Escutemos as crianças – e aprendamos a ser felizes com elas!

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Outro dia, alguém elogiava o modo como eu contava as histórias dos meus filhos.   Quem acompanha o meu Facebook ou do meu marido já deve ter lido alguma das muitas histórias dos diálogos das crianças e do quanto eles têm uma visão interessante do mundo em que vivem.  Vira e mexe eu escuto:

Como seus filhos são inteligentes, morro de rir com as histórias deles.  

Que crianças únicas! Deve ser divertido demais conviver com eles.

E por aí vai… As pessoas gostam de perceber que as visões de mundo das crianças são perspicazes e divertidas, mesmo que muitas vezes sejam muito simples.  Crianças não complicam as coisas, têm uma vida onde o branco é branco, o preto é preto e chocolate é sempre gostoso.  E isso é lindo!

Sempre que alguém me diz o quanto meus filhos são especiais, eu sempre penso que eles são mesmo especiais, mas que isso não é privilégio deles.  Que muitas outras crianças também têm coisas fenomenais para mostrar ao mundo e que só precisam de alguém que as respeite como indivíduos e que estejam prontas para escutá-las.  E escutar uma criança nem sempre é fácil, eu sei.  No fim, é um exercício de recuperação da inocência – que habita sim em cada um de nós.

Hoje enquanto eu levava os meninos para a escola, eles me disseram que estavam super felizes com o lançamento da segunda geração do Pokemon Go, já que poderiam caçar e conhecer muitos Pokemons novos.  Nessa hora, tocava no rádio a versão que o Maroon 5 fez para The Way you look tonight e os versos do refrão foram estupendamente propícios ao momento:

Lovely
Never ever change

Eu, enquanto dirigia, fiquei comovida com a inocência de meus filhos e por um instante pedi a Deus que os conservasse assim para sempre: genuinamente felizes por uma coisa tão simples.  E o Pokemon é um exemplo só.  Lá em casa, meu filho mais novo adora criar rituais: para as sextas-feiras, o macarrão é almoço obrigatório; aos sábados, tem que ter churrasco e aos domingos lasanha.  Ele também é criador, fundador e presidente (segundo ele próprio) de clubes importantes como o Clube da Costela e o Clube da Lasanha e gosta de agregar novos membros para as suas comunidades.  Ele também adora finais de semana e queria que as férias fossem eternas – porque sempre diz que todo mundo é mais feliz quando está de férias.  Já o meu filho mais velho, é tão maduro que me assusta às vezes.  Ele gosta de discutir com adultos sobre política e dar suas opiniões sobre temas diversos – que vão de aborto à crítica ao padre que critica de forma velada o Trump na homília da missa de domingo, mas ao mesmo tempo ainda briga com os amigos que não acreditam em Papai Noel sobre o quanto isso é ridículo – Papai Noel existe sim – e burro é quem não acredita.

É interessante o quanto essa inocência deles me faz bem.  E eu, que me sinto uma mãe terrível muitas vezes, vejo o quanto ter crianças pode contribuir para nos tornar pessoas mais felizes.  Se há uma coisa que meus filhos me ensinam todos os dias é que a gente pode ser feliz com uma vida simples, amando quem nos ama e fazendo o que gosta – mesmo que isso não seja possível todo o tempo.  Capturar um Pokémon em uma noite de verão, sentado na calçada da praça ao lado de casa pode ser uma experiência incrível.  Crianças nos ensinam que o encanto está sempre ao nosso alcance, sempre! Um diálogo de ontem de manhã lá em casa retrata bem isso:

– Mamãe, se você pudesse ter algum super poder, que super poder você gostaria de ter?

– Ah, Bibe, eu acho que eu gostaria de ter o super poder de fazer todas as pessoas do mundo felizes!

– É um bom poder, mamãe… mas o meu é mais legal! Eu gostaria de ter o super poder da absorção.

Nisso o Murilo grita:

– Bibe, eu já te dei uma aula sobre isso… já te expliquei que você só pode absorver os super poderes das outras pessoas se elas tiverem super poderes.  E se todo mundo tiver super poderes, os super poderes deixam de ser especiais e se tornam comuns.

Nisso o Bibe para, pensa e responde:

– Não é porque todo mundo tem super poderes que eles serão comuns.  Todo mundo pode ter um super poder diferente e eu ser aquele que absorve tudo de melhor que todo mundo tem! 🙂

É, no fim o segredo da vida está em absorver o que de melhor as pessoas têm – mesmo que sejam super poderes muitas vezes escondidos e desconhecidos.  E assim nos tornaremos verdadeiros super heróis na nossa pequena existência perante a imensidão do universo! Escutemos as crianças – elas sabem muito, muito mesmo sobre a alma humana.

I never wanna die – ou a história por trás de todas as histórias

snoopy

Os versos de uma das minhas músicas prediletas do Foo Fighters ecoam com força no meu cérebro neste momento:

I never wanna die
I never wanna leave
I never say goodbye

A tradução deles, eu nunca quero morrer, eu nunca quero partir e nunca dizer adeus é muito forte pra mim… é como se, num grito desesperado, o Dave Grohl expressasse o medo comum a todos os homens do mundo: o medo da morte.  E isso parece piegas, mas não é: a morte é a única certeza que acompanha a vida – é para ela que vivemos, na certeza de que iremos sucumbir em um dia qualquer.

Quando eu era mais nova, achava que uma morte gloriosa seria uma morte jovem.  Na minha cabeça, eu seria uma grande heroína se conseguisse cumprir rapidamente tudo o que Deus planejava para mim e ir morar de vez no Paraíso divino, onde todas as pessoas são felizes… Eu tinha certeza de que, como minha amada Santa Teresinha, morreria com 24 anos e tudo estaria terminado por aqui.  Eu já teria experimentado o sofrimento da existência por tempo suficiente para, enfim, encontrar a plenitude da vida eterna.

Minha mãe morreu quando eu tinha 22 anos e tudo foi muito difícil para mim.  Ela tinha 48 anos e deixou a vida de repente, num dia de sol.  Ela tinha o dobro da idade que eu queria ter quando morresse e naquele dia eu aprendi que o meu desejo pela morte não era heroísmo – era covardia.  Como seria fácil para mim morrer no auge da minha juventude – sem construir nada, sem sofrer o suficiente, sem ter filhos, sem me casar, sem deixar nada para o mundo.  Eu me considerava tão fudidamente superior aos outros que queria deixar a vida sem deixar nada para a vida.

Depois que minha mãe morreu, muitas pessoas que eu amava demais também se foram: a minha tia, minha segunda mãe, morreu três anos depois num câncer que a destruiu… meu filho tinha acabado de nascer e eu não pude ir me despedir.  Nunca vou me esquecer da sua voz tão fraca ao telefone, me dando parabéns pelo meu aniversário três dias antes de morrer.  Aquilo me dilacerou, mas eu não podia mais morrer – eu tinha um filho recém nascido para alimentar, para cuidar, eu havia gerado uma vida e a morte não me era mais permitida.  Algum tempo depois meu sogro morreu, também de repente – sem ver o anúncio que o estádio do Corinthians, seu time do coração, seria construído como um presente pelo centenário do clube.  Em seguida foi a vez da minha avó, que disse para mim que não iríamos mais nos ver a última vez que fui visita-la, três meses antes da sua morte.  Ela estava ótima, mas uma doença simples evoluiu e a matou.  E ela sabia que ia morrer – como minha mãe também sabia – um desses mistérios que acompanham as pessoas de fé – e aproveitou para me abençoar na última vez que nos vimos.  Um ano e pouco depois, meu avô morreu.  E como eu senti essa morte: meu avô é, até hoje, a pessoa mais marcante da minha vida.  Meu filho tem o nome dele, uma homenagem que fiz a ele ainda em vida.  De certa forma, eu queria que ele fosse eterno, mesmo quando não estivesse mais aqui – e assim foi feito.

Como eu estou de férias, tenho tido tempo de sobra para ver filmes – alguns que já vi milhares de vezes e outros que nunca havia visto.  E,  coincidentemente, a temática da morte foi o ingrediente principal de dois que eu vi esses dias e que me tocaram de forma aguda: P.S. Eu te Amo e I miss you already.  P.S. Eu te Amo eu vi por conta de um teste do Facebook que dizia que esse seria o filme da minha vida.  Sabe aqueles testes maravilhosos que falam desde a melhor tatuagem até a cara de seus filhos? Então, num desses testes apareceu a indicação de P.S. Eu te Amo e eu me dei conta de que nunca tinha visto o filme – que é até um tanto velhinho (de 2007).  No filme, o cara tem um câncer cerebral e morre de forma prematura, deixando cartinhas para a sua esposa, com o intuito de fazê-la voltar à vida após a morte dele.  E é lindo o esforço dele em fazer com que as cartas estabeleçam ritos de passagem, tão importantes a quem perde entes queridos.  Um bom filme romântico, sem ser muito piegas.  Neste filme, a morte gera vida, de uma forma um tanto inusitada, mas competente.  Vale a pipoca.

I Miss You Already foi mais pesado.  Até porque  intenção do filme é mostrar como duas grandes amigas enfrentam o diagnóstico de câncer e a doença de uma delas.  Tony Collete e Drew Barrymore conferem muita veracidade às personagens, fazendo com que o drama seja muito palpável.  Eu fiquei pensando que aquilo poderia acontecer comigo e pensei na minha melhor amiga ao meu lado, segurando a vasilha enquanto eu vomitava.  Pensei também no meu marido suportando aquilo comigo, no sofrimento dos meus filhos, dos meus irmãos e do meu pai.  E me debulhei em lágrimas pensando que eu não queria que eles passassem por isso.  É, o Dave Grohl está certo: I never wanna die…

A morte é um tanto injusta.  Não só com quem vai, mas com quem fica também.  A gente vive para morrer, mas não sabe lidar com o fato de que isso um dia vai acontecer. De certa forma, eu entendo quem busca a fórmula da eternidade – em dietas, exercícios, meditação: tenta-se controlar o incontrolável, dar sentido ao absurdo da existência.  Eu, Aline, sempre peço a Deus que permita que eu veja os meus filhos crescerem, para que eles nunca se sintam sozinhos no mundo – como eu me senti todas as vezes que perdi alguém que amava.  Mas eu sei que isso está totalmente fora do meu controle – e vou morrendo aos poucos, cada dia que passa – como todo mundo.  Que Deus, em sua infinita bondade, me dê a graça de morrer cheia de vida, cheia de amor e cercada por todos os que amo.  E que a certeza da morte transborde o meu ser de vida, de gratidão pela existência.  Viver é bom, fato! E desprezar o dom da vida é a maior das heresias que os homens podem cometer.

Que a vida nos seja leve -como a excelente cia. do Dave Grohl! ❤

https://www.youtube.com/watch?v=7f2dBKncYRs

 

Barcos, lagos e salada de macarrão: não nós!

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“Há quem tenha histórias fantásticas, que se passam em lagos, com barcos, amigos e salada de macarrão. Não é o nosso caso, não de ninguém neste carro”.

(para ver o vídeo com a cena original, clique aqui)

Essa é a frase mais importante do filme “Melhor é impossível”, um dos filmes mais geniais do cinema.  Acho que já a usei em outro texto, mas hoje essa frase, não sei porque cargas d’água, ocupou com força o meu dia!

Eu estou trabalhando, mas confesso que a minha cabeça está longe… sempre que eu faço aniversário, fico com alguma crise existencial.  A desta semana é: Aline, o que você vai fazer da vida no futuro? Outro dia vi um desses conselhos de Facebook que alertava: “ansiedade é excesso de futuro”.  Que coisa chata… Eu não gostaria que meu cérebro funcionasse desta maneira.  Acredito que a vida seria mais fácil se a gente pudesse passar por ela sem pensar muito – que as coisas simplesmente se colocassem na nossa frente e acontecessem.

Sim, eu não tenho talento para auto-ajuda, nem para acreditar que dizer “gratidão” mudará algo na minha vida.  Talvez as pessoas mais felizes sejam aquelas que consigam resolver seus problemas através de um livro, uma frase, um guru.  Todas essas coisas sempre me trazem mais problemas – crises novas, questões novas – mesmo que me ajudem a resolver as antigas.

O Spotify fez uma playlist com coisas que eu posso gostar e no meu Daily Mix, enquanto eu escrevo, toca “Patience” do Guns N’Roses:

Said: Woman, take it slow
And it’ll work itself out fine
All we need is just a little patience

Sim, tudo irá ficar bem se eu tiver paciência, diz o cara lá de cima! Mas o que é ficar bem? É ter dinheiro? É ter tempo? É ter amigos? É ter relevância? É ser inteligente? É ter um pouco de cada coisa – como aqueles mix de castanhas que, na maioria das vezes, só vêm com uva passa e amendoim?

Como eu disse, não tenho talento para acreditar que as coisas ficarão melhores. E com o tempo tenho me fechado cada vez mais em mim mesmo e eu, que sempre fui tímida pra caramba, tenho me tornado cada vez mais introvertida.  E a culpa é de quem? Acho que não há culpados, é simplesmente um fato da vida mesmo.

Mas voltemos à frase de Melvin Udall que abriu este texto.  Acho que gosto tanto do filme porque eu sou – como Melvin, como Carol e como Simon – alguém absolutamente normal.  Se um dia minha história virasse filme no cinema, iam me mostrar escrevendo para tentar entender o mundo que me cerca, iam me mostrar como uma mãe normal e uma esposa muitas e muitas vezes chata, como alguém que continuou a torcer para o mesmo time, mesmo após 23 anos sem um título nacional… Para dar uma animada no filme, talvez pegassem uma atriz que tivesse uma voz estridente (como a minha) e que gostasse de arrumar tretas na internet – simplesmente para conformar o mundo à sua vontade, ao seu ideal de vida e que com a sua verborragia muitas vezes chateasse pessoas próximas – mesmo sem a intenção de fazê-lo.  Não ia ter o barco, muito menos o lago límpido em que eu passaria minhas tardes andando de iate.  Ah, eu não curto salada de macarrão – então essa parte está ao menos resolvida para mim.

A genialidade de Melhor é Impossível está justamente no fato de que a história feliz é a história ordinária, a de pessoas comuns que vivem suas vidas absolutamente comuns e que não são vencedoras do modo como acostumamos ver os vencedores nos filmes.  O inútil da felicidade chega quando Melvin consegue atravessar uma rua pisando numa de suas linhas – e superando seu TOC.   Como nesta cena, a felicidade para cada um de nós pode estar está em algo absolutamente banal, mas tremendamente humano.

Como li hoje de manhã, “quem não tem Instagram não sabe o que é o pôr do sol”.  Sim, não sabe o que é o pôr do sol, mas talvez consiga enxergar que fora deste mundo de “barcos, lagos e salada de macarrão”, haja uma vida que pode ser grandiosa e espetacular em sua ordinariedade.  E para terminar o Spotify agora reverbera os versos de Steppenwolf “Born to be Wild”: uma boa forma do mundo me mostrar que pegar a estrada da vida é sempre a maior das aventuras!

 

E viveram… FIM????

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Há 04 anos, eu religiosamente faço uma coisa no dia 30 de dezembro: escrevo sobre o ano que passou.  E por que eu escrevo no dia 30 e não no dia 31? Porque, de fato, dia 30 de dezembro é sempre o último dia do ano.  No dia 31 de dezembro, ainda estamos no ano vigente, mas a cabeça já está no ano que vai começar.  Em 31 de dezembro há sempre muita coisa para fazer: preparar a ceia de ano novo, receber os parentes que chegam de viagem, chegar ou partir para celebrar o início do ano com aqueles que amamos e, claro, pensar em todos os sonhos para o ano que há de vir.  Em virtude disto tudo é impossível, ao menos pra mim, escrever no dia 31.

Hoje reli todos os meus últimos 4 posts desta data – viva as lembranças do Facebook – e percebi o quanto as experiências que tive no ano afetam esses meus textos.  Eu, infelizmente ou felizmente, não consigo escrever sem ser afetada por tudo o que está ao meu redor.  Quem acompanha este blog e me conhece pessoalmente sabe que eu só escrevo sobre o que eu, de fato, acredito e vivo.  Eu não tenho nenhum talento para escrever sobre coisas aleatórias que não façam nenhum sentido pra mim.   Eu escrevo pra mim mesma, para criar memórias que serão reviradas no tempo em que eu não for mais capaz de saber quem sou eu, ou o que me trouxe até aqui.   Eu escrevo sobre o meu presente e sobre o meu passado para, quando precisar olhar para trás, saber quem era a Aline e como ela sentia – e vivia – seus dias.  Eu leio sobre a Aline descrita em meus textos como leio uma história – a minha história, desenrolada e exibida em cada uma das palavras que compartilho com vocês que, gentilmente, demonstram tanto carinho ao lerem meus textos.

Se a vida é uma história, cada ano que termina é o final de um capítulo.  E, ao olhar para trás, percebo que os capítulos fazem todo o sentido quando unidos uns aos outros – mesmo que sejam tão diferentes entre si.  Alguns capítulos são mais emocionantes e decisivos – são aqueles anos que sempre estarão presentes na nossa memória porque foram os anos em que coisas importantes aconteceram; alguns capítulos têm um maior grau de dificuldade enquanto outros são mais leves e tranquilos.  Há também, no livro da existência, capítulos mais e menos interessantes, capítulos mais divertidos e capítulos mais tristes e solitários.  E esses capítulos são recheados de pormenores que os fazem imperdíveis… não adianta ir direto ao final do livro: só entenderemos o final da história se acompanharmos com atenção tudo o que contribuiu para aquele final.  Como o caminho é longo – mesmo que seja breve – pipoca nunca é demais….

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E hoje eu termino o capítulo de n. 34 na odisseia da minha vida.  E que capítulo, meus amigos! Que ano fantástico!  Sei que muita gente pegou birra de 2016 porque 2016 não foi um ano qualquer – foi um ano foda (desculpem o termo, mas ele é o único que abrange o meu sentimento sobre este terremoto que tomou conta do mundo)!  2016 não veio à luz para ser mais um ano.  Pelo contrário: foi daqueles anos que, pelo menos eu, me lembrarei para sempre.  Vamos aos fatos:

  1.  Com o impeachment tiramos o PT do poder.  Não significa que extinguimos o PT, que endireitamos o Brasil ou que estamos salvos do fantasma comunista.  Mas a força das ruas, aliada à enorme pressão política, impôs uma estrondosa derrota àqueles demagogos que comandavam – parecia que de forma eterna – os rumos do nosso país;
  2. E esta reviravolta política – para o bem quase sempre – não aconteceu somente por aqui: três processos se destacam ao redor do mundo: os ingleses disseram sim ao BREXIT , os colombianos disseram não ao acordo de paz com as FARC e os americanos – ah, os americanos – elegeram Donald Trump presidente.  Estes três eventos simbolizam a vitória contra todos os elementos tidos por corretos mas que se constituíram, ao longo dos anos (em capítulos anteriores), como as bases para toda a desordem que vemos hoje – Estado Islâmico, massas de refugiados, o politicamente correto ditando o que podemos e não podemos pensar, falar e fazer. Me parece que o melhor nome para o capítulo 2016 é: Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós!
  3. Fora da política, nos divertimos nas Olímpiadas e nos demos conta do quanto os brasileiros são um povo a ser estudado – the zuera never ends!  Ainda no esporte, o Palmeiras foi campeão brasileiro depois de 22 longos anos e a pequena Chape encantou os brasileiros até ter seu sonho interrompido por uma queda ridícula e inaceitável.  Aliás, como escrevi em outro texto, o sonho da Chape diz muito sobre nós, pessoas comuns que ousam enfrentar o mundo… Ah.. no ano tido das coisas improváveis, o Brasil foi campeão olímpico de futebol.
  4. Eu me tornei uma pessoa melhor em 2016… e superei um monte de coisas que me faziam ser mais lerda do que sou – agora até correr eu corro.  De qualquer forma, comecei a mudar alguns paradigmas da minha existência – e isso me fez mais bem do que mal.  Eu também briguei com muita gente, inclusive com muita gente que eu amo.  Mas continuo a acreditar que não dá pra ser o que nao somos simplesmente pra ter amigos ou para agradar os outros…

E o mais legal de 2016 é que ele me preparou bem para 2017… Que promete ser um grande ano porque eu vou fazer 35 anos.  Ou seja, vou chegar na metade da existência esperada para a minha vida.  Se eu viver até os 70 anos, morrerei feliz! Se eu morrer amanhã e não puder escrever o texto de 30 de dezembro do ano que vem, morrerei também feliz, pois Deus me fez ver coisas incríveis neste ano – das quais me lembrarei para sempre!

Portanto, nadando contra a corrente, eu digo: obrigada, 2016! Vou sentir falta pra caramba de você, já incluído entre os anos que mudaram minha vida e mudaram também o mundo!  Avise para 2017, no milésimo de segundo em que se encontrarem, que ele tem o dever de te suceder bem. 😉

Já é madrugada, hora de encerrar este capítulo… Mas ainda não posso dizer: todos viveram felizes para sempre.  Só saberemos disso no fim – num fim que não sabemos como e quando chegará.  Então, fim do texto, fim do capítulo, mas não do livro… Que continue a história!

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Tantos sonhos morrem…

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Há uma semana atrás, estava sentada no sofá de casa com o Rafa e o Junior vendo o jogo da Chapecoense.  Começamos vendo a final da Copa do Brasil entre Grêmio e Atlético Mineiro, mas desistimos porque o Grêmio ganhava fácil e o jogo da Chapecoense era muito mais interessante. Era mais interessante porque a Chape lutava, até aquele momento, por um sonho inédito: conquistar um título internacional – o que, para um time oriundo de uma cidade do interior de Santa Catarina, era algo grande, muito grande.  Ao final do jogo, extasiados pela defesa do Danilo e com os olhos cheios de lágrimas pela linda festa no Índio de Condá, decidimos que viajaríamos a Chapecó para ver a final da Copa Sul Americana: seria histórico, seria lindo, seria inesquecível: um corinthiano, uma palmeirense e um são paulino unidos pelo amor ao futebol – representado em sua forma mais pura pela genuína alegria do time da Chape naquela noite.

Nossos planos terminaram hoje, ao acordarmos com a notícia do acidente que vitimou os protagonistas da nossa promessa de festa.  E eu chorei em vários momentos do dia -não só pelas vidas ceifadas de forma brutal e inesperada, não só pelo futebol e os atletas que morreram trabalhando, não só pela tristeza que acompanha todas as tragédias.  Eu chorei porque um sonho morreu.  Um sonho que não era meu, mas que eu, por alguns dias, partilhei e sonhei junto.  É triste demais ver a morte de um sonho – ou de vários sonhos, como aconteceu hoje.  Em dias assim, viver é um pouco mais difícil: as lágrimas obstruem a nossa visão e impedem que vejamos claramente o mundo a nossa volta.  Enquanto dirijo, com os olhos marejados, uma estação de rádio toca Oração ao Tempo:

Tempo tempo tempo tempo
E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo tempo tempo tempo
Não serei nem terás sido

E viva o tempo… que tanta coisa muda, transforma e cura.  Ano passado, minha família e eu quase morremos em um acidente de avião.  Naqueles minutos de pânico onde temíamos pelo pior, lembro-me bem da profunda sensação de impotência que nos tomou de assalto. Enquanto as bagagens voavam pelo interior do avião, um filme passou pela minha cabeça: eu não queria morrer, não queria que meus filhos morressem, que meu marido morresse, que minha irmã grávida, meu cunhado e minha sobrinha perdessem a vida ali.  Naquele dia, que tudo tinha dado errado antes de dar certo, eu entrei no avião e decidi rezar o terço. E enquanto o avião decolava em meio a uma tempestade de raios, eu me peguei agradecendo a intercessão de Nossa Senhora por estar ali.  E tive a certeza de que não morreria ali e que no fim, como tudo naquele dia, tudo daria certo depois de parecer dar tudo errado.  E assim foi.  Mas desde aquela noite que terminou feliz, a sensação de que a vida acaba num piscar de segundos me acompanha desde sempre.  E eu espero driblar a morte muitas vezes, mas um dia me encontrarei com ela e serei história e só uma lembrança – espero que boa – para todos aqueles que eu amo e que me amam também.

Tantos sonhos morrem… E tantos sonhos nascem todos os dias… No fim, sonharemos os pequenos sonhos diários enquanto a vida pulsar em nós.  E morreremos um pouco cada vez que nossos sonhos morrerem também.   Um dia como o de hoje só permite que nós tenhamos a certeza de que coisas grandiosas – boas ou ruins – só servem para nos lembrar da nossa humanidade muitas vezes esquecida.  A solidariedade que nos une como pequenos irmãos diante do desconhecido eterno é o que dá sentido à vida e faz com que a nossa existência valha a pena.  Todos esquecemos nossas diferenças hoje e nos unimos através da hashtag #ForçaChape!  Dias como hoje são mágicos, embora profundamente tristes.  Nos lembraremos de dias assim para sempre!

Que tenhamos a coragem de perdoar todos os dias.  E que tenhamos a coragem de dizer que amamos todos aqueles que são importantes para nós.  E de ser sal da Terra e luz para o mundo, com ações concretas e não só com palavras.  Que essa nossa vida tão curta seja profundamente feliz! Que exultemos na rotina que dá sentido à existência.  E que isso nos faça eternos, nos faça viver para sempre…

Que Deus nos abençoe e que nos ajude a criar permanentemente novos sonhos… Novos sonhos como o sonho interrompido hoje, de forma tão brutal e inesperada.  Que o #ForçaChape seja, mais que uma hashtag, uma demonstração da nossa humanidade que muitas vezes esquecemos em algum canto dos armários da vida.

A Chape somos todos nós que temos a ousadia permanente de sonhar o sonho gigante da vida, sem nenhum controle sobre as consequências.  Um pequeno clube de futebol tornou-se gigante e nos fez gigantes, ao mostrar que quem é capaz de sonhar junto nunca estará sozinho no mundo!

#ForçaChape! Obrigada por nos devolver um pouco da nossa humanidade!

Homenagem à Chape feita pelo Liverpool

Aline Jones, Aline Maria: uma reflexão sobre a passagem do tempo

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Essa semana eu fui ver o novo filme da Bridget Jones no cinema… Rever a Bridget foi como rever uma velha amiga, daquelas que você fica anos sem ver e quando encontra é como se o tempo não tivesse passado.  Aliás, reencontrar uma velha amiga é uma das boas alegrias da vida!  Bem, voltemos a Bridget.  Eu confesso que, como hiper fã dos filmes, estava receosa com o que encontraria no cinema: afinal, passados mais de 10 anos do lançamento de ‘Brigdet Jones: no limite da razão’, eu não conseguia imaginar Bridget na casa dos 40 anos e grávida.  Eu pensava comigo: se eu mudei, a Bridget também deve ter mudado… Mas como será que ela está?

Ansiosa pelo nosso reencontro, segui ao cinema.  E quando a vi na tela, tão mais magra e sem tentar esconder as marcas da passagem do tempo, me senti feliz: eu envelheci, mas ela também envelheceu.  E, embora ainda sejamos nós mesmas, também somos outras, forjadas pelos sonhos vividos e não vividos nesses mais de 10 anos.  Ela com 43 e eu com 34 – quase 35 – já sem muitas das neuras que nos atormentavam há 10 anos.  Com neuras novas, possivelmente, mas isso não entra no nosso assunto.  Eu já sou mãe há alguns anos e ela está esperando o primeiro bebê, sem saber quem é o pai, mas nem isso soa forçado no filme… pelo contrário: a forma como a questão é abordada tem a mesma leveza do sorriso da Bridget, que enche por inúmeras vezes a tela gigante durante o filme.   Eu quero saber dos seus amores, como ela chegou até ali, por que se separou de Mark Darcy e por que mesmo assim ele pode ser o pai do filho dela.  Ah, mas que atire a primeira pedra quem nunca ficou preso num relacionamento que sempre pareceu fadado ao fracasso.  Eles são tão diferentes, mas ao mesmo tempo é legal vê-los juntos, dá uma sensação familiar de que as coisas estão no lugar onde deveriam estar… Ai, Bridget, a sessão acabando e nós ainda com milhares de coisas para falar.

Enquanto Bridget me conta a sua história, eu começo a perceber que sempre gostei dela porque temos muita coisa em comum. Não somos iguais, mas acho que temos a mesma leveza ao trilhar os caminhos da vida.  E isso é bonito!  Talvez das personagens femininas que eu admiro no cinema, Bridget seja a mais próxima de mim: eu não tenho a resiliência de Ilza, de Casablanca (filme no qual eu sei todas as falas porque sou completamente apaixonada por ele), ou o glamour de Anna Scott, em um Lugar Chamado Notting Hill (filme no qual também sei todas as falas porque minha irmã é completamente apaixonada por ele).  Também me falta a determinação vingativa de Beatrix Kiddo, de Kill Bill e tenho um longo caminho para trilhar se quiser ser Amelie Poullain.  A vida de Bridget, por sua vez, é tão trivial que é impossível não se identificar e não se apaixonar por ela.  Ela é a irmã mais velha que eu não tive, a minha vizinha, a minha amiga do colégio.  Ela é aquela pessoa que eu saíria para tomar uma cerveja e voltaria para casa com o próximo happy hour já agendado – afinal, uma noite não seria suficiente para tanto assunto. 🙂

Pensar que sou tão ordinariamente comum me lembra uma música do Milton Nascimento, uma das prediletas da minha mãe: Maria, Maria.  Ultimamente, seus versos têm ecoado diariamente na minha cabeça, como se ouvisse minha mãe cantá-los pra mim em forma de conselho:

Mas é preciso ter manha
É preciso ter graça
É preciso ter sonho sempre
Quem traz na pele essa marca
Possui a estranha mania
De ter fé na vida

Maria, Maria: uma mulher que merece viver e amar como outra qualquer do planeta… sim, todas nós merecemos amar e todas nós merecemos ser amadas.  No fim, é sobre isso a saga de Bridget, é sobre isso a minha saga, é sobre isso a saga de todo e qualquer ser humano: todos queremos amar e ser amados, todos esperamos o amor – qualquer seja a sua forma.  E quando nos amamos, quando somos felizes, transformamos o mundo em um lugar melhor, mais humano porque amor gera vida, gera frutos.  O amor nos traz a estranha mania de ter fé na vida!

Eu posso ser Aline Jones, posso ser Aline Maria, posso ser a Aline que eu quiser enquanto persistir minha fé na vida.  E o tempo se encarregará de juntar todas as partes de mim em minha melhor forma. Foi uma delícia reencontrar a Bridget.  Espero que o nosso próximo encontro – nos livros ou no cinema – seja tão delicioso como esse último.   Que sejamos outras mil, sem contanto deixarmos de ser nós mesmas!

 

Memórias de um dia especial

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Notícias da Europa me chegam via WhatsApp: “há um monte de velhinhos pelados nas praias do Mediterrâneo”; notícias da política aparecem no meu feed: “Temer é vaiado e aplaudido no 7 de setembro”; meu pai me manda um longínquo bom dia e diz que está com frio, as crianças se divertem construindo fazendas de ovos  com tubulação subterrânea no Minecraft e Frank Sinatra surge, providencialmente, na rádio que me faz companhia online:

Yes, you’re lovely, never ever change
Keep that breathless charm
Darling please arrange it?
‘Cause I love you
Just the way you look tonight
(Frank Sinatra – The way you look tonight)

Just the way you look tonight… Sempre que escuto essa frase imagino algum momento perfeito daqueles que a gente quer congelar e impedir que acabe.  Sabe aquele momento que você gostaria que durasse para sempre? Acho que foi um flash desses que Sinatra canta nessa letra: ele queria que aquele momento fosse eterno simplesmente porque, naquele instante perfeito, ele era feliz de fato.

Muita gente trata a felicidade como algo que vem em litros: eu serei feliz quando tiver uma bela casa na praia, dois filhos, um cachorro limpo que não faça xixi no sofá e não lata, um marido com vocação para príncipe encantado e uma conta bancária recheada.  Para as mulheres, tudo isso ainda vem acompanhado pelo desejo de um corpo escultural, manequim 34 e belos peitos de silicone.  Pensando assim, a felicidade é somente aquilo que , em suma, causa inveja aos outros.  A felicidade descrita por Sinatra definitivamente  não cabe aqui, não faz sentido. Não faz sentido porque, de fato, ela não vem em litros, ela não é duradoura: como na história da Cinderela, o encanto tem hora para acabar – e a carruagem, às 00:00 volta a ser uma abóbora.  Mesmo com a abóbora, o que fica é a história… e vamos nos forjando frente a nossas memórias, a nossos pequenos – e escassos – momentos de plenitude.

“Nós somos o que nossa memória diz que somos”disse um amigo esta semana, confrontado com a realidade de uma pessoa subitamente sem memória após um desmaio.  Essa frase ficou na minha cabeça e me fez concluir que nós somos também as memórias que formamos nos outros.  E como isso é profundo.  Talvez um dia eu não saiba mais quem eu sou, mas eu desejo estar acompanhada por gente que saiba exatamente quem eu sou, qual a minha história, qual é o meu passado – mesmo que não haja perspectivas de futuro.  Sim, eu quero viver para sempre nas memórias de outros, caso eu perca a minha.  Sim, eu quero me perder junto daqueles que eu amo – e encontrar-me sempre que tudo não fizer mais sentido.

Não vou agora, não
Não quero te encontrar
Preciso me perder como preciso de ar
Perder o rumo é bom
Se perdido a gente encontra
Um sentido escondido em algum lugar

Devolva-me o que você levou ou
Leve-me contigo, perca-se comigo
(Humberto Gessinger – Faz Parte)

Humberto Gessinger mandou muito bem nessa letra, penso eu.  Talvez porque ela seja o complemento perfeito para os versos de outro gênio da nossa música, o grande poeta Cartola:

Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar
Se alguém por mim perguntar
Diga que eu só vou voltar
Depois que me encontrar
(Cartola – Preciso me encontrar)

Talvez a vida faça mais sentido quando percebemos que podemos nos encontrar não só em nós mesmos, mas também nos outros.  Que nos tornamos imortais através das relações que construímos:

Naquela mesa ele sentava sempre
E me dizia sempre o que é viver melhor
Naquela mesa ele contava histórias
Que hoje na memória eu guardo e sei de cor
Naquela mesa ele juntava gente
E contava contente o que fez de manhã
E nos seus olhos era tanto brilho
Que mais que seu filho
Eu fiquei seu fã

Eu não sabia que doía tanto
Uma mesa num canto, uma casa e um jardim
Se eu soubesse o quanto dói a vida
Essa dor tão doída não doía assim
Agora resta uma mesa na sala
E hoje ninguém mais fala do seu bandolim

Naquela mesa tá faltando ele
E a saudade dele tá doendo em mim
(Naquela mesa – Nelson Gonçalves)

O meu filho começou a cantarolar os versos de Nelson… talvez um dia se lembre desse dia com carinho, com saudades das tardes ensolaradas que passamos juntos ouvindo música e jogando videogame.  E pense que a vida é sempre extraordinária, mesmo quando nada de absolutamente extraordinário acontece!  E eu terei existido, estarei viva para sempre!