13 de Outubro – ou seria 01º de Julho – aquele sobre a liberdade de fazer o bem

“É para a liberdade que Cristo nos libertou.  Ficai, pois, firmes e não vos deixeis amarrar de novo ao jugo da escravidão” (Gl 5,1-6).   Essas foram as primeiras palavras que eu ouvi ontem quando acordei e liguei a missa no YouTube, naquele ritual que eu já contei em outro texto.  Confesso que esse trecho ecoou no meu cérebro por alguns minutos enquanto eu caminhava… Eu pensava: que liberdade é essa para a qual fomos resgatados pelo sangue de Cristo? O que de fato é ser livre?

É bom fazer essas perguntas pra gente mesmo antes das 07h da manhã: é uma forma de digerir o café e acordar o cérebro, naqueles momentos em que a solidão enche a rua, a casa e a vida de silêncio e preguiça.  Uma cabeça cheia de perguntas é como uma estrada infinita de encontros e desencontros entre dúvidas e certezas, entre conceitos e pré-conceitos, entre sonho e realidade.  Mas seria eu livre ou a minha liberdade seria um simulacro de uma realidade na qual eu sou uma marionete operada por forças muitas vezes desconhecidas e ignoradas?

Enquanto eu fazia a minha viagem, solitária e ruidosa pelo conceito e pelos limites da liberdade humana, a voz da Cássia Eller surgiu gritando na estrada dos meus pensamentos.  Ela dizia, em alto e bom som “sou fera, sou bicho, sou anjo e sou mulher, sou minha mãe e minha filha, minha irmã, minha menina… Mas sou minha, só minha e não de quem quiser”.  Não, eu não estava escutando essa música.  Eu estava ouvindo o final da missa e a música do nada pulou sobre a história da liberdade.  “Sou minha, só minha e não de quem quiser”… Eureka? Naquela hora imaginei ter resolvido minha questão… ser livre é ser minha, só minha e não de quem quiser… Me senti foda por um momento, afinal parecia que eu tinha vencido os meus pensamentos e desligado a música que insistia em fazer o meu cérebro dançar naquela hora.

A missa acabou, o Padre disse “Ide em paz e que o Senhor vos acompanhe”.  Santificado seja o vosso nome, repeti algumas vezes para mim mesma e fui atrás de uma playlist aleatória do Spotify para me fazer companhia na caminhada que agora se tornaria corrida pelos próximos 55 minutos.  Eu escolhi uma playlist com o sugestivo nome de cápsula do tempo, com músicas selecionadas pelo aplicativo com o objetivo, conforme eles mesmos definem, de nos levar em uma viagem pelo tempo.  E como o acaso não é uma força tão presente na minha existência, a tal playlist (que muda diariamente) trazia logo no seu início a música “1º de Julho”, interpretada pela Cássia Eller.  Era um sinal dos céus: eu não era livre, naquele momento, para não ouvir a música.  E se eu ouvisse a música, eu iria voltar a pensar na minha questão da liberdade.  Naquele momento senti que meu cérebro era um daqueles condomínios de classe média baixa, onde os vizinhos acham que terão paz para dormir e um desocupado coloca funk em alto volume às 22:05 de uma quarta-feira normal.  Eu não gosto de funk, mas até que me divirto com algumas confusões alheias. 

Voltando à música, eu dei o play e saí correndo.  E ouvi a música. Quando ela acabou, por alguma razão que eu não entendi, a internet do meu celular acabou também.  Eu não gosto de correr em silêncio, pois os meus pensamentos me paralisam muitas vezes.  Então eu uso a música para falar comigo e me ajudar a organizar as caixinhas nas quais eu devo encaixar minhas questões.  A única música que eu poderia ouvir era a que estava no cache do aplicativo – que não por acaso era a música que eu tinha acabado de ouvir.  Ou seja, ou eu correria em silêncio ou ouviria a música no repeat por muitas vezes.  É obvio que eu só fui livre para fazer essa segunda escolha, afinal não era bem uma escolha, era uma decisão simples sobre algo que eu gosto e preciso e algo que eu não gosto (correr sem música). E lá fui eu, por quase uma hora, ouvindo a música no repeat.

E a experiência não poderia ter sido mais feliz: ao ouvir dezenas de vezes os versos de 1º de Julho eu entendi que sim, eu sou minha, só minha e não de quem quiser e que isso significava, no contexto da minha liberdade, que só eu era totalmente responsável por todas as minhas escolhas e decisões, fossem elas boas ou ruins.  Que eu não poderia terceirizar minha vida, meus fracassos e meus desejos a quaisquer pessoas, mesmo que eu as amasse, ou elas me amassem de volta.  Que era insensatez buscar segurança em tudo que fosse humano, porque nós humanos somos escravos uns dos outros, escravos das nossas vontades, da nossa vaidade, dos nossos sonhos, dos nossos afetos e dos nossos medos.  Nunca fomos e nunca seremos livres.  Somos, por fim, escravos da morte e não temos como evita-la.

É para a liberdade de sempre escolher por tudo aquilo que é belo, bom e verdadeiro que Cristo nos libertou como homens e mulheres, feitos à sua imagem e semelhança.   Ele nos deu o livre arbítrio para que pudéssemos escolher e sonhar com o céu, sabendo que conquista-lo é uma graça, não um mérito ou um merecimento.  Deus, sendo Deus, poderia simplesmente nos obrigar a fazer o certo e estaria tudo bem.  Mas ele não quis fazer isso.  Pelo contrário: ele nos fez livres para dizer não, para negar a graça.  Afinal, não seríamos imagem e semelhança se não pudéssemos escolher sempre por amor e pelo amor.

Não basta o compromisso
Vale mais o coração
E já que não me entendes, não me julgues, não me tentes
O que sabes fazer agora
Veio tudo de nossas horas
Eu não minto, eu não sou assim
Ninguém sabia e ninguém viu
Que eu estava a teu lado então

No dia 13 de outubro eu aprendi que ser livre é escolher pelo céu, mesmo que isso não faça nenhum sentido para alguém que, como eu, é uma menina terra, signo de elemento terra e que tenha os pés fincados na terra.  O céu é uma condição eterna, não um estado de espírito.  Na viagem do meu pensamento, eu percebi que a escolha é solitária e individual, tal qual a responsabilidade que advém dela, mas Deus se fez humano e ao se fazer humano Ele compreendeu, não pela Lei, mas pelo amor, que nenhum de nós é capaz de fazer nada sozinho e se propôs a ficar ao nosso lado, tal como enfatiza a letra da canção que eu ouvira por alguns quilômetros.

Na noite do dia 13 de outubro, em mais uma daquelas coincidências que não são coincidências, meu filho cantava em seu quarto, a plenos pulmões, a mesma canção que ocupara a minha manhã, sem que eu tivesse lhe dito nada sobre a minha viagem.  Ao ouvir meu filho cantar, eu finalmente entendi o sentido dos versos finais de 1º de Julho, agora travestido de 13 de outubro:

O que fazes por sonhar
é o mundo que virá pra ti e pra mim,
vamos descobrir o mundo juntos baby,
quero aprender com o teu pequeno grande coração,
meu amor…

Continuemos a sonhar com o céu enquanto corremos pela nossa breve existência. A liberdade nos permite ocupar-nos de viver. Essa é de fato a única grande escolha da vida.

“Deixa chegar o sonho, prepara uma avenida, que a gente vai passar” – aquele da corrida sob a chuva

Por que eu escrevo?  Eu escrevo porque preciso falar para mim mesma o que eu de fato acredito e o que eu de fato preciso aprender.  O verbo é ação, é fala, é palavra.  É através do verbo que Deus se fez carne e habitou entre nós.  Não existe ação no silêncio: a palavra é viva e é através da fala que nós nos posicionamos perante o mundo, com suas pessoas e coisas.  Mesmo quando nos calamos, nós falamos interiormente e somos guiados por essa voz interior.

Eu sei que Deus me deu esse dom do amor às palavras: eu falei muito cedo (e bastante, desde sempre), aprendi a ler muito cedo (com 03 anos) e escrever é um ofício que me acompanha desde sempre! Eu adoro ler as coisas que escrevi quando tinha 08, 10, 15, 20 anos.  E eu gosto de lê-las porque elas me fazem lembrar de coisas que a minha memória ruim não guardou (eu tenho péssima memória para quase tudo… sou ótima pra lembrar de datas, mas dificilmente lembro de detalhes importantes da minha vida.  Isso já me fez sofrer bastante, mas hoje eu entendo que talvez eu escreva porque a minha memória é tão ruim que escrever sirva para construir minha memória, para que eu tenha consciência do meu passado quando eu estiver no meu futuro).

E as palavras e inspirações simplesmente aparecem, não há um planejamento: a vontade surge do nada, as letras e palavras se misturam sem que eu tenha muito controle sobre elas.  E por isso que eu estou aqui hoje – porque eu tenho que parir as palavras que estão tomando conta do meu cérebro e do meu coração, porque elas servem para mim e talvez façam eco para alguns de vocês que me acompanham por aqui.

Hoje eu saí para correr bem cedo.  Depois do calor dos últimos dias, Curitiba voltou a ser Chuvitiba.  A temperatura caiu muito nos últimos dois dias e o céu das 06h da manhã estava bem fechado.  Eu não vi o nascer do sol como vejo quase todos os dias.  Não havia sol, só havia vento e nuvens.  Mas hábito é hábito: tomei banho para despertar, liguei a missa no celular (estou viciada na missa das 06h, todo dia eu envio a homilia do padre pra alguém), fiz meu café, coloquei meu fone de ouvido e saí para minha corrida.  Não estava chovendo, mas uma garoa bem fininha deixava a paisagem um tanto sombria.  “Aline não é de açúcar” (eu sempre penso isso quando tenho que sair na chuva) e entre orações, pensamentos, silêncio exterior – de uma ciclovia deserta – minha caminhada se encheu de poesia, amor,  esperança e chuva, muita chuva.

“Putz, a chuva apertou… Acho melhor eu voltar para casa… Não, Aline, termine de ouvir a missa que aí você volta.  Não vai chover por muito tempo.”  A missa terminou e a chuva não parou, pelo contrário: aumentou.  Poças e poças se formavam pelo caminho.  Eu pulava as poças, tal como criança feliz por sentir a água invadindo o tênis.  Enquanto a chuva caía sobre mim, eu ouvia música num fone de ouvido naquela altura já protegido pela touca da capa.  Vários carros me encharcaram de água quando passavam pelas poças, que tomavam todo o meu trajeto.  E aquela chuva, que deveria ser um obstáculo, se transformou em um momento de profunda comunhão entre Deus e eu.  Eu abria os meus braços como se eles fossem capazes de abraçar o mundo, como se na imensidão da Terra só existisse eu, a chuva, a lama e as poças.   E corri muito rápido, talvez por estar tão feliz e me sentir tão livre de tudo o que me aprisiona nesse mundo.

Eu não gosto de correr, mas correr tem me curado de muitas coisas.  Adotar como hábito algo que não é natural nos faz pessoas mais fortes, mais conscientes da nossa fraqueza e mais capazes de entender o nosso lugar tão pequeno no mundo.  É obvio que é legal praticar um exercício e sair do sedentarismo porque ficamos mais magras, nos sentindo mais bonitas, mas o exercício pelo exercício, simplesmente pela estética, é profundamente enfadonho – como tudo o que fazemos por obrigação e sem um propósito duradouro.  Qualquer exercício é uma construção de constância.  E constância forma hábitos e hábitos edificam valores.  Eu quando corro sou a mulher que vence a falta de ar da asma, que vence câimbras que, por muitas vezes, transformam meu caminho em um quase calvário; eu quando corro sou a mulher que silencia a sua voz exterior e se obriga a ouvir seus próprios pensamentos, suas próprias palavras, confrontar-se com sua miséria e com a sua fraqueza.  E nessas horas eu me sinto empurrada por algo que está além de mim e que é muito maior do que eu.

No fim da corrida eu vejo a cruz de uma igreja que fica quase no final do meu trajeto.  Na ida, ao olhar para essa cruz, eu agradeço e entrego o meu dia, o dia das pessoas que eu amo, o dia das pessoas que passam por mim no trajeto e também o dia de todo mundo que me pede intercessão e oração…  na volta eu olho novamente pra mesma cruz, levanto meus braços ao céu e, entre dores, suor, orgulho e cansaço, entendo que também carrego minha própria cruz e que nessa cruz, na minha cruz, unida à cruz de Cristo, está a minha redenção, a minha salvação, a minha liberdade.

Hoje eu chorei enquanto corria.  E eu sorri enquanto era levada pela chuva.  E Deus se fez grande na minha miséria, na minha preguiça, na minha fraqueza. Quando eu passei pela cruz, na volta, os versos que tomavam o meu fone de ouvido assim diziam:

Abre a janela agora
Deixa que o sol te veja
É só lembrar que o amor é tão maior
Que estamos sós no céu
Abre as cortinas pra mim
Que eu não me escondo de ninguém
O amor já desvendou nosso lugar
E agora está de bem

Conversa de botas batidas – Los hermanos

O amor está de bem, tem seu lugar no mundo e se transformará em memória porque foi sentido, vivido e escrito.  A palavra como ação transforma, cura e liberta.  A palavra nos faz humanos, ao mesmo tempo em que nos aproxima de Deus, afinal,

Diz quem é maior
Que o amor
Me abraça forte agora
Vem, vamos além, vão dizer
Que a vida é passageira
Sem notar que a nossa estrela
Vai cair

CONVERSA DE BOTAS BATIDAS – LOS HERMANOS

Entre rosas e números – parabéns e obrigada, mãe!

Hoje é dia 15, o mês é 8 e o ano é 2020. É o 228º dia do calendário anual, faltam 138 dias para o final do ano… eu tenho hoje 38 anos, 7 meses e 1 dia de vida, que podem ser traduzidos como 14093 dias (rumo à comemoração dos 14100), 20293920 minutos ou 1217635200 segundos. No calendário litúrgico, hoje é dia da Assunção de Nossa Senhora ao céu – para nós católicos uma importante comemoração. No meu calendário de vida hoje seria aniversário da minha mãe, que completaria 64 anos e também é aniversário do meu pequeno Vicente, não aniversário de nascimento (que é no próximo dia 20), mas aniversário do seu anúncio, o início do seu longo, difícil e abençoado nascimento, 11 anos atrás. Sim, esse dia 15 é fundamental para a minha vida, pois ele carrega três coisas que são parte do que eu sou hoje: uma das condições necessárias para eu existir (o nascimento da minha mãe), um dos pilares da minha fé (a assunção de corpo e alma de Nossa Senhora ao céu) e, por fim, o anúncio da chegada intempestiva e inesperada daquele que se tornou, sem sombra de dúvidas, uma das razões da minha existência nesse mundo, o Vicente.

Tu és divina e graciosa
Estátua majestosa
Do amor!
Por Deus esculturada
E formada com ardor

No dia 15 de agosto de 2009 eu morava no interior do estado do Paraná e tinha chegado à Curitiba, na noite anterior, para acompanhar meu marido numa prova que ele iria fazer. Viemos com nosso filho pequeno – o Murilo tinha 1 ano e 8 meses e eu estava grávida de 6 meses e meio (27 semanas). Aproveitei que viria a Curitiba e marquei um ultrassom 3D para ver o bebê (eu tinha um sonho de fazer aquelas ultrassonografias que a gente consegue enxergar o rosto do bebê e eu não tive condições financeiras de fazer na minha primeira gravidez) e, como já tinha feito um ultrassom quatro dias antes na minha cidade e estava tudo aparentemente bem com o bebê, esse ultrassom chique era só para atender o sonho mesmo.

Da alma da mais linda flor
De mais ativo olor
Que na vida é preferida
Pelo beija-flor

Acordamos cedo naquele sábado lindo e fomos direto para a clínica de ultrassom, que ficava num bairro muito bonito daqui de Curitiba, numa rua também chamada Vicente, nessas coincidências da vida. Eu estava na Rua Vicente para, enfim, conhecer o rostinho do meu bebê Vicente. Eu me sentia meio mal, mas pensava que era por conta da viagem e do estágio avançado da gravidez. Ao acordar naquele dia, igual em todos os outros dias 15 de agosto, eu me lembrei do aniversário da minha mãe e pedi a ela que intercedesse junto a Deus por mim e pela minha família, já que eu acredito que ela está mais perto Dele do que eu. Pedi, é claro, a intercessão de Nossa Senhora também… afinal, ela é mãe também e sabe, mais do que ninguém, o que carrego em meu coração. E fomos para a clínica.

Se Deus
Me fora tão clemente
Aqui neste ambiente
De luz, formada numa tela
Deslumbrante e bela

Ao chegar na clínica, o médico nos encaminhou para a sala de ultrassom e fez as perguntas de praxe: quantas semanas você está? trouxe algum exame anterior? A gravidez está indo bem? Já sabe se é menino ou menina? Enquanto conversávamos, ele começou o ultrassom e fez uma cara meio estranha:
– A senhora tem mesmo certeza de que está de 27 semanas?
– Claro que sim!
– É porque eu não estou conseguindo ver o bebê como deveria ver nessa etapa… posso mudar para um ultrassom com doppler?
– Sim, é claro!
Imaginem como ficou o meu coração e o do Rafael nessa hora… como assim ele não consegue enxergar o bebê? Mas eu fiz o ultrassom no dia 11 e estava tudo bem, minha pressão estava bem, o bebê parecia bem, como em 4 dias isso tudo muda?
– Olhem aqui… há um entupimento das veias do cordão umbilical e o bebê de vocês está em sofrimento. É melhor vocês entrarem em contato com a médica de vocês o quanto antes, pois essa condição é grave e não é adequada para essa idade gestacional.

Teu coração
Junto ao meu lanceado
Pregado e crucificado
Sobre a rosa e a cruz
Do arfante peito teu

E saímos em choque daquela sala de ultrassonografia. Eu me sentei na escada externa da saída da clínica, chorando copiosamente com as mãos na barriga, dizendo que meu filho não poderia morrer. Naquela hora, eu disse pra minha mãe:
– Hoje é teu aniversário e eu não quero guardar essa data como o dia em que soube que o meu bebê iria morrer. Me ajuda, mãe, me ajuda, por favor…
E continuava chorando. Voltamos para o hotel e entrei em contato com a minha médica, que estava de férias e ela me indicou outro médico que me atenderia na segunda-feira, lá na minha cidade. No telefone ela disse:
– Aline, fica tranquila! O Dr. João Vicente é especialista em partos prematuros e você estará bem cuidada.

Tu és a forma ideal
Estátua magistral
Oh! Alma perenal
Do meu primeiro amor
Sublime amor

Mais um Vicente na minha vida… desta vez o médico, cujo primeiro nome era João, aquele que precedeu o Cristo. O segundo Vicente que faria parte da história do meu Vicente, que ainda nem nascera e já sofria. Tenho certeza que naquele dia 15 de agosto, a intercessão da minha mãe e de Nossa Senhora foi decisiva para que o meu Vicente se tornasse o meu pequeno milagre, contrariando todas as estatísticas e sobrevivendo em um cenário no qual mais de 2/3 dos bebês morrem. Ele já tinha uma mãe na terra e duas super mães no céu que rezavam o tempo todo por ele. Ele definitivamente não viria ao mundo para virar estatística.

Tu és de Deus
A soberana flor
Tu és de Deus a criação
Que em todo coração
Sepultas um amor

Voltei para a minha cidade e no dia 17 de agosto fui internada, primeiro no quarto e depois na UTI. Dia 17 de agosto é dia de São Jacinto, um santo polonês que morrera no dia 15 de agosto de 1257 (mais uma vez o dia 15). Eu estava com pré-eclâmpsia e consegui levar a gravidez adiante por mais 3 dias… no dia 20, meu pequeno Vicente veio ao mundo, pesando 900 gramas, sem chorar, com dificuldades imensas para respirar e já saiu da sala de parto direto para uma encubadora – na qual passaria os próximos 60 dias. Dia 20 é dia de São Bernardo de Claraval, patrono da Ordem dos Cavalheiros Templários e autor das regras da Ordem – muito aplicáveis ao meu pequeno Vicente:

Um cavaleiro templário é verdadeiramente um cavaleiro destemido e seguro de todos os lados, sua alma é protegida pela armadura da fé, assim como seu corpo está protegido pela armadura de aço. Ele é, portanto, duplamente armado e sem ter a necessidade de medos de demônios e nem de homens.

Sem medo de demônios e de homens. Guardado por Deus. Assim é Vicente: nascido no dia 20 de agosto de 2009. Anunciado no dia 15 de agosto de 2009, aniversário de sua avó e dia da assunção gloriosa de Nossa Senhora ao céu. Enquanto eu viver, hoje será sempre um motivo de festa para mim, pois este se tornou um daqueles dias raros em que a nossa fé torna-se tão sólida que nós podemos toca-la. Meu filho não estaria aqui se não fosse a intercessão de minha mãe e de Nossa Senhora no céu. Pra que isso esteja sempre vivo na minha vida, nos últimos 04 anos, entre os dias 15 e 20 de agosto uma rosa desabrocha na minha varanda. A minha rosa desabrocha algumas vezes por ano: no meu aniversário, na semana entre o aniversário da minha mãe e do Vicente e na semana em que a minha mãe faleceu. Ela não abre outros meses ou dias: só em uma semana de janeiro, uma semana de agosto e uma semana de novembro – e sempre com cores diferentes. É o sinal que Deus me concede, todos os anos, para que eu saiba que nunca estarei sozinha, que há um verdadeiro exército lá em cima rezando junto comigo.

O riso, a fé, a dor
Em sândalos olentes
Cheios de sabor
Em vozes tão dolentes
Como um sonho em flor

Eu amo esse dia 15. Meu grande e querido irmão, Padre Gilson, rezará pela alma da minha mãe na missa de logo mais. Eu rezarei por ela, por mim e pelo Vicente. Deus me fez feliz nesse dia e ninguém deve esquecer dos dias em que foi agraciado com o amor divino. Obrigada, mãe! Feliz aniversário aí em cima. Em breve, estaremos juntas e poderei dizer meu muito obrigada pessoalmente. Até lá, cuida aí de cima de mim, dos meus irmãos, dos meus filhos, dos seus sobrinhos, dos seus netos, dos seus irmãos que você tanto amava e do pai.

És láctea estrela
És mãe da realeza
És tudo enfim
Que tem de belo
Em todo resplendor
Da santa natureza
Perdão!
Se ouso confessar-te
Eu hei de sempre amar-te Oh! Flor!

Entre máscaras e virtudes, um retrato de 2020

Durante os tempos de quarentena – e para mim já se vão mais de 120 dias em casa – eu voltei aos exercícios na rua.  E confesso que essa volta tem sido motivo de muita alegria e orgulho na minha vida: depois da separação, ano passado, eu tentei de algumas formas me inspirar a voltar a fazer exercícios – me matriculei na academia, corri por um tempo na rua até ser abordada por um assaltante à noite e desistir (embora ele não tenha me roubado nada, graças a Deus, porque eu disse para ele que não podia entregar o celular antes de terminar uma conversa importante – sim, como eu já contei aqui, Papai do Céu tem um trabalhinho comigo)  e tantas outras coisas que a gente pensa, arquiteta, começa e larga no meio.  No fim, a vida pós separação é uma bagunça constante, pois a gente tem que se reencontrar, saber quem de fato somos, o que gostamos, o que gostávamos pelo outro e aprender a fazer as coisas sozinha – acho que esse foi o grande desafio dos últimos meses, especialmente durante a quarentena, quando eu realmente fiquei absolutamente sozinha muitas vezes – e começar e continuar alguma coisa quando o mundo parece desabar lá fora tem me transformado de maneira grandiosa. 

Mas esse texto não é sobre a Aline separada – talvez um dia eu me anime em escrever um livro sobre isso (não esperem conselhos motivacionais ou autoajuda, pois sou péssima para isso), mas sim sobre como essa mulher encara o mundo, sob a perspectiva de uma época em que as pessoas estão literalmente em guerra umas com as outras, porque todo mundo tem opinião sobre tudo – o que torna a existência insuportável muitas vezes.  Ninguém tem que opinar sobre o que não sabe, mas é foda estar no mundo e admitir que não sabe de algo num tempo em que todo mundo tem que se manifestar sobre todas as coisas.  Pronto, montado o cenário, vamos ao acontecimento que motivou esse texto: usar ou não usar máscara na rua?

Caminho todos os dias numa ciclovia que fica perto de casa, à beira da linha do trem.  É lindo.   Entre corrida e caminhada, são 10 km – onde eu penso na vida, rezo o terço, medito o evangelho do dia, escuto samba antigo (mais uma paixão da quarentena), faço planos e os desfaço tantas e tantas vezes.   No início do dia, dezenas de pessoas estão naquele lugar – caminhando, correndo, fazendo exercícios nas praças ao longo do caminho, andando de bike.  Algumas usam máscaras, algumas não usam máscaras, muitos correm com a máscara no queixo… é tudo uma total insensatez, penso eu – porque ninguém sabe bem o que é certo e faz o que lhe deixa mais confortável.   E isso deveria ser ok, pelo menos é o meu pensamento.  As pessoas estão num ambiente totalmente aberto, onde o distanciamento social é altamente possível e praticável, portanto, que façam suas próprias escolhas de vida e de conforto.

E por que é importante respeitar a escolha alheia? Essa semana, enquanto eu fazia a minha caminhada, uma senhora me xingou porque eu não usava máscara.   E digo senhora por respeito, porque devia ser um pouco mais velha que eu.  Odeio, odeio mesmo quando as pessoas se metem na minha vida sem convite.  Eu uso máscaras para ir ao mercado, uso máscaras em lojas diversas, uso máscara em todos os locais em que sou obrigada – embora não acredite que elas previnam alguma coisa, mas para evitar o constrangimento, mas me recuso a usar máscara na rua, sozinha e sem ninguém por perto.  Como já escrevi algumas vezes, não me preocupo com pegar ou não pegar o vírus… sou asmática, tenho bronquite crônica, mas sei que a minha vida de fato não me pertence… é sim uma escolha de fé, mas é real, faz sentido pra mim.   Usar a máscara caminhando na rua me dá uma falta de ar tremenda, acompanhada de uma sensação de sufocamento. Só quem tem dificuldades em respirar sabe valorizar de fato o ar… Ao me xingar, aquela senhora não sabia disso.  O grilo falante que habitava dentro dela dizia: fale com os hereges que não usam máscara, mostre o quanto você é melhor que eles, o quanto eles são insensíveis, o quanto eles são genocidas… ouvi outro dia um padre dizendo que quem não usa máscara não é cristão… pqp, a Igreja tá bem de clero – o Jesus que destruiu o templo seria execrado hoje em dia.

Ninguém tem o direito de interferir nas escolhas alheias – especialmente nas escolhas das pessoas que não fazem parte do seu círculo pessoal e íntimo de convivência.  Se der esmola a um mendigo, não pergunte o que ele vai fazer suas moedinhas: o trate como gente, sabendo que as escolhas dele podem não ser as mesmas que você faria.  As pessoas têm sua própria história, suas próprias escolhas e a liberdade individual de fazê-las deve ser defendida até o fim.  Você não precisa concordar.  Não precisa aplaudir.  Só precisa respeitar – e esse exercício te transformará em gente de verdade, não nessas marionetes seguidoras de discursos vazios.

Olhe pra essa mulher da foto.  Ela estava feliz com o seu fone de ouvido, escutando suas músicas prediletas e sonhando com uma vida ideal enquanto corria… Feliz por receber o sol em sua pele e suas veias, feliz por fazer algo por si mesma sem depender de ninguém, feliz por se encontrar e se conhecer, em um tempo em que quase todos os conselhos que escuta dizem que ela tem que encontrar um novo alguém para ser feliz.  Ela corre sozinha.  Eu podia ter mandado aquela senhora tomar no cu em sonoro e bom som, mas não o fiz.  Gritei: Deus te abençoe, mas da minha vida cuido eu.  E sim, da minha vida cuido eu, e só eu.  Deus também, mas Ele não me enche o saco.

 Antes de você ser o grilo falante do mundo, pense que você é somente um em 7 bilhões de pessoas.  Portanto, se você fosse a melhor pessoa do mundo, provavelmente você não estaria no meio de nós para dar seus sábios conselhos: já estaria no céu, sendo venerado por milhões de pessoas ao redor do planeta.  Se está aqui ainda, é porque não alcançou o status de santo para dizer o que é certo ou errado para ninguém que você não seja diretamente responsável.  Ou seja, cale-se e viva a sua vida.  E não encha o saco de ninguém.  Não seja chato.  Eu não vou te matar por estar sem máscara.  Não vou acabar com a sua vida.  Provavelmente, tirando meus amigos próximos e minha família, ninguém mais saberá da minha existência.  Me deixe viver a minha vida do jeito que eu acho certo e confortável.  Não se preocupe com as minhas escolhas.  Você não me ama, não me conhece, não sabe da minha vida.  Ah, tá com medo do vírus chinês? Não saia de casa, pra evitar encontrar o que tem medo.  Respeito sua escolha – respeite a minha também!

E, pra terminar, tire a trava do teu olho antes de apontar a trava do outro.  Eu sei que é difícil, mas é bom, saudável e recomendável.   Não atire pedras para condenar o pecado alheio.  Você tem seus próprios pecados e defeitos – e isso te faz humano.  Me deixe ser humana também – de carne e osso, com meus próprios pecados e escolhas: eu me orgulho delas, mesmo que não sejam perfeitas ou ideais.

E eu gosto de estar na terra cada vez mais
Minha boca se abre e espera
O direito ainda que profano
Do mundo ser sempre mais humano

Perfeição demais me agita os instintos
Quem se diz muito perfeito
Na certa encontrou um jeito insosso
Pra não ser de carne e osso, pra não ser

Zélia Duncan – Carne e Osso

Forrest Gump, o ciclone bomba e a obediência do vento: o dia 182 de 2020

Por mais incrível que possa parecer, nessa semana o vírus chinês deixou, por alguns fenômenos naturais, de ser protagonista absoluto das páginas e telas dos noticiários nacionais. Uma nuvem de gafanhotos ameaçou entrar nesta Terra de Santa Cruz, vinda da Argentina, mas foi impedida pela chegada abrupta de uma frente fria que não só mudou o tempo de forma rápida, mas trouxe consigo um ciclone cuja força causou muitos estragos em várias cidades do Sul do Brasil. Não tivemos uma nuvem de gafanhotos, mas tivemos uma nuvem de chuva que trouxe consigo uma espécie de ira do universo, capaz de quebrar janelas, derrubar árvores, destelhar casas e matar pessoas.

Forrest Gump é um dos meus filmes prediletos. Agora você deve estar pensando: que diabos Forrest Gump tem a ver com o ciclone ou os gafanhotos? Nada, na verdade. Mas Forrest Gump tem a ver com a minha experiência com o ciclone – que derrotou os gafanhotos e quase me derrotou também naquela tarde estranha de terça-feira. Eu lembro que quando eu vi Forrest Gump pela primeira vez eu, ainda adolescente, pensei comigo: Forrest é idiota, mas é o máximo ele participar ativamente de todas as coisas que fizeram a história de seu tempo. Desde então, Forrest é um dos meus faróis de conduta – sim, eu também sou idiota!

Run Aline, run!

Na terça-feira, eu não consegui fazer a minha caminhada pela manhã porque tinha virado a noite terminando um trabalho que deveria ser apresentado até meio-dia do dia seguinte. Na minha cozinha, há um calendário daqueles do Sagrado Coração Jesus – com certeza se a sua vó é católica você sabe qual é – e todo dia, antes de preparar o café, eu arranco a folhinha do dia anterior, vejo qual dia do ano nós estamos e qual o evangelho da liturgia do dia. Terça-feira, dia 182 de 2020 – faltavam 184 dias para acabar o ano – há dias eu estava numa contagem regressiva interna para a metade do ano – e lembro de pensar assim: oba, está chegando! 😛 … O trecho do evangelho do dia que estava destacado assim dizia: “Quem é este a quem o vento e o mar obedecem?

Tomei o café e voltei ao trabalho. À tarde, com a vida já em ordem, me programei para fazer a minha caminhada – afinal, nós não devemos ater a nossa vida às circunstâncias que, de forma eventual, nos impedem de fazer o melhor: o melhor tem que ser feito todos os dias, mesmo que não seja o ideal ou o perfeito – qualquer dia eu quero conseguir escrever mais sobre isso. Voltando à minha história, por volta das 14 h., o aplicativo do clima do celular notifica a seguinte mensagem: “alerta de temporal às 15 h.” … Pensei comigo: se vai chover às 15 h., eu espero a chuva passar e vou mais tarde. O tempo parecia fechar, mas de repente abriu um pouco e, às 16 h., eu olhei para a rua pensei: se não choveu até agora, dá para eu ir agora e não sair para caminhar à noite. E assim a Sra. Gump saiu de casa toda feliz com o seu fone de ouvido pensando: vou andar 10 km e volto antes da chuva :)… Ledo engano!

Quando eu tinha andado quase 3 km, o vento ficou forte e o céu escureceu de uma vez – o dia se tornou noite na ciclovia em que eu faço minha caminhada. Meus pensamentos na hora foram:

“Putz, e se for só uma chuvinha? Eu não sou de açúcar”…

Mas uma árvore na minha frente começou a balançar de forma muito estranha e eu resolvi dar meia volta e falei com a minha voz interna o mantra de Forrest:

“Run, Aline, run”.

Quando eu me virei para voltar para casa, a chuva caiu com tudo na minha cabeça. E o vento era tão forte, mas tão forte, que me empurrava para trás, enquanto eu fazia força para seguir em frente (depois eu descobri pelas notícias que ele chegou a quase 120 km por hora). Não era possível olhar para o caminho, porque o vento no rosto me impedia de manter a cabeça erguida. Na ciclovia, as árvores de ambos os lados pareciam disputar para ver qual delas cairia primeiro na minha cabeça e acabaria com a minha vida ali mesmo. Não havia ninguém mais na rua – as pessoas todas sumiram e eu estava sozinha, apavorada, e sem lugar para me abrigar e esperar aquilo tudo passar. Pensei nos meninos que estavam em casa, pensei no meu seguro de vida – foi a primeira vez que ele pareceu útil – e olhei para aquele cenário absolutamente assustador – o vento produzia um barulho ensurdecedor, árvores caindo atrás de mim e tive medo, muito medo. Nisso, nessa fração de segundo que a vida passa como um filme na nossa cabeça, algo mudou absolutamente tudo: a lembrança do trecho do evangelho do dia na minha folhinha: “Quem é este a quem o vento e o mar obedecem?”.

Eu vivi o evangelho naquela hora. Eu disse para Deus, já sabendo que tudo iria dar certo – Jesus, manda o vento parar porque eu preciso chegar na minha casa. Se isso for impossível, faz uma barreira ao meu redor, para que nada me atinja no caminho e que eu chegue bem na minha casa. Eu demorei quase uma hora embaixo da chuva para chegar em casa. Eu estava com muito frio, cada gota de chuva que caía sobre mim era uma dor gigante, porque eu tinha a impressão de estar congelando. Meu corpo pesava e cada passo doía, mas nada de mal me aconteceu. Quando eu enfim consegui chegar na rua da minha casa, a chuva já estava mais fraca e parei um pouco embaixo de uma marquise para ajeitar o casaco e colocar novamente os fones de ouvido. O Spotify, num daqueles jeitos que Deus arruma para falar com a gente, começava a tocar “Living on a prayer”, uma canção do Bon Jovi cujos versos nos conclamam a acreditar na força das nossas orações e na força que contar com quem amamos traz à nossa vida. Naquele momento, percebendo as sutilezas de Deus, eu sorri e vim feliz para a minha casa. Feliz porque eu nunca estive sozinha, mesmo que não houvesse ninguém na rua. Deus utilizou-se da música que tocava de forma aleatória naquela hora para dizer:

We’re half way there
(Nós estamos quase lá)
Livin’ on a prayer
(Vivendo em uma oração)
Take my hand, we’ll make it, I swear
(Pegue minha mão, nós iremos conseguir, eu juro)

E nós conseguimos. Eu cheguei no portão do prédio destruída, tirei meus sapatos ainda na rua, porque não dava mais para aguentar o peso deles. Cheguei descalça em casa, com as roupas encharcadas e com os braços e as pernas roxas, queimados de frio. Mas eu vivi, tal como Forrest, algo que virou parte da história e do qual eu vou me lembrar para sempre.

Eu sei que tem muita gente que não acredita em Deus e que acha que a fé é uma idiotice de gente fraca e manipulada. Tudo bem! Eu sou meio estranha mesmo, mas eu sempre penso o quão difícil seria a minha vida sem acreditar que há um cara lá em cima que cuida de mim e que no fim vai agir para que tudo fique bem. Talvez seja fraqueza. Talvez seja ingenuidade. Talvez seja medo. Não importa! O vento não me derrubou, pois eu enfrentei o medo e tive uma coragem que não veio de mim. Eu escolhi lutar pela vida, mas eu não estava sozinha: quando eu pensei em correr e não tinha forças para isso, Deus veio em meu socorro e caminhou comigo.

Eu resolvi escrever sobre isso porque talvez sirva para alguém além de mim – embora eu não tenha a pretensão de convencer ninguém de coisa alguma. Mas é sempre bom falar ou escrever sobre coisas e acontecimentos que nos fazem pensar que a vida é incrível porque é imprevisível – e viver é sempre uma aventura, mesmo que a gente se sinta, como eu me sinto quase sempre, inútil e idiota.

Run, Forrest, run. Run, Aline, run! Que nunca desistamos, durante a corrida, de nos agarrar a qualquer oportunidade em que nos seja deferido escolher a vida – mesmo que ela pareça caótica ou fora do nosso controle.

Nós sempre teremos Paris – o amor como lugar e como ação

Outro dia eu vi um casal fazendo juras de amor em uma rede social.  E eram juras sinceras: “eu sempre te amei”, “você é o amor da minha vida”, “te esperei por todo o sempre”.   Comecei a pensar sobre a força da paixão na vida humana e sobre as formas que encontramos para expressar nossos sentimentos mais profundos.  E concluí: somos muito limitados.

Todo mundo sonha em viver um grande amor – e um grande amor é algo tão complexo que as nossas palavras são insuficientes para defini-lo.  Eu também estou tentando encontrar o meu lugar nessa bagunça que a gente chama de vida, mas as palavras me parecem sempre incompletas: ao mesmo tempo que o amor é a coisa mais sem sentido que existe, ele é a única coisa que dá sentido à vida – o maior tesouro que o destino nos reserva.

Quem você ama e o que você ama define você, mas o que é o amor senão a capacidade de abrir mão de si mesmo em pelo bem daquilo ou daqueles que você ama? Amor machuca e se você não estiver disposto a dar sua própria vida por aqueles que você ama, você não os ama de fato.  Porque ninguém ama algo pela metade.  Amor não se condiciona, amor não se questiona, amor não te faz pensar se você ama.  Amor é ação e escolha.  Amor é entrega.  Por isso, você pode dizer todos os eu te amo possíveis, mas as palavras serão sempre vazias se você não perdoar todas as vezes possíveis, se você não escolher aquele amor todos os dias, se você não cuidar daqueles que você ama com a sua própria vida.  Amor não é um conceito filosófico, embora a filosofia ainda hoje se empenhe em defini-lo. 

Procurando o amor encontramos a arte, a poesia, a música… escrevemos romances, produzimos filmes, sonhamos e esperamos – talvez essa seja a grande função do amor: o amor nos faz ter esperança.  Esperança de que a vida tem realmente um propósito, esperança de vivermos uma plenitude que não nos é alcançável de forma ordinária, esperança de experimentarmos uma felicidade que não parece possível.  E sim, esse grande amor da vida existe.  Eventualmente todos nós poderemos encontrá-lo em algum momento das nossas vidas, mas não necessariamente viveremos felizes para sempre com ele – afinal, a vida real sempre se impõe.   E sim, tá tudo bem!

Sempre me lembro de Casablanca, o meu filme predileto.  Ilsa e Rick são pra mim, na arte, a melhor definição de um amor que se consumiu e foi até as últimas consequências.  Podíamos falar de Romeu e Julieta, podíamos lembrar de Jack e Rose ou de Harry e Sally.  Mas nenhum desses casais definiu tão bem o amor quanto Ilsa e Rick.  E Ilsa e Rick são perfeitos porque são capazes de abrir mão de estarem juntos quando percebem que aquilo não é realmente possível.  “Nós sempre teremos Paris” define de forma perfeita o conceito de que o amor não pode simplesmente ser uma realidade transitória e temporal.  Eles carregam Paris dentro deles, uma Paris que os define, uma Paris que os uniu, uma Paris onde foram felizes e puderam se doar de forma plena um para o outro.  Tanto faz o final.  Eles escolheram estar juntos num lugar que só pertence a eles, na certeza de que viveram algo mágico e transformador, que os acompanhará pelo restante de suas existências. 

Dei o exemplo do amor romântico, mas volto ao início do texto para abordar o amor enquanto motor do mundo: você não pode dizer que ama alguém se esse amor não te transformar de todas as formas possíveis em alguém melhor.  Palavras são incompletas e inúteis quando não são capazes de significar uma ação.  No Evangelho de ontem, sexta-feira, Jesus pergunta a Pedro por três vezes: “Pedro, tu me amas?” e após cada uma das respostas de Pedro com as palavras “sim Senhor, tu sabes que eu te amo” ele diz “Apascenta minhas ovelhas” e acrescenta ao final “Segue-me”.   Ou seja, ele chama Pedro a ação, porque amor e ação não estão dissociados.   

Acredito que Deus tenha um propósito e ponha na nossa vida algumas pessoas pelas quais temos a obrigação de dar a vida.  Essas pessoas não estão na nossa vida porque nos fazem bem ou nos fazem felizes.  Essas pessoas estão na nossa vida porque é nosso dever divino cuidar e dar a nossa vida por elas – e por elas seremos cobrados ao final de nossos dias.  Deus nos chama ao amor, a uma entrega total e eterna aos quais ele nos confia. 

“Amor significa amar o não amável, senão ele não é uma virtude, afinal.” Chesterton

Não acreditemos, portanto, nas palavras jogadas ao vento.  Elas, assim como nós, são perecíveis e mortais.  O amor muda e vence tudo.  Não desistamos do amor – nele está o propósito e o tesouro de uma vida, o alfa e o ômega, o princípio e o fim de tudo.  No amor está nossa continuidade e nossa eternidade.  Viver o amor é a única maneira de encontrar o nosso lugar no mundo. Que possamos ao final da vida repetir, tal como Humphrey Bogart: sim, nós sempre teremos Paris. ❤

We can be heroes – aquele do dia em que o Brasil coube num verso de David Bowie

I, I will be King (Eu, eu serei um rei)
And you, you will be Queen (e você, você será uma rainha)
Though nothing will drive them away (embora nada os afaste)
We can beat them, just for one day (nós podemos vencê-los, só por um dia)
We can be heroes, just for one day (nós podemos ser heróis, só por um dia)

Ontem eu escrevi que Sergio Moro era um herói nacional.  E reafirmo isso.  Dr. Sérgio Moro foi um ícone do combate à corrupção no país, sacrificando sua própria liberdade e a segurança da sua família, executando um valoroso e fundamental trabalho que permitiu, no conjunto da obra, que houvesse a queda do governo Dilma em 2016 e a vitória de Bolsonaro em 2018.  Isso não pode ser esquecido.  A Lava-jato, que fez 6 anos recentemente, é a operação responsável por prender um ex-Presidente da República, diversos políticos, empreiteiros e mudar a visão do brasileiro sobre a necessidade, sempre inadiável, de fazer sua voz ser ouvida e respeitada.  A Lava-jato nos levou para as ruas dezenas de vezes.  E Sérgio Moro conquistou o respeito de uma nação simplesmente por fazer o que deveria ser feito, um trabalho digno, competente e honesto.

Feito este adendo, vamos ao que interessa.  Heróis são humanos.  E sendo humanos também erram.  Não vou entrar aqui no mérito da decisão tomada pelo ex-Ministro.  A gente pode sempre arrumar justificativas para as nossas escolhas: podemos culpar o sistema, podemos culpar alguém, podemos culpar uma situação, não importa.  Todas as nossas decisões costumam ter motivações públicas e íntimas, sendo que essas últimas não são conhecidas e divulgadas.  Portanto, Moro escolheu sair do governo e o fez da pior maneira possível – convocando uma coletiva de imprensa e tornando públicas todas as motivações que podiam ser públicas para defenestrar o presidente Jair Bolsonaro, implodir a opinião pública e afundar ainda mais um país que já sofre com os efeitos de uma pandemia sem precedentes.  Ao final da coletiva, Fernando Henrique Cardoso pediu a imediata renúncia do Presidente Jair Bolsonaro, a fim de evitar um processo de impeachment longo e doloroso para a nação.  Nas redes sociais, milhares de eleitores declaravam-se arrependidos, pediam o impeachment do Presidente e começavam a exaltar a figura de Mourão, um cara sobre o qual eu, pessoalmente, tenho sérias objeções – as quais não cabe abordar aqui.  A imprensa séria e comprometida com a verdade, como sempre, exaltava as qualidades de Moro e relegava ao Presidente adjetivos pouco republicanos: traidor da nação e inábil para o exercício da função, entre outras coisas menos sutis. 

Eu acordei ontem perto das 11h da manhã, pois com essa necessidade de ficar em casa o tempo inteiro estou tendo crises de insônia e enxaqueca frequentes (coisas que nunca tive antes) – e dormido muito tarde.  Meu celular tinha centenas de mensagens sobre a coletiva que aconteceria em alguns minutos e sobre a demissão de Sergio Moro do Ministério da Justiça.  A noite anterior havia sido complicada pra mim: eu estava preocupada com a votação da ADI 5581 no STF – que liberava o aborto em casos de mães contaminadas com Zikavírus e não havia conseguido pregar os olhos até às 04h da manhã.  E quando eu levantei, peguei meu café e vim direto para a frente da TV, para esperar o início da coletiva.  Confesso que eu fiquei estupefata!  Além do meu mal estar físico, fui invadida por um mal estar espiritual.  Todas as coisas que ouvimos na coletiva eram muito graves e eu sabia que aquilo jogaria o país em um cenário de difícil reversão: mais uma crise política que, aliada a uma crise econômica severa, comprometeria não só a vida de milhões de brasileiros, sem rostos por mim conhecidos, mas a vida da minha família e das pessoas que eu amo e que são importantes pra mim.  Uma crise política afeta a todos nós de maneira indistinta.  E as consequências podem durar anos.

Bem, durante a entrevista, eu me lembrava do trabalho do Dr. Sérgio e do que o colocou no Ministério.  A cada palavra dele eu pensava em tudo o que me fez escolher votar em Jair Bolsonaro em 2018 e um sentimento de decepção me preenchia… pode parecer idiotice, mas meu corpo sente fisicamente essas sensações – decepção, angústia, medo: tudo me faz ter dor.  Vários amigos me mandando mensagens e perguntando sobre a minha opinião: Bolsonaro vai cair? Vai ter impeachment?  Vários comentários nas minhas duas postagens do Facebook dizendo sobre decepção, sobre vergonha, dizendo que Moro deveria ser presidente do Brasil.   E essa frase me chamou a atenção: Moro deveria ser Presidente do Brasil.  Nessa hora eu comecei a ter uma sensação estranha: o que qualificava Moro ser Presidente do Brasil? Tá, ele é um herói, se pensarmos na acepção da palavra, de ser aquele que vai até o fim em nome de um ideal.  Mas fora isso, quais os valores que ele tem e que o orientariam na condução de uma nação plural, mas essencialmente conservadora em costumes e crenças?

A tarde se findava e eu na minha doce rotina bagunçada, terminei de arrumar a casa quase na hora da coletiva do Presidente.  E sentamos no sofá da sala, meu filho e eu, para acompanhar a fala de Jair Bolsonaro.  Surge na TV, às 17h, um homem cercado por seus ministros, o homem no qual eu votei e no qual depositei não só a minha confiança, mas também minha esperança de um país mais livre, onde os valores pelos quais eu vivo e nos quais crio meus filhos fossem não só respeitados, mas também difundidos.  E Bolsonaro é sempre igual.  Ele leu um discurso, mas depois começou a ser ele mesmo, falando sobre coisas que parecem idiotas, como o aquecimento da piscina, ou o valor que ele não gasta no cartão corporativo.  Muita gente critica o Presidente, mas eu sinceramente acho incrível a capacidade que ele tem de falar de uma forma que seja compreensível para o povo simples do país.  Eu tenho formação, estudo política há anos, já trabalhei com vários políticos – de esquerda e de direita – e posso afirmar: Bolsonaro é uma exceção à regra segundo a qual políticos são seres superiores e afastados do povo.  Ele é daquele jeito e não se importa de ser acusado de não ser fiel à liturgia do cargo.  Ele foi eleito justamente por ser assim.  Errados são aqueles que cobram dele uma postura diferente da que ele teve ontem.

Da mesma forma que Sergio Moro fizera mais cedo, Bolsonaro convocou um pronunciamento para dar a sua versão dos fatos.  E ele se reafirmou como Presidente e como chefe da nação, ao dizer que a ele caberia exonerar e escolher o próximo superintendente da Polícia Federal.  E sim, essa é uma escolha dele.  Expôs seus motivos públicos, tal como fizera Moro – não conheceremos, infelizmente, os motivos íntimos para as decisões tomadas por ambos na madrugada do dia 24 de abril.    E sim, embora ele tenha dado carta branca ao nomear Moro como Ministro da Justiça, ele ainda é o comandante da nação e deve ser obedecido e respeitado em sua função.  Tal como ele disse em seu discurso, enquanto Sergio Moro lutava para preservar a sua biografia, ele tinha que lutar pela preservação do país, e ele citou, em sua fala, causas pelas quais realmente vale a pena lutar: a proteção do direito à vida, a proteção dos inocentes, a proteção das famílias.   Essas são as únicas coisas que importam.  E sim, ele tem lutado por isso, por coisas que eu acredito e por coisas que são muito, mas muito mesmo importantes para mim.

Talvez o grande erro de Bolsonaro nessa história toda tenha sido nomear alguém não alinhado com as suas convicções políticas e de vida.  E nomear alguém com a alcunha de herói, cuja demissão, já sabíamos em 2018 e comprovamos ontem, lhe causaria enorme constrangimento político e pessoal.  Espero, sinceramente, que o governo resista a essa queda e que Bolsonaro consiga seguir em frente e cumprir o seu mandato, contra tudo e contra todos aqueles que lutam para derruba-lo desde o dia 01º de janeiro de 2019.  Rezo por isso todos os dias, porque reconheço a dificuldade de sua missão e a batalha, não só física, mas espiritual, que nela enfrenta. 

Espero que as denúncias do ex-Ministro sejam apuradas de forma rápida e isenta.  Não estou aqui para passar pano ou aplaudir político.  Mas hoje reafirmo minha convicção em escolher Jair Bolsonaro para presidir o Brasil.  Não havia outra escolha e, sendo sincera, ainda não há.  Não podemos simplesmente entregar o país para todos aqueles que há décadas nos usurpam e nos impedem de construir uma nação realmente forte e independente.

Heróis são as pessoas que fazem o que tem que ser feito e permanecem fiéis ao que acreditam… Se Moro é mesmo um herói, o pai de família que sai todos os dias de madrugada de casa para ganhar o sustento da sua família e criar seus filhos com dignidade também o é… a mãe que é abandonada e resolve seguir com uma gravidez, criando sozinha uma criança ao invés de optar por um aborto também o é… Todos nós que fazemos o que tem que ser feito, mesmo com as dificuldades que a vida nos impõe, somos heróis.  No fim, o povo é supremo e a sua escolha tem que ser respeitada.  Essa nação tem milhões de heróis e não devemos achar que o mundo acabou porque um deles resolveu, no meio do caminho, seguir uma direção diferente. 

I, I will be King (Eu, eu serei um rei)
And you, you will be Queen (e você, você será uma rainha)
Though nothing will drive them away (embora nada os afaste)
We can beat them, just for one day (nós podemos vencê-los, só por um dia)
We can be heroes, just for one day (nós podemos ser heróis, só por um dia)

Boa sorte ao ex-Ministro na construção da sua biografia.  Quanto ao país, sigo com aquele cujo lema é Brasil acima de tudo, Deus acima de todos.

Deus Vult!

Um dia 08 qualquer… E a maior de todas as mulheres

Hoje é dia 08 de março de 2020, dia 68 desse ano que é bissexto, dia em que as mulheres inteligentinhas escrevem discursos inflamados na redes sociais dizendo não às flores, aos bombons, aos elogios e a tudo aquilo que celebre a sua feminilidade. Os discursos dessa galera legal são recheados de palavras incríveis como “empoderamento”, “luta”, “estupro”, “igualdade” e “liberdade” – esta última é utilizada, especialmente, para invocar o direito divino de não se depilar – porque se depilar é uma invenção do patriarcado – não usar sutiã e, como se não bastasse tudo isso, matar crianças inocentes antes que elas venham ao mundo – afinal, “meu corpo, minhas regras”.

Ano passado escrevi um texto, nesta mesma data, intitulado “Eu odeio o Dia das Mulheres“… e eu odeio mesmo por todas as razões que lá citei. Então não vou escrever todas aquelas razões novamente, mas gostaria de escrever sobre algumas coisas que tenho observado e cuja discussão é extremamente importante – especialmente em dias como o de hoje – em que o mundo pede sororidade, empatia e celebra metade da população do planeta.

Outro dia, uma mulher gritou comigo ao telefone. E essa mulher gritou comigo por algo que eu fiz – que aliás, é o meu trabalho fazer e faço quase todos os dias – para auxilia-la na organização de um evento do dia das mulheres (oh God!). Sim, estamos juntas organizando um evento e ela grita com outra mulher para, daqui alguns dias, dizer que as mulheres são todas iguais e que o problema do mundo são os homens, o machismo e tudo o que nos diminui… mas as mulheres que gritam e são estúpidas – especialmente com outra mulher – agem como tudo aquilo que elas dizem lutar contra. E isso não é só ridículo – é contraditório também.

A moça da limpeza do local onde eu trabalho é terceirizada e trabalha meio período ganhando meio salário mínimo por mês. Sim, meio salário mínimo. E todos os dias conversamos e nos abraçamos, nos ajudamos, nos ouvimos e compartilhamos nossas vidas nos momentos em que estamos juntas. E ela não é pior ou melhor que eu por ganhar menos – ela é uma mulher incrível, com uma história de vida linda e muito orgulhosa de ajudar o marido a pagar as contas de casa – o trabalho não a diminui, pelo contrário, a fortalece. E isso chama-se caráter. E caráter é uma coisa que está cada vez mais difícil de se encontrar por aí.

Alguns dias são difíceis para nós. Outros nem tanto. Tudo bem. Vivemos num mundo cheio de regras e padrões estabelecidos de comportamento – que nem sempre são atingíveis ou agradáveis. E não cabe a mim mudar o mundo – eu só posso tentar viver da melhor forma a minha realidade, o meu dia-a-dia, lembrando agora dos versos de Belchior:

A minha alucinação
É suportar o dia-a-dia
E meu delírio
É a experiência
Com coisas reais

Alucinação – Belchior

Eu amo essa música… acho que Belchior foi extremamente feliz ao dizer que mais que teorias e discursos, nós temos que abraçar o nosso dever, defendendo todos os dias tudo que amamos, tudo o que dá sentido à nossa vida, tudo pelo qual vale a pena respirar e viver. E sim, talvez as pessoas não nos compreendam, talvez nossas escolhas sejam julgadas todo o tempo. E mais uma vez eu digo pra mim mesma: está tudo bem! Talvez a palavra “empoderamento” – que eu odeio – deva ser substituída pela palavra “autonomia”. Mulheres fortes são mulheres que têm autonomia e abraçam suas responsabilidades e desejos. Mulheres autônomas são aquelas capazes de dizer sim e aceitar com alegria o seu lugar no mundo – e que lutam com todas as suas forças para serem felizes e fazerem felizes todas as pessoas que estão ao seu redor, enchendo o mundo de graça, amor, beleza e cuidado.

Muitas mulheres me inspiram. Maria me inspira, porque foi capaz de dizer sim e confiar no inesperado e no impossível para cumprir a vontade de Deus no mundo. Minha mãe me inspira. Minhas amigas me inspiram. Minhas irmãs me inspiram. Minhas primas e minhas tias me inspiram: mulheres comuns, que se fazem exemplo ao suportarem com coragem uma existência que muitas vezes é triste e solitária. Eu gostaria de, assim como elas, ser inspiração um dia para muitas outras mulheres – mulheres reais, de carne e osso, que vissem em mim um farol de como podemos ser incríveis em nossa ordinariedade e em nossa rotina – como eu vejo em diversas outras mulheres.

Portanto, já que hoje é dia de manifesto, segue o meu: parabéns a todas as mulheres incríveis que eu conheço e tenho o prazer de conviver de alguma forma. Parabéns não por esse dia fabricado ou inventado por uma ideologia nefasta, mas sim parabéns por tudo de lindo que vocês trazem ao meu mundo: um sorriso, um abraço, o desejo de serem melhores pessoas – e deixarem melhores pessoas para o mundo. Isso muda o mundo – aliás, é a única coisa pela qual faz sentido viver e morrer.

Cumprindo o seu duro dever
E defendendo o seu amor
E nossa vida

Mas eu não estou interessado
Em nenhuma teoria
Em nenhuma fantasia
Nem no algo mais
Longe o profeta do terror
Que a laranja mecânica anuncia
Amar e mudar as coisas
Me interessa mais

Alucinação – Belchior

Amar e mudar as coisas… só o amor constrói, transforma, inspira e se faz eterno. Palavras e discursos só servem para alimentar a nossa vaidade e enfatizarem a nossa irrelevância. O que fica para sempre é a ação – e a ação voltada para o outro, a vida como doação e serviço. Talvez por isso Maria seja a mulher forte de todos os tempos: porque doou-se por completo, porque enfrentou o medo, porque deparou-se com a morte e porque, mesmo assim, continuou a crer no impossível, no improvável e no eterno. Você não precisa acreditar ou ter alguma religião para perceber, de forma lógica, que o sim dela mudou a história – pelo sim dela rege-se o calendário, pelo sim dela regem-se festas e feriados e pelo sim dela os homens uniram-se em torno de uma figura universal: Cristo Jesus, que acreditamos ser Deus e homem, que prometeu a salvação a todos aqueles que amarem e viverem de forma plena o amor. Foi por uma mulher que isso aconteceu. Não há dignidade maior.

Feliz dia das mulheres para todas nós que seguimos sonhando demais!

Rogai por nós, os pecadores

Eu tenho 38 anos e durante essa longa jornada da vida eu me convenci quase todos os dias que eu deveria fazer tudo para agradar os outros. Não, não é mentira: eu queria ser a criança, adolescente, jovem e mulher perfeita. Eu sempre quis ser a melhor em tudo o que eu me propus a fazer – porque, além de competitiva para caralho, eu sou altamente insegura. Sim, embora muita gente que me conhece duvide, eu sou insegura, tímida e tenho graves problemas de comunicação.

Geralmente é assim: as pessoas que me encontram pela primeira vez me adoram. As que encontram pela segunda ou terceira vez me acham irritante ou briguenta. As que realmente convivem comigo me acham, muitas vezes, um poço de frieza… quem se liga em signo vai entender: eu sou capricorniana, com ascendente em peixes – ou seja, se for por essa análise, eu seria uma pessoa fria e calculista, mas com uma dose gigante de emoção. É, eu também acho estranho, mas o fato de reconhecer-se estranha e diferente não é tão ruim – pelo menos atualmente.

Eu fui casada por quase 14 anos e sei que meu ex marido sofreu um monte com esse meu temperamento instável. Eu tenho poucos amigos – e cada vez menos. Eu sou ótima para bater papo em filas e falar com desconhecidos, sou excelente pra dar conselhos – sei resolver os problemas de todo mundo que me pede ajuda, menos os meus próprios… Sei sofrer sem parecer sofrer, sei guardar segredos, sei confiar, sei esconder, sei mentir, sei machucar.

Ah, talvez você que leu esse texto até aqui, não esteja entendendo bem porque estou escrevendo tudo isso. Sei lá, acho que é hora de tirar a máscara de perfeição que eu insisti em vestir a vida inteira e me olhar no espelho sem os quilos de reboco com os quais eu sempre cobri o rosto. E não se trata aqui de uma make física: é uma make na alma, uma make que sempre funcionou como uma espécie de defesa para não encarar o que de fato eu sou, ou a miséria em que vivo.

Ao tirar a make, eu pude observar algumas coisas: 1. Eu sou carente – e entender isso teria mudado muita coisa na minha vida; 2. Em complementação ao item 1, eu entendi que não sou autossuficiente – ou seja, eu preciso tanto dos outros quanto o resto da humanidade precisa de mim; 3. Eu sou chata, não um pouco chata – muito chata – e tenho mania de achar que tudo tem que ser do modo que eu acho certo; 4. Eu gosto de pouca gente – mas por muito tempo quis ter amigos a qualquer custo – mesmo que isso implicasse em fazer coisas que não gostava ou não acreditava, mas pela necessidade imensa de agradar os outros como se isso fosse capaz de comprar afeto, carinho ou respeito; 5. por fim, e talvez o mais importante: eu tenho uma dificuldade imensa em lidar com a minha solidão. Talvez esse seja o resultado da união de todos os pontos anteriores.

Hoje fui à missa pela manhã no centro da cidade, numa igreja que eu tenho frequentado durante a semana. Ir à missa no centro da cidade é sempre uma experiência legal: no centro não há muitos moradores, então a missa é tomada quase sempre por figuras que estão lá de passagem, gente que trabalha ou que está lá para resolver alguma coisa antes de voltar para casa. E muitas dessas pessoas vão à missa na terça-feira nessa paróquia por conta da novena de Santo Antonio. E hoje, talvez pelo feriado e pelo início da quaresma amanhã, a missa do meio-dia estava mais cheia que o costume. Eu cheguei em cima da hora e me sentei no último banco, para não atrapalhar a entrada do padre. E como ontem eu fora à mesma missa e mal consegui me levantar por uma série de socos que a vida me dera nos últimos dias, hoje, um pouco melhor, comecei a observar quem ali, como eu, se dispusera a ir à missa na hora do almoço – já que não havia nada aberto no centro… Havia muitas senhoras de idade, alguns homens de idade também, algumas pessoas da minha idade e alguns casais. Uma senhora corcunda e banguela entrara na igreja um pouco depois do início da missa e permanecera andando entre as imagens dos santos. Na fila da comunhão, um marido amparava sua esposa, com dificuldades de locomoção. Antes da bênção final, uma mulher jovem sentara no banco que estava à minha frente, com o rosto vermelho de tanto chorar. Lembrei do estado em que me encontrava ontem: das lágrimas desesperadas que me impediram de levantar do banco durante a liturgia da missa, das palavras do Evangelho que tanto me tocaram, de um Deus que insiste em falar com o seu povo, mesmo que esse povo seja tão cabeça dura como eu:

23Jesus disse: “Se podes!… Tudo é possível para quem tem fé”. 24O pai do menino disse em alta voz: “Eu tenho fé, mas ajuda a minha falta de fé”. 25Jesus viu que a multidão acorria para junto dele. Então ordenou ao espírito impuro: “Espírito mudo e surdo, eu te ordeno que saias do menino e nunca mais entres nele”. 26O espírito sacudiu o menino com violência, deu um grito e saiu. O menino ficou como morto, e por isso todos diziam: “Ele morreu!” 27Mas Jesus pegou a mão do menino, levantou-o, e o menino ficou de pé.

28Depois que Jesus entrou em casa, os discípulos lhe perguntaram a sós: “Por que nós não conseguimos expulsar o espírito?” 29Jesus respondeu: “Essa espécie de demônios não pode ser expulsa de nenhum modo, a não ser pela oração”.

Evangelho (Mc 9,14-29)

Deus nos convida a orar para expulsar nossos demônios. Quais são os meus demônios? São todas aquelas coisas que eu descrevi acima. E olhando para aquelas pessoas que dividiam o recinto comigo hoje, ontem e todos os dias, penso que cada uma delas deve ter a sua dificuldade, o seu problema, o seu medo, a sua falta de fé na vida. Deus não chama os puros de coração, Deus não chama os perfeitos, Deus quer salvar os pecadores, as almas miseráveis, curar os que estão dontes. E sim, Deus me conhece e conhece todos os que estavam ali naquela igreja hoje sem as máscaras que nós insistimos em usar para viver em sociedade. Deus nos fala na solidão, Deus nos fala no silêncio e Deus nos fala quando o abismo parece intransponível. Talvez a voz de Deus seja mais audível para os desesperados, para os que não têm mais força para lutar… Talvez por isso haja tantos ateus no mundo hoje: no fim, somos todos arrogantes pra caramba para admitir que não temos controle nenhum sobre a nossa vida – e acreditar em Deus é uma forma de dizer que um ser espiritual – que eu não sou capaz de ver ou tocar, muito menos provar que existe – pode fazer algo que eu não posso.

Hello, I’ve waited here for you
Everlong

Everlong – Foo Fighters

Jesus nos manda ter a coragem de dar a outra face para quem nos ofende e para quem nos faz mal; Jesus nos manda acolher e ouvir as crianças; Jesus nos manda pedir perdão e perdoar todas as vezes em que isso for necessário; Jesus nos pede para não deixa-lo sozinho…. Jesus tem medo da morte. No tempo da quaresma, que começa amanhã, Jesus se sente abandonado pelo próprio Deus – sabendo que não havia outra escolha se não a morte para Ele. Deus que é comunhão e amor se sente tão sozinho como nós.

“Não sou nobre, mas os problemas de três pessoas não são muito neste mundo louco. Algum dia você vai entender isso…”
Rick – Casablanca

Sim, os problemas de três pessoas não são nada nesse mundo louco… a minha autoimagem ou a imagem que eu quero passar para as pessoas não são nada nesse mundo que é simplesmente uma passagem para o que realmente importa: a vida eterna.

17Não tenhas no coração ódio contra teu irmão. Repreende o teu próximo, para não te tornares culpado de pecado por causa dele. 18Não procures vingança, nem guardes rancor dos teus compatriotas. Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor!’”
 (Lv 19,1-2.17-18)

Nesse caos que eu me reconheço e no qual eu vivo, a voz de Deus toma o discurso de Stallone em Rocky Balboa:

O mundo vai botar você de joelhos e você vai ficar de joelhos para sempre se você deixar. Você, eu, ninguém vai bater tão forte como a vida, mas não se trata de bater forte. Se trata de quanto você aguenta apanhar e seguir em frente, o quanto você é capaz de aguentar e continuar tentando. É assim que se consegue vencer.

Agora se você sabe do teu valor, então vá atrás do que você merece, mas tem que estar preparado para apanhar. E nada de apontar dedos, dizer que você não consegue por causa dele ou dela, ou de quem quer que seja. Só covardes fazem isso e você não é covarde, você é melhor que isso.

Só Deus pode nos salvar, só em Deus a vida encontra algum sentido. Aline, ciente de todos os defeitos de uma existência sem rebocos, 25 de fevereiro de 2020, a mulher dessa foto que ilustra esse texto – foto que eu tirei hoje depois de fazer toda a reflexão que aqui escrevi, saindo da missa de hoje, debaixo de uma chuva linda que caia na hora. Obrigada, meu bom Deus, pelas porradas imensas que a vida tem me dado. Eu não sou perfeita, sou cheia de imensos e tristes defeitos, mas Tu brigas por mim, porque me amas desde sempre e pra sempre.

A Ti elevo o meu desejo, a minha oração e a minha prece nesse dia tão escuro quanto as dores que trago na alma: Rogai por nós os pecadores, agora e na hora de nossa morte!

Amém!

Feliz aniversário – ou aquele dos 1461 dias!

Há 1461 dias, eu comecei a aventura de escrever um blog na internet. 1461 dias são exatos 5 anos. É interessante pensar que, há exatos 5 anos, na mesma hora da noite – são quase meia noite do dia 08 de janeiro, eu estava sentada na cadeira ao lado da churrasqueira do meu apartamento escrevendo meu primeiro texto. E hoje, mais de 50 textos depois, eu vejo o quanto eu cresci junto com essa minha empreitada, com esse espaço que não me dá notoriedade ou me traz fama, mas permite que eu me expresse e exponha um pouco da minha visão sobre as coisas que acontecem ao meu redor.

Eu sempre gostei de escrever… o primeiro livro que marcou a minha vida chamava-se “A Marca de uma Lágrima”, do grande Pedro Bandeira, onde a protagonista, Isabel, tinha como ofício escrever cartas de amor do seu primo – pelo qual ela nutria uma paixão adolescente – para a sua melhor amiga – e ela não só escrevia as cartas em nome dele, mas respondia as cartas que ela mesmo escrevia e as entregava ao primo, em nome da amiga. A adaptação que o escritor brasileiro fez de Cirano de Bergerac, aquele famoso feioso francês, cujo nariz tinha proporções gigantescas, mas que era um excelente escritor, ficou marcada pra sempre na minha cabeça: não importa a sua aparência, você tem que tocar o coração das pessoas de alguma forma. E essa foi a minha motivação para, com 10 anos, começar a escrever sobre tudo.

Quando criança, eu gostava de escrever sobre política. Um grande amigo meu lembra até hoje da riqueza dos nossos debates na escola. Quando adolescente, eu comecei a gostar de escrever sobre as coisas que me admiravam. Não, eu quase nunca escrevia cartas de amor. Eu fiz um diário onde eu contava o quanto Deus se fizera presente na minha vida durante todos os dias por 2 anos e, concomitante a isso, eu escrevia um diário onde eu narrava os jogos do Palmeiras… sim, eu era palmeirense fanática já na adolescência e escrevia sobre o quanto aquele time era incrível e me fazia feliz (quem é palmeirense e tem mais de 35 anos deve lembrar bem do Palmeiras de 96), falava sobre a beleza das centenas de gols daquele ataque maravilhoso, enfim, eu ouvia os jogos no rádio e transcrevia para o meu diário. Ambos os diários eu tenho até hoje e às vezes me pego chorando lendo aquela Aline de quase 30 anos atrás, cheia de sonhos, cheia de questões, cheia de planos, cheia de vida.

Muita coisa muda em 30 anos. Muita coisa muda em 5 anos. Esse blog acompanhou todas as transformações da minha vida nos últimos 5 anos. E não foram poucas. Quando eu comecei essa aventura na internet eu tinha 32 anos, quase 33. Eu era casada, aliás, o Rafael me incentivou demais na época e meus dois filhos eram pequenos e me faziam dar risada o dia todo. Ramon, o meu beagle, ainda aguentava fazer caminhadas e correr pelas ruas de Curitiba. Hoje, com quase 14 anos, ele mal aguenta ficar muito fora de casa, quanto mais correr. Enfim, todos envelhecemos. E este blog não seria diferente.

Eu já escrevi sobre tanta coisa. E tudo começou pelo meu medo de ter Alzheimer e não saber quem eu realmente fui. Sempre quis deixar uma marca no mundo, sempre quis ser relevante de alguma forma. Mas hoje eu percebo que as pessoas comuns que estão ao meu redor – o vendedor de pipoca da esquina, a caixa venezuelana do mercado, as atendentes da escola de inglês, o guardador de carros da rua que improvisa uma casa no estacionamento do banco, o antigo segurança do meu trabalho – que toca saxofone como poucos e sabe o nome de todos os funcionários do prédio – são as pessoas mais extraordinárias que eu conheço. E são extraordinárias porque são comuns. Ao longo dos anos, percebi que a relevância só faz sentido se você é relevante para quem você ama – a Greta Thumberg ganhou a capa da Time, mas ninguém de fato gosta dela. Ramon provavelmente terá mais relevância na minha vida do que alguém que o mundo inteiro conhece. Eu chorei quando Senna morreu. Eu chorarei quando Ramon morrer. Isso mede importância. O resto, de verdade, não faz muito sentido.

De que adianta ganhar o mundo inteiro e perder sua alma? O evangelho não mente. Eu estou ficando velhinha, faço 38 anos na semana que vem, mas sinto que esse movimento é bom, é belo, é natural. Eu errei muito na vida – Deus sabe todos os meus erros, todos os meus arrependimentos e não há um dia em que eu não pense que o cara lá de cima poderia criar uma máquina do tempo capaz de fazer a gente ver o que fez de errado e consertar as coisas depois de um tempo. Infelizmente, a gente não pode reescrever a história – e talvez aí esteja a grande beleza da condição humana: você tem que aprender com os erros, usá-los como medida de experiência. A maturidade serve, justamente, para que você repita cada vez menos os erros que te fazem mal, que te fazem sofrer, que te fazem infeliz. No fim, a gente fica velho e aprende a dar um grande foda-se para tudo o que é superficial. Se você ficou velho e não fez isso ainda, você certamente está envelhecendo do modo errado.

Eu vou fazer 38 anos e uma vida nova chegou sem pedir muita licença. E no fim, eu registrei isso tudo nos meus últimos textos do blog. E isso criou a memória, criou o arquivo que me socorrerá todas as vezes que eu não souber por onde recomeçar. Você é a Aline da sua minúscula varanda, você é a mulher que chora vendo filmes de amor, que aprendeu a gostar de ficar sozinha, que é capaz de escutar a mesma música 10 vezes seguidas se a letra disser alguma coisa sobre ti e contar a mesma história para todas as suas amigas esperando ouvir conselhos diferentes sobre um mesmo problema. No fim, esse blog é a minha memória. Eu, que tenho imensa dificuldade em me abrir para qualquer pessoa, me exponho aqui, e faço desse espaço o meu consultório, o meu ouvido, o meu melhor amigo.

Bem, o dia virou. O blog completou seu aniversário. O Ramon está aqui roncando ao meu lado, enquanto eu escrevo no notebook, deitada na minha cama. Gosto de pensar que um dia vou lembrar dessa cena, de nós dois nessa casa vazia numa noite de verão, do quanto ele foi importante pra mim nos momentos mais decisivos da minha vida. Ele permaneceu, dentre todas as coisas que mudaram. Talvez nisso o blog cumpra a sua função – de mostrar a história que, no fim, ninguém conta – o cotidiano, os dias e as noites comuns, os passeios nas ruas, as corridas solitárias, as pessoas que por aqui passaram. O Spotify, de forma aleatória, toca em um daily mix agora Céu de Santo Amaro, do Flávio Venturini, uma das músicas que eu mais amo na vida – porque me lembra um tempo em que eu fui genuinamente feliz, e uso os versos do poeta para me despedir desse texto de celebração:

Olho para o céu
Tantas estrelas dizendo da imensidão
Do universo em nós
A força desse amor
Nos invadiu…
Com ela veio a paz, toda beleza de sentir
Que para sempre uma estrela vai dizer
Simplesmente amo você…

Eu acho que entendi que me sinto amada quando escrevo, quando compartilho pequenas alegrias e sensações tão minhas. Fico feliz quando alguém me conta que leu algo que eu escrevi e que, de alguma forma, se identificou com essas mal traçadas linhas – a frase com a qual minha vó começava todas as suas cartas. Vida longa e próspera ao imenso universo que se constituiu nesse pequeno espaço. E que as estrelas continuem a inspirar histórias, pequenas e grandes que se escrevem todos os dias.