciado nas missas de sétimo dia só serve pra nos provar que a morte de alguém, a maior das dores experimentadas pelos seres humanos, é capaz de nos unir a todos em um único rebanho de condenados, como bem já disse Ariano Suassuna. 

Estamos todos condenados a morrer.  E por mais que nos agarremos a estatísticas, evidências, genética, superstições, religiões ou qualquer tipo de feitiço ou magia, nenhum de nós tem nenhum controle sobre quando, como ou de qual modo iremos deixar o único mundo que concretamente conhecemos.  Os suicidas tentam, de alguma forma, controlar o quando, mas o que vem depois mesmo pra eles permanece obscuro – tanto que um verso genial de uma canção dos Engenheiros do Hawaii afirme que, a tentativa de controlar o quando implica, também, na tentativa de controlar o próprio destino: “todo suicida acredita na vida após a morte”.

A morte é a derrota dos iguais.  Eu sou católica e essa é, dentro do catolicismo, a semana oficial para pensar na morte.  Cristo se fez igual a nós e foi derrotado pela morte como nós estamos fadados a ser.  Cristo sofreu no corpo as agruras de ser um mortal: teve sua face dilacerada, sua cabeça preenchida por espinhos, foi exibido nu e, desnudado de qualquer proteção ou esperança, foi abandonado e chicoteado.  Abraçou seu próprio destino sem recuar e por isso morreu e foi sepultado.  Mulheres e amigos choraram em cima de seu corpo.  Sua mãe sentiu a maior das dores que pode sentir uma mãe.  Cristo levou sobre si as nossas dores, não sem antes experimentá-las ao extremo.  Ele foi como nós até o fim. 

Essa semana eu falava sobre carregar a cruz da minha vida e ouvi “Aline, você não é Jesus Cristo”.  E eu não sou mesmo.  Jesus conhecia e aceitou o seu destino e a sua cruz.  Quantas vezes, oh meu Deus, eu já reclamei e recusei a minha própria cruz? Quantas vezes eu já disse a Deus que eu não merecia passar por várias coisas que passei.   Quantas vezes eu não aceitei o meu destino e entreguei a minha dor nas mãos de Deus porque me sentia plenamente dona do meu caminho, capaz de superar qualquer coisa sozinha… Se o próprio Cristo teve ajuda para carregar a cruz, por que eu tenho que fazer tudo e sofrer sozinha?

Nesse meu exercício de pensar sobre a minha própria morte e sobre a minha cruz, eu visualizei o meu velório, a minha missa de sétimo dia.  Se você, como eu, estiver disposto a pensar sobre isso, feche os olhos por alguns minutos e imagine-se vendo o seu próprio corpo.  Veja o ambiente em que você está, ouça o que as pessoas falam sobre você.  Quem está lá? Quem chora por você? Quem sofre a sua perda?  Eu chorei um monte a primeira vez que fiz esse exercício.  Confrontar-se com a própria finitude é uma das experiências mais dolorosas que podemos experimentar.  Mas entender a morte nos cura as feridas da vaidade, do rancor e da falta de perdão. 

Eu não sei quando, como e de que maneira minha vida terá fim.  Você também não sabe.  Pouco importa, pois no fim, o clichê: “nós só temos o hoje” é a única coisa totalmente verdadeira e real que sabemos sobre a vida.  Só temos o hoje para amar, o hoje para pedir perdão, o hoje para estarmos  perto daqueles que amamos.  Não desperdicemos o hoje com medo de morrer.  Abracemos o hoje certos de que o presente é o maior dos presentes que Deus nos deu.  Sejamos gratos pela oportunidade de respirar, que hoje tantos vão deixar de ter. 

De resto, peço a vocês e a mim também, paciência nos dias difíceis, fé nos dias em que continuar a seguir parecer impossível e amor em todos os momentos.  Nós nunca estaremos sozinhos!

“No mundo haveis de ter aflições. Coragem! Eu venci o mundo!” (João 16, 33)

2020 acaba numa quinta-feira – e isso diz muito sobre 2021

Hoje eu voltei de uma viagem incrível que fiz no final de semana. Acompanhada da minha playlist e de um sol pra cada carro da estrada, eu atravessei sozinha a estrada que liga o Brasil ao Sul do mundo (Sul do Brasil também, mas nós gostamos de pensar que somos o Sul de algo maior, o mundo). Eu gosto muito daquela estrada: além de conhecê-la muito bem, eu acho linda a paisagem que insiste em me maravilhar cada vez que eu volto pra casa.

Dirigir sozinha tem algumas vantagens: ninguém se incomoda com a música, ninguém dá palpites construtivos sobre o seu modo de dirigir – “você tá muita rápida”, “vai devagar”, “preciso fazer xixi”. No fim, o silêncio grita forte dentro da minha cabeça – e me faz viajar na viagem, tal como o nome daquele site famoso… E viajar na viagem talvez tenha sido a melhor forma de viver o último dia útil do ano – já que no dia 31 de dezembro o mundo já está vivendo o 1º de janeiro.

Enquanto eu fazia a viagem pela minha cabeça, pensando no ano que tá terminando, em todas as coisas que aconteceram, eu me dei conta que dia 31 é uma quinta-feira. Eu nasci numa quinta-feira e meu aniversário, celebrado daqui a duas semanas, cairá também numa quinta-feira. No meu ranking de dias prediletos, a quinta-feira só perde para o sábado. Quintas-feiras são dias felizes: falta muito pouco para o final de semana e nós já sabemos se a semana que passou foi boa ou não. Todo mundo celebra o sextou, mas há uma poesia nas quintas-feiras: elas abrem o nosso espírito para o dia em que jogaremos, tal como Sísifo, a nossa pedra da montanha e correremos atrás dela felizes por vê-la descer: “hoje é sexta-feira, dia de cerveja…” e “todo mundo espera alguma coisa de um sábado à noite…”, não importa! O nosso espírito precisa das quintas-feiras para se preparar para a alegria e felicidade dos dias que vêm depois.

Você pode me dizer que isso vale para todos os dias. Sim, é uma maneira de pensar, mas todos os dias da semana carregam dentro de si características que os fazem mais ou menos leves, mais ou menos esperados, mais ou menos felizes. A quinta-feira é a grávida que entra na 39ª semana, ansiosa por pegar seu bebê nos braços; é a namorada que enfim vai encontrar o namorado, depois de um tempo de saudades; é a expectativa do abraço, do encontro, da festa… é o dia em que nosso espírito, repito mais uma vez, se prepara para a felicidade.

E nada mais incrível que um ano como 2020 terminar numa quinta-feira. Talvez muitos de nós tenhamos sonhado tanto com o fim de 2020 que agora que esse fim chegou nada melhor do que celebrá-lo como uma sexta-feira redentora, o dia em que podemos ser felizes apesar de todas as dificuldades que passaram. Se pensarmos em 2020 como uma semana, nós enfim estamos chegando na sexta-feira, o dia em que podemos viver livres e nos sentir vivos, apesar do peso do tempo, do trabalho, das obrigações. Por isso é tão simbólico 2021 começar numa sexta-feira e 2020 terminar numa quinta-feira.

Viajei bonito, eu sei… mas enquanto eu dirigia, contemplei um verdadeiro espetáculo de luzes no entardecer. Nuvens muito, muito brancas que, iluminadas pelo sol, pareciam permitir que, por alguns momentos, eu fosse capaz de contemplar o céu – não o céu que a gente vê todos os dias, mas o céu aberto, um céu que parecia ser a porta de um lugar desconhecido, mas repleto de alegria e felicidade. Na hora eu pensei em tirar fotos, mas nenhuma foto seria capaz de descrever ou retratar aquela beleza, porque nossos instrumentos, por melhores que sejam, são limitados, assim como nós.

O que agora vemos é como uma imagem imperfeita num espelho embaçado, mas depois veremos face a face. Agora o meu conhecimento é imperfeito, mas depois conhecerei perfeitamente, assim como sou conhecido por Deus.

I Cor 13, 12

Eu não tenho absolutamente nada a reclamar de 2020. Deus, em sua infinita bondade e amor, foi muito generoso comigo, me dando coisas que eu nem pensava em ter. Cheguei viva até aqui, o que já é um sinal imenso da graça de Deus na minha vida. Além disso, pude me apaixonar pela vida e pelas suas surpresas muitas e muitas vezes nesse ano – e me sinto privilegiada por chegar ao final desse ano com o coração cheio de alegria e esperança, apaixonada de todas as formas possíveis e feliz com a minha jornada até aqui.

Já é quinta-feira, o Palmeiras ganhou o último jogo do ano e vai pra sua primeira final ano que vem, a lua estava linda mais cedo e amanhã estará cheia de novo, tal como o meu coração, repleto do céu que se abriu pra mim não só na estrada, mas em todo esse 2020. Olhemos para as coisas boas, levantemos nossos olhos para o céu. Ao invés de maldizermos o ano que passou, tão difícil em tantos aspectos, tenhamos a consciência de que anos assim têm o poder de nos marcar para sempre. Eu me lembrarei sempre de 2020 e isso já é, por si só, incrível.

Deus é bom o tempo todo – e o ano terminar numa quinta-feira não é uma mera coincidência. Penso que Deus se diverte com esses pequenos detalhes e faz da nossa existência uma eterna brincadeira entre Chronos – o tempo dos homens, o tempo dos dias, o tempo dos anos – e Kairós – o tempo da eternidade, o tempo desde sempre, o tempo de Deus. E assim nós teremos uma quinta-feira de ansiedade e alegria, onde esperaremos por um 2021 que venha carregado de sextas-feiras, sábados e domingos, os dias em que nos unimos aos que amamos, que temos tempo para celebrar a vida, a alegria e o privilégio de estarmos vivos.

Adeus 2020 e que a contagem regressiva da quinta-feira, pela qual tanto esperamos, nos leve numa estrada que nos permita, sempre que possível, nos maravilharmos com o incrível da existência.

Feliz 2021!

Por que Charles e Diana deveriam ter assistido Casablanca – a mais real das histórias de amor

Nos contos de fadas, as princesas e príncipes passam por situações horríveis, banhadas a sangue, suor e lágrimas antes de encontrarem o final feliz: uma cerimônia de casamento linda e heroica, com dois noivos apaixonados e que venceram o inferno para chegar até o momento de suas promessas finais de amor e fidelidade. Assim termina grande parte dos filmes românticos: com a celebração de um amor que enche de lágrimas quem está do lado de cá da telinha ou do telão, sonhando com a sua metade da laranja, com o seu chinelo velho para um pé cansado, com a sua dita alma gêmea.

Esse texto não é genérico, porém. Ele é fruto de uma cena da quarta temporada de The Crown que ocupou meus pensamentos nos últimos dias. Eu sou meio obsessiva com algumas coisas: se uma cena de um filme ou uma música me chama atenção ou me faz pensar, eu a repito por dezenas ou até centenas de vezes, como se quisesse imortalizá-las na minha mente. Tenho a impressão que eu tenho algum lugar reservado no cérebro que poderia se tornar uma sessão especial daquelas antigas locadoras de vídeo: “veja aqui sua cena predileta daquele filme que você precisa assistir”. São dezenas de cenas e suas trilhas sonoras responsáveis pela formação do meu imaginário, pela minha compreensão do mundo. E a Princesa Diana e o Príncipe Charles são protagonistas, agora, de uma dessas cenas.

Não é a cena do casamento, não é a cena do noivado, não é a cena de um namoro que na série é mostrado como quase inexistente. Contrariando os happy endings dos contos de fadas, eles não se casaram por amor, mas sim pela determinação da Coroa em fazer o desejável e o necessário para passar incólume pelas intempéries da Modernidade. A cena que me marcou é uma dança de Charles e Diana em sua viagem a Austrália, quando eles dançam na frente de dezenas de convidados em um jantar de gala:

Nessa cena, eles se olham enquanto dançam, eles sorriem um para o outro de forma real e espontânea. Eles por um instante experimentam o amor que não tinham, o verdadeiro final feliz, iluminado por uma música incrível, com uma atmosfera recheada de um romance irreal, mas ideal e desejável. Se a história deles acabasse naquele momento, teríamos a impressão que eles se amaram profundamente, que foram muito felizes e tiveram um amor perfeito.

You’re just too good to be true (Você é tão bom para ser verdade)
I can’t take my eyes off you (eu não consigo tirar meus olhos de você)
You feel like heaven to touch (você é como tocar o céu)
I wanna hold you so much (eu quero tanto te abraçar)
At long last love has arrived (enfim o último amor chegou)
And I thank God I’m alive (e eu agradeço a Deus porque eu estou vivo)

Mas o show acabou, as luzes se apagaram e Diana e Charles revelam o pior de uma geração: duas pessoas mimadas, incapazes de olhar para algo além do seu próprio umbigo, empenhadas em serem boas para si mesmas, em satisfazerem suas vontades e caprichos. Dois infelizes: ela por não receber a atenção que julgava merecer receber e ele por não ter se casado com a mulher que amava, mas que não era adequada. Os dois recorrendo a uma vida paralela, numa busca desesperada por romance e atenção culminada no desprezo de ambos um pelo outro. Desprezo e desamor nos tornam doentes: ela vítima da bulimia, ele vítima da depressão e do ódio. Desprezo e desamor nos matam de forma lenta e cruel: aos poucos, deixamos de ser quem deveríamos ser para nos tornar algo que o nosso ódio nos faz acreditar que somos.

E assim, tomados pelo ódio a si mesmos e ao outro, eles se entregaram àquelas pequenas traições que se tornam gigantes e que, dentro de alguns anos, os arruinariam enquanto seres humanos. Uma vida recheada de coisas feias e ruins nos torna feios e ruins. Não importa quão bela fosse a princesa, não importa que a cabeça do príncipe possa carregar, um dia, a coroa mais célebre de toda a história: eles foram machucados e humilhados por sua própria vaidade, por sua infantilidade e pela sua recusa em se tornarem adultos maduros e ciosos de seu papel no mundo.

Charles e Diana são o retrato de uma geração destruída por acreditar que merece demais, por acreditar que o mundo ao seu redor sussurra desde sempre “You’re just too good to be true, I can’t take my eyes off you…“. Eles não eram bons demais, embora se enxergassem dessa forma. Por isso que Casablanca é desde sempre o meu filme da vida: o conto de fadas termina com a realidade de um avião que precisa decolar no aeroporto, com um dos mais incríveis protagonistas do cinema levantando o olhar de sua amada e dizendo: “Não sou nobre, mas os problemas de três pessoas não são muito neste mundo louco”. Sim, tal como Rick, o mundo nos diz todos os dias: “Here’s looking at you, kid”, ou o famoso: “Estou de olho em você, garota”.

Charles e Diana deveriam ter visto Casablanca. Nada como um mundo destruído pra mostrar o quão insignificantes são nossas questões e problemas. O mundo nos olha como pessoas reais, como Rick e Ilsa que sabem que o verdadeiro conto de fadas não morre, afinal, “nós sempre teremos Paris”, mesmo que essa Paris seja somente uma grande e distante lembrança de uma época em que eles realmente se amaram e sonharam juntos. A história segue seu próprio rumo e todos nós estamos colados ao nosso próprio destino. Sejamos felizes e gratos pelos momentos em que fomos felizes por experimentar o amor – mesmo que esses momentos se percam pelo caminho.

I need you, baby (eu preciso de você, querida)
Well, won’t you come my way? (Bem, você não virá até mim?)
Oh, pretty baby (Oh, minha linda)
Now that I’ve found you, stay (agora que eu te encontrei, fique)
And let me love you, baby (e me deixe amar você, querida)
Let me love you (deixe-me amar você)

Precisamos falar sobre mulheres – e senta que lá vem a história!

Outro dia o julgamento de um caso de estupro tomou as rodas de conversa pelo país, as redes sociais e incitou uma série de reações e debates acalorados sobre o tratamento destinado às mulheres pela sociedade. Sim, precisamos falar sobre mulheres.

Eu não vou falar sobre o estupro ou não estupro: não conheço o processo, não conheço a moça, não conheço o moço que foram os protagonistas do circo do estupro culposo – termo inventado pela mídia esquerdista no Brasil para fomentar o debate. Não me importa o caso, não tenho interesse em participar disso. O que tem ocupado meu pensamento desde que soube do caso foi: o que nós mulheres estamos nos tornando? Qual a nossa responsabilidade no caos que se tornou a sociedade em que vivemos?

“Machista, misógino, patriarcal”: assim somos ensinadas a definir o estamento social em que tivemos o “azar” de nascer com seios e com uma vagina no meio das pernas. Sim, que azar o nosso. Estamos condenadas, para sempre, a sermos seres inferiores, subjugadas por homens que encherão nossos úteros de outros homens, que perpetuarão o círculo vicioso da opressão e da falta de perspectivas de um futuro igualitário e justo para nós mulheres, as grandes vítimas do universo desde a sua criação.

Quem tem a minha idade (hoje eu tenho 38 anos, 09 meses e 28 dias) com certeza ouviu da sua mãe que uma mulher tem valor pelo que ela traz para casa – de forma econômica. Minha mãe não trabalhava fora e ficava em casa para cuidar dos 4 filhos e eu me lembro dela sempre me dizer que uma mulher deveria lutar para ser independente do marido. Eu tinha 6 anos e minha mãe já sonhava que eu seria uma mulher forte, que saberia dirigir, trabalhar fora e nunca precisar cuidar da casa e das crianças. Ela sempre dizia que mulheres inteligentes não faziam essas coisas domésticas, mulheres inteligentes como eu – sim, eu era tida por um fenômeno da inteligência quando era criança – não deveriam ocupar sua vida cuidando de casa, família ou marido… naquela época, aos 6 anos, eu já ouvia – não da minha mãe, mas de algumas pessoas da família – que eu nunca teria um marido, porque nenhum homem gosta de mulheres inteligentes que falam o que pensam.

Eu sempre falei demais. Sempre. Sempre. Eu sempre quis participar de todos os debates da última hora. Sempre quis mostrar que eu podia dar a minha opinião sobre tudo. E faço isso desde que me entendo por gente. E hoje eu vejo que esse processo de querer opinar sobre tudo me atrapalhou muitas vezes. E atrapalhou não porque eu não devesse falar, mas porque muitas vezes eu falava somente pela vaidade de ter reconhecida a minha inteligência – não por ter refletido a fundo sobre uma determinada questão ou assunto. Ou seja, por me achar inteligente eu já defendi muita opinião bosta. Mas o importante é participar, não? Já que eu não ia encontrar um homem que gostasse de mim pela minha inteligência, eu me utilizava da minha capacidade de me comunicar para satisfazer a minha necessidade de reconhecimento, afeto e alimentar a minha vaidade.

Por que eu estou escrevendo sobre isso? Porque eu entendo hoje que nós mulheres somos vítimas não dos homens, não da sociedade “machista, misógina e patriarcal”, mas vítimas das outras mulheres que, inseridas de forma plena em uma cultura marxista hegemônica, pregam que a liberdade só nos é possível quando abolidas todas as condições antagônicas, materiais e espirituais, que ocupam desde sempre o mundo: família, religião, papéis biológicos e sociais constituídos através de laços de sangue, lealdade e afeto. Nós mulheres repetimos, como rainhas da liberdade, o discurso que acaba por nos destruir enquanto seres humanos integrais e complexos. Não é a vagina que nos faz mulheres – a vagina é só uma característica biológica – “meninos têm pênis, meninas têm vagina”. Somos mulheres porque, além da nossas características biológicas, temos características emocionais que nos diferenciam da outra metade do mundo que não tem útero, seios e pés e mãos fofas sempre que a gente volta manicure. Somos mais complexas do que a biologia pode supor – e por não pensar sobre isso temos falhado miseravelmente na tarefa de nos tornarmos grandes nesse mundo louco.

Criar uma mulher é mais que “empoderar” uma mulher. Eu realmente odeio esse termo. Você mulher que me acompanhou no texto até aqui tenha ciência de um coisa: eu não acredito em empoderamento. Eu hoje sou capaz de refutar qualquer discurso que pregue que a mulher é melhor por ser mulher. Não, grandes pessoas não são fruto da biologia, mas de uma vida cujo centro está fora do seu próprio umbigo. Eu aprendi isso quando, por ocasião da minha separação, percebi que tudo que eu ouvira desde sempre vencera na minha vida: ao me ver sozinha, pela primeira vez na vida, eu tive tempo de perceber que, embora eu abominasse o feminismo, eu era uma feminista de mão cheia: o marxismo cultural ocupava minha mente e moldara o meu modo de pensar. Embora na teoria eu soubesse os estragos que o feminismo enquanto ideologia trouxera para o mundo, eu me sentia oprimida na minha liberdade, na minha sexualidade, nos meus afetos e desejos. Eu era escrava não só da minha vaidade, mas também escrava de um mundo que não parecia querer se conformar aos meus desejos e vontades. E quando a vida me dobrou e eu tive que amadurecer à força, eu me dei conta de que o discurso que eu ouvira desde sempre não tinha o intuito de me libertar, mas de me atomizar, me deixando sozinha para que eu fosse mais dócil aos anseios do sistema. Como assim? Uma pessoa sozinha, sem laços reais e profundos de afeto, sem perspectiva de eternidade, vai viver só para o dia de hoje. E vivendo só para o dia de hoje ela vai repetir, de maneira apressada e inútil, todos os discursos que perpetuarão a cultura que as matará enquanto indivíduos complexos e eternos.

Ontem na homilia da missa o Padre disse que quando a gente vê alguém que tem muita fé pode ter certeza de que aquela pessoa já passou por muita coisa antes daquela fé se manifestar de forma tão forte. Ninguém tem fé porque a vida é um mar de rosas. As pessoas têm fé porque, num momento em que a alma delas parecia pronta para a morte, elas sentiram uma força sobre humana que as ajudou a passar pelo processo e a se reerguerem. Eu sou uma dessas pessoas. Eu hoje entendo o processo que contei acima porque eu fui vítima desse discurso. Eu não tenho filha, mas tenho uma sobrinha pela qual eu sou completamente apaixonada e não gostaria que ela passasse pela dor que eu passei simplesmente por não ter o exemplo de que a vida pode sim ser vivida de forma plena sem o discurso de emporamento a qualquer preço. E a partir dessa percepção eu coloquei como objetivo dos meus dias ajudar outras mulheres a não passarem pelo que eu passei.

Como eu posso fazer isso? Como nós podemos fazer isso? Não pensem que é uma tarefa fácil. Educar alguém é uma missão de vida. Mas nós podemos nos unir em uma comunidade já, uma comunidade de apoio mútuo, onde possamos compartilhar nossos medos, angústias e desejos. E essas comunidades são, essencialmente, comunidades de afeto, ou seja, é nos unindo a nossas filhas, amigas, colegas de trabalho e irmãs que poderemos salvar umas às outras. Quer se transformar numa mulher de verdade? Ouça boas músicas, leia bons livros, tenha boas amigas e boas conversas. Veja bons filmes. Não publique fotos em que o seu corpo seja o maior ativo. Não faça os homens olharem mais pra sua bunda ou pro seu decote do que pra sua beleza real. Não incentive aquelas que estão ao seu redor, a sua comunidade de afeto, a terem caras por uma noite, por uma ficada. Se isso acontecer, estejam por perto e prontas quando vier a frustração se o cara não ligar no dia seguinte. Tá tudo bem. Enquanto houver vida, há possibilidade de recomeçar. Não defenda o aborto como medida de saúde pública onde a alma da mulher é vilipendiada, porque a torna responsável pela aniquilação de outra pessoa. Não diga a outra mulher que o valor dela é medido pelo dinheiro que ela ganha. Não é. Não diga que ela só será feliz quando for desejada e admirada por alguém (especialmente quando isso envolver tesão e sexo). Ensinemos às nossas amigas, às nossas irmãs, às nossas filhas que o nosso valor está no fato de que somos seres humanos dotados de uma alma imortal capazes de amar de forma real e transformadora. Não é o discurso que nos liberta: são as ações. E através das ações seremos mulheres melhores, cujo valor não estará em discussão em um tribunal num caso de estupro.

É nisso que eu acredito. Não espero que você concorde com tudo o que eu escrevi. Não tenho a pretensão de falar em nome de ninguém. Não tenho a pretensão de ser exemplo. Minha vaidade já sabe que elogio passa – e crítica também. Muitas mulheres me pediram para escrever sobre o estupro da garota. Eu não tenho competência para falar sobre o que eu não sei, mas esse texto é fruto da minha reflexão nos últimos dias e eu espero, de coração, que ele faça sentido para alguém, porque foi difícil pra cacete escrever tudo isso.

Eu escolhi uma foto das minhas últimas unhas para ilustrar esse texto. E ao vê-las tão coloridas eu tenho a certeza de que a vida é incrível, mesmo quando as coisas parecem fora do lugar ou um tanto confusas. Não tentemos nos adequar ao mundo, ser igual a todo mundo. É nessas pequenas loucuras tidas por sem sentido que a vida se realiza de forma plena. Se divirta com as suas imperfeições e com a sua inadequação. São essas coisas que nos tornam únicas e especiais. Todo mundo gosta de Coca-Cola, mas a gente ama mesmo o Dollynho – que ocupa o nosso imaginário com suas propagandas toscas e músicas de gosto duvidoso. As minhas unhas me fazem uma linda Dollynete e por isso as uso aqui hoje.

Vou voltar pra minha vida real agora, com a sensação de ter tirado um peso gigante das costas. Boa quinta-feira, meninos e meninas – nada de pronome neutro por aqui: afinal, tudo que é neutro e morno será vomitado. Se tiverem dificuldades, mandem o carpe diem se foder: somos eternos e só dentro da eternidade a nossa vida encontra algum sentido. Paz e bem!

🙂

13 de Outubro – ou seria 01º de Julho – aquele sobre a liberdade de fazer o bem

“É para a liberdade que Cristo nos libertou.  Ficai, pois, firmes e não vos deixeis amarrar de novo ao jugo da escravidão” (Gl 5,1-6).   Essas foram as primeiras palavras que eu ouvi ontem quando acordei e liguei a missa no YouTube, naquele ritual que eu já contei em outro texto.  Confesso que esse trecho ecoou no meu cérebro por alguns minutos enquanto eu caminhava… Eu pensava: que liberdade é essa para a qual fomos resgatados pelo sangue de Cristo? O que de fato é ser livre?

É bom fazer essas perguntas pra gente mesmo antes das 07h da manhã: é uma forma de digerir o café e acordar o cérebro, naqueles momentos em que a solidão enche a rua, a casa e a vida de silêncio e preguiça.  Uma cabeça cheia de perguntas é como uma estrada infinita de encontros e desencontros entre dúvidas e certezas, entre conceitos e pré-conceitos, entre sonho e realidade.  Mas seria eu livre ou a minha liberdade seria um simulacro de uma realidade na qual eu sou uma marionete operada por forças muitas vezes desconhecidas e ignoradas?

Enquanto eu fazia a minha viagem, solitária e ruidosa pelo conceito e pelos limites da liberdade humana, a voz da Cássia Eller surgiu gritando na estrada dos meus pensamentos.  Ela dizia, em alto e bom som “sou fera, sou bicho, sou anjo e sou mulher, sou minha mãe e minha filha, minha irmã, minha menina… Mas sou minha, só minha e não de quem quiser”.  Não, eu não estava escutando essa música.  Eu estava ouvindo o final da missa e a música do nada pulou sobre a história da liberdade.  “Sou minha, só minha e não de quem quiser”… Eureka? Naquela hora imaginei ter resolvido minha questão… ser livre é ser minha, só minha e não de quem quiser… Me senti foda por um momento, afinal parecia que eu tinha vencido os meus pensamentos e desligado a música que insistia em fazer o meu cérebro dançar naquela hora.

A missa acabou, o Padre disse “Ide em paz e que o Senhor vos acompanhe”.  Santificado seja o vosso nome, repeti algumas vezes para mim mesma e fui atrás de uma playlist aleatória do Spotify para me fazer companhia na caminhada que agora se tornaria corrida pelos próximos 55 minutos.  Eu escolhi uma playlist com o sugestivo nome de cápsula do tempo, com músicas selecionadas pelo aplicativo com o objetivo, conforme eles mesmos definem, de nos levar em uma viagem pelo tempo.  E como o acaso não é uma força tão presente na minha existência, a tal playlist (que muda diariamente) trazia logo no seu início a música “1º de Julho”, interpretada pela Cássia Eller.  Era um sinal dos céus: eu não era livre, naquele momento, para não ouvir a música.  E se eu ouvisse a música, eu iria voltar a pensar na minha questão da liberdade.  Naquele momento senti que meu cérebro era um daqueles condomínios de classe média baixa, onde os vizinhos acham que terão paz para dormir e um desocupado coloca funk em alto volume às 22:05 de uma quarta-feira normal.  Eu não gosto de funk, mas até que me divirto com algumas confusões alheias. 

Voltando à música, eu dei o play e saí correndo.  E ouvi a música. Quando ela acabou, por alguma razão que eu não entendi, a internet do meu celular acabou também.  Eu não gosto de correr em silêncio, pois os meus pensamentos me paralisam muitas vezes.  Então eu uso a música para falar comigo e me ajudar a organizar as caixinhas nas quais eu devo encaixar minhas questões.  A única música que eu poderia ouvir era a que estava no cache do aplicativo – que não por acaso era a música que eu tinha acabado de ouvir.  Ou seja, ou eu correria em silêncio ou ouviria a música no repeat por muitas vezes.  É obvio que eu só fui livre para fazer essa segunda escolha, afinal não era bem uma escolha, era uma decisão simples sobre algo que eu gosto e preciso e algo que eu não gosto (correr sem música). E lá fui eu, por quase uma hora, ouvindo a música no repeat.

E a experiência não poderia ter sido mais feliz: ao ouvir dezenas de vezes os versos de 1º de Julho eu entendi que sim, eu sou minha, só minha e não de quem quiser e que isso significava, no contexto da minha liberdade, que só eu era totalmente responsável por todas as minhas escolhas e decisões, fossem elas boas ou ruins.  Que eu não poderia terceirizar minha vida, meus fracassos e meus desejos a quaisquer pessoas, mesmo que eu as amasse, ou elas me amassem de volta.  Que era insensatez buscar segurança em tudo que fosse humano, porque nós humanos somos escravos uns dos outros, escravos das nossas vontades, da nossa vaidade, dos nossos sonhos, dos nossos afetos e dos nossos medos.  Nunca fomos e nunca seremos livres.  Somos, por fim, escravos da morte e não temos como evita-la.

É para a liberdade de sempre escolher por tudo aquilo que é belo, bom e verdadeiro que Cristo nos libertou como homens e mulheres, feitos à sua imagem e semelhança.   Ele nos deu o livre arbítrio para que pudéssemos escolher e sonhar com o céu, sabendo que conquista-lo é uma graça, não um mérito ou um merecimento.  Deus, sendo Deus, poderia simplesmente nos obrigar a fazer o certo e estaria tudo bem.  Mas ele não quis fazer isso.  Pelo contrário: ele nos fez livres para dizer não, para negar a graça.  Afinal, não seríamos imagem e semelhança se não pudéssemos escolher sempre por amor e pelo amor.

Não basta o compromisso
Vale mais o coração
E já que não me entendes, não me julgues, não me tentes
O que sabes fazer agora
Veio tudo de nossas horas
Eu não minto, eu não sou assim
Ninguém sabia e ninguém viu
Que eu estava a teu lado então

No dia 13 de outubro eu aprendi que ser livre é escolher pelo céu, mesmo que isso não faça nenhum sentido para alguém que, como eu, é uma menina terra, signo de elemento terra e que tenha os pés fincados na terra.  O céu é uma condição eterna, não um estado de espírito.  Na viagem do meu pensamento, eu percebi que a escolha é solitária e individual, tal qual a responsabilidade que advém dela, mas Deus se fez humano e ao se fazer humano Ele compreendeu, não pela Lei, mas pelo amor, que nenhum de nós é capaz de fazer nada sozinho e se propôs a ficar ao nosso lado, tal como enfatiza a letra da canção que eu ouvira por alguns quilômetros.

Na noite do dia 13 de outubro, em mais uma daquelas coincidências que não são coincidências, meu filho cantava em seu quarto, a plenos pulmões, a mesma canção que ocupara a minha manhã, sem que eu tivesse lhe dito nada sobre a minha viagem.  Ao ouvir meu filho cantar, eu finalmente entendi o sentido dos versos finais de 1º de Julho, agora travestido de 13 de outubro:

O que fazes por sonhar
é o mundo que virá pra ti e pra mim,
vamos descobrir o mundo juntos baby,
quero aprender com o teu pequeno grande coração,
meu amor…

Continuemos a sonhar com o céu enquanto corremos pela nossa breve existência. A liberdade nos permite ocupar-nos de viver. Essa é de fato a única grande escolha da vida.

“Deixa chegar o sonho, prepara uma avenida, que a gente vai passar” – aquele da corrida sob a chuva

Por que eu escrevo?  Eu escrevo porque preciso falar para mim mesma o que eu de fato acredito e o que eu de fato preciso aprender.  O verbo é ação, é fala, é palavra.  É através do verbo que Deus se fez carne e habitou entre nós.  Não existe ação no silêncio: a palavra é viva e é através da fala que nós nos posicionamos perante o mundo, com suas pessoas e coisas.  Mesmo quando nos calamos, nós falamos interiormente e somos guiados por essa voz interior.

Eu sei que Deus me deu esse dom do amor às palavras: eu falei muito cedo (e bastante, desde sempre), aprendi a ler muito cedo (com 03 anos) e escrever é um ofício que me acompanha desde sempre! Eu adoro ler as coisas que escrevi quando tinha 08, 10, 15, 20 anos.  E eu gosto de lê-las porque elas me fazem lembrar de coisas que a minha memória ruim não guardou (eu tenho péssima memória para quase tudo… sou ótima pra lembrar de datas, mas dificilmente lembro de detalhes importantes da minha vida.  Isso já me fez sofrer bastante, mas hoje eu entendo que talvez eu escreva porque a minha memória é tão ruim que escrever sirva para construir minha memória, para que eu tenha consciência do meu passado quando eu estiver no meu futuro).

E as palavras e inspirações simplesmente aparecem, não há um planejamento: a vontade surge do nada, as letras e palavras se misturam sem que eu tenha muito controle sobre elas.  E por isso que eu estou aqui hoje – porque eu tenho que parir as palavras que estão tomando conta do meu cérebro e do meu coração, porque elas servem para mim e talvez façam eco para alguns de vocês que me acompanham por aqui.

Hoje eu saí para correr bem cedo.  Depois do calor dos últimos dias, Curitiba voltou a ser Chuvitiba.  A temperatura caiu muito nos últimos dois dias e o céu das 06h da manhã estava bem fechado.  Eu não vi o nascer do sol como vejo quase todos os dias.  Não havia sol, só havia vento e nuvens.  Mas hábito é hábito: tomei banho para despertar, liguei a missa no celular (estou viciada na missa das 06h, todo dia eu envio a homilia do padre pra alguém), fiz meu café, coloquei meu fone de ouvido e saí para minha corrida.  Não estava chovendo, mas uma garoa bem fininha deixava a paisagem um tanto sombria.  “Aline não é de açúcar” (eu sempre penso isso quando tenho que sair na chuva) e entre orações, pensamentos, silêncio exterior – de uma ciclovia deserta – minha caminhada se encheu de poesia, amor,  esperança e chuva, muita chuva.

“Putz, a chuva apertou… Acho melhor eu voltar para casa… Não, Aline, termine de ouvir a missa que aí você volta.  Não vai chover por muito tempo.”  A missa terminou e a chuva não parou, pelo contrário: aumentou.  Poças e poças se formavam pelo caminho.  Eu pulava as poças, tal como criança feliz por sentir a água invadindo o tênis.  Enquanto a chuva caía sobre mim, eu ouvia música num fone de ouvido naquela altura já protegido pela touca da capa.  Vários carros me encharcaram de água quando passavam pelas poças, que tomavam todo o meu trajeto.  E aquela chuva, que deveria ser um obstáculo, se transformou em um momento de profunda comunhão entre Deus e eu.  Eu abria os meus braços como se eles fossem capazes de abraçar o mundo, como se na imensidão da Terra só existisse eu, a chuva, a lama e as poças.   E corri muito rápido, talvez por estar tão feliz e me sentir tão livre de tudo o que me aprisiona nesse mundo.

Eu não gosto de correr, mas correr tem me curado de muitas coisas.  Adotar como hábito algo que não é natural nos faz pessoas mais fortes, mais conscientes da nossa fraqueza e mais capazes de entender o nosso lugar tão pequeno no mundo.  É obvio que é legal praticar um exercício e sair do sedentarismo porque ficamos mais magras, nos sentindo mais bonitas, mas o exercício pelo exercício, simplesmente pela estética, é profundamente enfadonho – como tudo o que fazemos por obrigação e sem um propósito duradouro.  Qualquer exercício é uma construção de constância.  E constância forma hábitos e hábitos edificam valores.  Eu quando corro sou a mulher que vence a falta de ar da asma, que vence câimbras que, por muitas vezes, transformam meu caminho em um quase calvário; eu quando corro sou a mulher que silencia a sua voz exterior e se obriga a ouvir seus próprios pensamentos, suas próprias palavras, confrontar-se com sua miséria e com a sua fraqueza.  E nessas horas eu me sinto empurrada por algo que está além de mim e que é muito maior do que eu.

No fim da corrida eu vejo a cruz de uma igreja que fica quase no final do meu trajeto.  Na ida, ao olhar para essa cruz, eu agradeço e entrego o meu dia, o dia das pessoas que eu amo, o dia das pessoas que passam por mim no trajeto e também o dia de todo mundo que me pede intercessão e oração…  na volta eu olho novamente pra mesma cruz, levanto meus braços ao céu e, entre dores, suor, orgulho e cansaço, entendo que também carrego minha própria cruz e que nessa cruz, na minha cruz, unida à cruz de Cristo, está a minha redenção, a minha salvação, a minha liberdade.

Hoje eu chorei enquanto corria.  E eu sorri enquanto era levada pela chuva.  E Deus se fez grande na minha miséria, na minha preguiça, na minha fraqueza. Quando eu passei pela cruz, na volta, os versos que tomavam o meu fone de ouvido assim diziam:

Abre a janela agora
Deixa que o sol te veja
É só lembrar que o amor é tão maior
Que estamos sós no céu
Abre as cortinas pra mim
Que eu não me escondo de ninguém
O amor já desvendou nosso lugar
E agora está de bem

Conversa de botas batidas – Los hermanos

O amor está de bem, tem seu lugar no mundo e se transformará em memória porque foi sentido, vivido e escrito.  A palavra como ação transforma, cura e liberta.  A palavra nos faz humanos, ao mesmo tempo em que nos aproxima de Deus, afinal,

Diz quem é maior
Que o amor
Me abraça forte agora
Vem, vamos além, vão dizer
Que a vida é passageira
Sem notar que a nossa estrela
Vai cair

CONVERSA DE BOTAS BATIDAS – LOS HERMANOS