Memórias de um dia especial

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Notícias da Europa me chegam via WhatsApp: “há um monte de velhinhos pelados nas praias do Mediterrâneo”; notícias da política aparecem no meu feed: “Temer é vaiado e aplaudido no 7 de setembro”; meu pai me manda um longínquo bom dia e diz que está com frio, as crianças se divertem construindo fazendas de ovos  com tubulação subterrânea no Minecraft e Frank Sinatra surge, providencialmente, na rádio que me faz companhia online:

Yes, you’re lovely, never ever change
Keep that breathless charm
Darling please arrange it?
‘Cause I love you
Just the way you look tonight
(Frank Sinatra – The way you look tonight)

Just the way you look tonight… Sempre que escuto essa frase imagino algum momento perfeito daqueles que a gente quer congelar e impedir que acabe.  Sabe aquele momento que você gostaria que durasse para sempre? Acho que foi um flash desses que Sinatra canta nessa letra: ele queria que aquele momento fosse eterno simplesmente porque, naquele instante perfeito, ele era feliz de fato.

Muita gente trata a felicidade como algo que vem em litros: eu serei feliz quando tiver uma bela casa na praia, dois filhos, um cachorro limpo que não faça xixi no sofá e não lata, um marido com vocação para príncipe encantado e uma conta bancária recheada.  Para as mulheres, tudo isso ainda vem acompanhado pelo desejo de um corpo escultural, manequim 34 e belos peitos de silicone.  Pensando assim, a felicidade é somente aquilo que , em suma, causa inveja aos outros.  A felicidade descrita por Sinatra definitivamente  não cabe aqui, não faz sentido. Não faz sentido porque, de fato, ela não vem em litros, ela não é duradoura: como na história da Cinderela, o encanto tem hora para acabar – e a carruagem, às 00:00 volta a ser uma abóbora.  Mesmo com a abóbora, o que fica é a história… e vamos nos forjando frente a nossas memórias, a nossos pequenos – e escassos – momentos de plenitude.

“Nós somos o que nossa memória diz que somos”disse um amigo esta semana, confrontado com a realidade de uma pessoa subitamente sem memória após um desmaio.  Essa frase ficou na minha cabeça e me fez concluir que nós somos também as memórias que formamos nos outros.  E como isso é profundo.  Talvez um dia eu não saiba mais quem eu sou, mas eu desejo estar acompanhada por gente que saiba exatamente quem eu sou, qual a minha história, qual é o meu passado – mesmo que não haja perspectivas de futuro.  Sim, eu quero viver para sempre nas memórias de outros, caso eu perca a minha.  Sim, eu quero me perder junto daqueles que eu amo – e encontrar-me sempre que tudo não fizer mais sentido.

Não vou agora, não
Não quero te encontrar
Preciso me perder como preciso de ar
Perder o rumo é bom
Se perdido a gente encontra
Um sentido escondido em algum lugar

Devolva-me o que você levou ou
Leve-me contigo, perca-se comigo
(Humberto Gessinger – Faz Parte)

Humberto Gessinger mandou muito bem nessa letra, penso eu.  Talvez porque ela seja o complemento perfeito para os versos de outro gênio da nossa música, o grande poeta Cartola:

Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar
Se alguém por mim perguntar
Diga que eu só vou voltar
Depois que me encontrar
(Cartola – Preciso me encontrar)

Talvez a vida faça mais sentido quando percebemos que podemos nos encontrar não só em nós mesmos, mas também nos outros.  Que nos tornamos imortais através das relações que construímos:

Naquela mesa ele sentava sempre
E me dizia sempre o que é viver melhor
Naquela mesa ele contava histórias
Que hoje na memória eu guardo e sei de cor
Naquela mesa ele juntava gente
E contava contente o que fez de manhã
E nos seus olhos era tanto brilho
Que mais que seu filho
Eu fiquei seu fã

Eu não sabia que doía tanto
Uma mesa num canto, uma casa e um jardim
Se eu soubesse o quanto dói a vida
Essa dor tão doída não doía assim
Agora resta uma mesa na sala
E hoje ninguém mais fala do seu bandolim

Naquela mesa tá faltando ele
E a saudade dele tá doendo em mim
(Naquela mesa – Nelson Gonçalves)

O meu filho começou a cantarolar os versos de Nelson… talvez um dia se lembre desse dia com carinho, com saudades das tardes ensolaradas que passamos juntos ouvindo música e jogando videogame.  E pense que a vida é sempre extraordinária, mesmo quando nada de absolutamente extraordinário acontece!  E eu terei existido, estarei viva para sempre!

Índios: a conversa de Renato Russo com Deus

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Eu que não creio, peço a Deus por minha gente (Chico Buarque)

Gosto de correr ouvindo música… a melodia que sai dos fones de ouvido me ajuda a me desligar do mundo, a me concentrar no exercício e, de quebra, a pensar um pouco na vida.   A playlist é bem variada: há representantes do rock nacional e internacional, um pouco de MPB e até rádios AM que me trazem emoção nos dias de futebol.

Hoje não foi diferente… Eu corria pela rua e Renato Russo me fazia companhia. Enquanto eu observava o caminho, Renato me dizia que coisas sobre o Sr. da Guerra, sobre Meninos e Meninas e os versos de Baader-Meinhof Blues faziam bastante sentido nessa manhã gelada:

Andando nas ruas pensei que podia ouvir
Alguém me chamando, dizendo meu nome
Já estou cheio de me sentir vazio
Meu corpo é quente e estou sentindo frio…

Eu comecei a viajar nas letras… e viajando, olhando a paisagem, cheguei à última música do álbum: Índios.  Tenho que confessar: até bem pouco tempo atrás, essa música não me dizia muita coisa.  Me parecia pueril a tentativa do Renato de exaltar a inocência usando índios como temática.  Apesar de eu ser antropóloga, não tenho muita paciência pra esse discurso que transformou os índios em vítimas da sociedade capitalista.  Mas como sou idiota: a música não é sobre os índios – a música é sobre a relação dos homens com Deus e a letra de Renato me proporcionou uma das orações mais profundas que já fiz.

Quem me dera, ao menos uma vez,
Que o mais simples fosse visto como o mais importante
Mas nos deram espelhos
E vimos um mundo doente.

Quem me dera, ao menos uma vez,
Entender como um só Deus ao mesmo tempo é três
E esse mesmo Deus foi morto por vocês
É só maldade então, deixar um Deus tão triste.

Só maldade então deixar um Deus tão triste… esses versos ecoaram pela minha mente… como deixamos Deus triste? A própria concepção de Deus nos leva a pensar que a tristeza é incompatível com a plenitude divina. A tristeza é algo reservado aos mortais.  Desta forma, é impossível deixar Deus triste.  A única forma de Deus ser triste é se Deus fosse humano…

Eu quis o perigo e até sangrei sozinho.
Entenda – assim pude trazer você de volta pra mim

Deus se fez humano.  E eu, tão crente que sou, me esqueço disso frequentemente… E me esqueço, especialmente, que Ele ESCOLHEU a condição humana.  Ele escolheu a morte, ele escolheu a solidão.  Deus, sendo Deus, escolheu ser um de nós e sangrar sozinho numa cruz.  E Renato parece entender essa solidão, porque é a solidão dele também:

Quando descobri que é sempre só você
Que me entende do inicio ao fim

E aí ele se dá conta que essa solidão é expressão da nossa falta de plenitude, de uma vivência que nos é impossível, mas que é conhecida, desde sempre, pelo nosso espírito…

E é só você que tem a cura pro meu vício
De insistir nessa saudade que eu sinto
De tudo que eu ainda não vi

E diante desse reconhecimento da imperfeição em contraste com a plenitude, Renato se deixa levar pelo desejo de felicidade e começa a divagar sobre os limites da existência e a dizer que sim, que gostaria de acreditar, que gostaria de, ao menos uma vez, sentir essa plenitude:

Quem me dera, ao menos uma vez
Acreditar por um instante em tudo que existe
E acreditar que o mundo é perfeito
E que todas as pessoas são felizes

Quem me dera, ao menos uma vez
Fazer com que o mundo saiba que seu nome
Está em tudo e mesmo assim
Ninguém lhe diz ao menos obrigado

Quem me dera, ao menos uma vez
Como a mais bela tribo, dos mais belos índios
Não ser atacado por ser inocente

Então Deus o chama novamente para junto de si e pede, novamente, ao poeta que O entenda:

Eu quis o perigo e até sangrei sozinho
Entenda: assim pude trazer você de volta pra mim

E Renato O entende… Entende que a sua alma tem sede de Deus e novamente ele diz a Deus que Ele é o único

Que me entende do início ao fim
E é só você que tem a cura pro meu vício
De insistir nessa saudade que eu sinto
De tudo que eu ainda não vi

Mas a saudade da alma é algo que não se pode preencher aqui… Essa plenitude é impossível.  Renato encara novamente a sua finitude e, reconhece a sua incompletude quando olha para si mesmo diante do espelho.

Nos deram espelhos e vimos um mundo doente
Tentei chorar e não consegui

Ele quer acreditar, ele quer sentir, mas ele é tão humano que ele não consegue alcançar… E assim ele reconhece Deus, mas reconhece também que Deus está distante… e segue em sua busca…

Ao compreender tudo isso enquanto corria, meus olhos se encheram de lágrimas… e Deus se fez presente no meu dia.  Encontrei o Rafael à frente e comentei com ele sobre a música e ele me disse que, coincidentemente, estava com a mesma música na cabeça… essa reflexão que faço aqui é resultado dessa nossa conversa e da minha oração enquanto eu corria…

Ah, enquanto eu ouvia Índios, me lembrei de Sagrado Coração, música do último disco do Renato, presente de forma instrumental em “Uma Outra Estação”… Renato morreu antes de gravar os vocais, mas a letra assim diz:

Falam de um lugar
Mas onde é que está?
Onde há virtude e inteligência
E as pessoas são boas e sensíveis
E que a luz no coração
É o que pode me salvar
Mas não acredito nisso
Tento mas é só de vez em quando

Ele, à beira da morte, mais uma vez fala com Deus… e reconhece que duvida desse mesmo Deus, reconhece que é difícil acreditar vendo um mundo doente, cheio de coisas tristes.  Mas, mesmo sem acreditar todo o tempo, pede ajuda a Deus e, como Jesus na cruz, que se sentiu abandonado por Deus, reconhece que tem medo e que não quer mais ficar sozinho…

Por isso lhe peço um favor
Pense em mim, ore por mim
E me diga: – este lugar distante está dentro de você
E me diga que nossa vida é luz
Diga que nossa vida é luz
Me fale do sagrado coração
Porque eu preciso de ajuda

Renato teve a graça de reconhecer Deus… quantos de nós passamos a vida toda dentro de uma religião e não somos capazes de alcançar essa graça.  Talvez a voz que me chamava na rua, parafraseando os versos de Renato em Baader-Meinhof Blues, era Deus dizendo que o vazio da nossa alma é infinito, mas que a plenitude será realidade um dia.  Salve, Renato!  E que Deus, em sua infinita misericórdia, lhe tenha acolhido e lhe dado a plenitude que você tanto buscava… E que assim seja com cada um de nós!

Confira aqui a letra de Sagrado Coração, não gravada por Renato.

Hoje acaba 2003, o ano de 4879 dias

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Hoje de manhã recebi a seguinte mensagem pelo WhatsApp: Bom dia!  Já é Temer na Austrália!  Embora a informação não estivesse totalmente correta – porque o fuso horário da Austrália está entre 11 e 13 horas à frente do nosso, a frase trazia em si uma informação importante: amanhã, dia 12 de maio,  será o futuro de um Brasil que não será mais governado por uma PresidentA, mas por um Presidente que também, a despeito do que falam, foi eleito através do voto por cerca de 54 milhões de brasileiros.

Eu não votei no Temer.  Aliás, abomino a chapa pela qual ele se elegeu – a mesma da PresidentA Dilma.  Mas o Temer, apesar de vice da Dilma, é hoje a nossa ruptura – o PMDB, mais uma vez, tal como em 1986 – com a morte de Tancredo Neves – e em 1992 – com o impeachment de Fernando Collor – recebe um país mergulhado em uma profunda crise política e econômica.  E o PMDB – o partido de mil facetas, liderado por Renan Calheiros, de Eduardo Cunha e Temer se torna responsável, pela terceira vez na história, pela reconstrução do país, liderando nossa Ponte para o Futuro – título de uma carta elaborada pelo partido no final do ano passado (consulte o texto aqui).  Enquanto escrevo esse texto, Renan Calheiros diz, presidindo a sessão do Impeachment, que é preciso paciência para construir um projeto de nação.  E o PMDB, com um ministério já recheado de bons nomes e com o apoio de quase todos os partidos do Congresso Nacional – com exceção do PT e de suas linhas auxiliares: Rede e PSOL – conduzirá a transição para este futuro, um futuro sem o PT no governo.

Aliás, o que vemos hoje é o final de um longo ano que teve início em 2003, em 01 de janeiro de 2003 para sermos mais exatos.  Naquele dia, um ex metalúrgico e político profissional foi empossado, com direito à festa popular, como Presidente da República.   “A esperança venceu o medo” e uma nova era se iniciava: um longo 2003, que termina, de forma dramática, no dia de hoje, quase 5000 dias depois de iniciado.

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E vocês já pararam para pensar quanta coisa acontece em 5000 dias? São 13 anos… Em 13 anos, muita coisa mudou no Brasil, mas a principal delas, que culmina com o espetáculo que vemos hoje, é que o PT perdeu o monopólio da ética na política brasileira: o Lula eleito em 2002 era um defensor dos trabalhadores; o Lula eleito em 2006 era um Presidente “traído” por seus interlocutores mais próximos (no caso do mensalão); a sucessora de Lula, Dilma, eleita em 2010, era uma burocrata que venceu o câncer; a Dilma eleita em 2014 era uma presidente alvo de piadas por sua verborragia peculiar, assolada por casos de corrupção em seu governo e que teve que fazer terrorismo eleitoral para não ser esmagada no pleito.  A fala dos senadores governistas hoje, em sua patética despedida do governo durante a sessão do impeachment, traz o tom não só da derrota, mas também da incredulidade daqueles que não foram capazes, por apego à ideologia, de perceberem o esgotamento do modelo petista de governar e fazer política.

Manifestantes queimam bandeiras do PT em todo o País. Mudanças exigem o fim do governo.

2003 começou a acabar em junho de 2013  quando o PT viu-se derrotado em sua tentativa de radicalizar o regime e perpetuar-se no poder (conforme já tratei em outro texto publicado no blog – ver aqui).  Sim, o 11 de maio de 2016 se tornou oficialmente um projeto em 13 de junho de 2013, quando milhares de brasileiros foram às ruas gritar contra as pautas petistas.  Ali o PT morreu, mesmo ganhando as eleições no ano seguinte. Ali iniciamos o caminho que nos trouxe até o dia de hoje, o último dia de 2003.

Eu sei que quando o voto nº 41 for atingido hoje, ou provavelmente na madrugada de amanhã, o PT não retornará ao poder.  Essa é a minha grande esperança.  Não falo da Dilma, que não retornará mesmo após os 180 dias, mas falo do PT como partido, do PT como governo.  É óbvio que os brasileiros têm simpatia por gente que faz discurso populista e vitimista e que promete que vai tirar dinheiro dos empresários e banqueiros para dar aos pobres, mas a figura icônica de Lula estará, graças à Lava-Jato, presa nas próximas eleições e o PT não tem um outro grande líder além dos que já estão na cadeia.  O PT voltará para a oposição e nós teremos nosso Brasil de volta, após 4879 dias.  Nossos problemas certamente não acabarão, mas podemos respirar com a certeza de não estarmos mais à mercê de uma ditadura.  Já que a História sempre se repete como farsa, tal como já disse o guru dos vermelhinhos, Karl Marx, maio mais uma vez cumpre seu papel de livrar o Brasil da escravidão.  Que nos sirva de lição e que o novo ano que se inicia traga consigo a certeza de que somos hoje, mais do que nunca, condutores do nosso destino!

tchau-querida

17 de abril de 2016: bem-vindo, futuro!

PT-NUNCA-MAIS

Em junho de 2005, há quase 11 anos, Roberto Jefferson, então deputado federal e presidente do PTB, denunciou aquele que seria o divisor de águas na administração petista: o mensalão. Ele não o fez por ser um homem honesto ou por não compactuar com a corrupção. Ele realizou a denúncia quando, com o seu nome achincalhado pela relação com o esquema de propina dos Correios, foi abandonado à própria sorte pelo então ministro José Dirceu que quis jogar no colo do PTB todas as mazelas do governo Lula.
Todos sabemos como terminou o mensalão: Marcos Valério, um operador do esquema, foi condenado há quase 40 anos de prisão, enquanto o verdadeiro mentor do esquema, José Dirceu, foi condenado há 07 anos, dos quais foi liberado de 2014 para cumprir o restante em regime semi-aberto, onde permaneceu até ser alvejado pela lava-jato em 2015.
Apesar do mensalão, Lula foi reeleito. Capitaneado pelos bons resultados da economia no seu primeiro governo – fruto da manutenção da política econômica iniciada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso – Lula conseguiu se safar do escândalo do mensalão com a desculpa de que não sabia de nada e foi enganado por caciques de seu próprio partido, bem como por lideranças políticas que tinham como intuito impedir o triunfo de um governo do povo para o povo. Apesar de reeleito com votação recorde, seu segundo mandato já não foi tão próspero. Abalado pela crise internacional de 2008, agravada no Brasil pelo incremento das suas políticas populistas que custavam cada vez mais aos cofres públicos, ele conseguiu eleger sua sucessora, um nome do segundo escalão do PT, conhecida por ser uma burocrata sem trato político. A imagem de mulher forte, ex-guerrilheira, presa pela Ditadura, que venceu o câncer e comandou com mãos de ferro dois ministérios no governo Lula, era o que o PT precisava para manter-se no poder por mais um mandato. Aliada a sua imagem de mulher inteligente e forte, construída pelo PT a partir de 2007 como decorrência do envolvimento dos principais nomes do partido pelo escândalo mensalão, Dilma ainda teve a sorte de enfrentar como opositor, em sua primeira eleição, José Serra, fraco representante de uma oposição inexistente. A eleição de Dilma só serviu para mostrar aos brasileiros o poder até então infinito conquistado pela figura messiânica do presidente Lula, pai salvador da nação. Se o Lula era capaz de eleger a Dilma, quem poderia detê-lo?
O otimismo perdurou até junho de 2013 quando, convencido pelos números a respeito da popularidade da presidente Dilma, o PT entendeu que já era hora de radicalizar o regime e materializar todas as ideias que já vinham há anos sendo incutidas na cabeça dos brasileiros: controle da imprensa, controle da internet, controle do mercado financeiro, necessidade de doutrinação de gênero. O PT chamou então o povo para ir às ruas para celebrar a emergência de um novo país. Mas o povo brasileiro, quando invadiu as ruas naquelas noites cheias de quebradeiras e black blocks, exigiu um país muito diferente do país do PT: as pessoas gritaram contra o aborto, contra o casamento gay, contra o cerceamento da imprensa, contra as ditaduras de esquerda. A voz das ruas não era a voz do governo. Iniciou-se, então, um processo de formação e aglutinamento dessas pautas populares através das mídias sociais, onde ganharam destaque os ensinamentos do Prof. Olavo de Carvalho, filósofo brilhante e crítico ferrenho dos esquemas de poder da esquerda pelo mundo.
Com uma oposição minimamente instruída e um cenário de insatisfação social, Dilma teve dificuldades para ser reeleita e apelou para o terrorismo eleitoral. Aécio Neves não venceu uma eleição marcada pela mais discarada – e triste – compra de votos da história, mas conseguiu mostrar que o PT já não era mais uma unamidade. Dilma não tinha a aura de santidade de Lula e, depois de seu primeiro mandato, nem a história triste do câncer e da prisão durante a ditadura convenceriam muita gente. Ficou claro que as pessoas não apoiavam o PT – apoiavam sim o que conseguiram no governo petista e acreditaram na lorota eleitoral de uma presidente que, em franco exercício criminoso, disse que não havia crise no país.
Como a mentira tem perna curta, a crise estourou ainda no fim de 2014, logo após a eleição da presidente. Aliado à crise, o crescimento exponencial da Operação Lava Jato, iniciada também 2014, fez de 2015 um ano explosivo. O PT conseguiu o que sempre quis: jogar os brasileiros uns contra os outros, com a diferença de que a maioria esmagadora dos brasileiros estava, pela primeira vez na história, contra o PT. Março de 2015 foi o início da epopéia de 2 milhões de pessoas que se multiplicaram, no inesquecível março de 2016, em 6 milhões. A lava jato divulgou conversas de Lula com a presidente Dilma na qual ela lhe oferece um ministério em troca de foro privilegiado para que o ex-presidente fugisse das garras do juiz Sergio Moro, aquele que, com sua investigação, fundou a República de Curitiba, a capital moral do Brasil. Ele teve a nomeação suspensa, não foi preso, mas perdeu a santidade ignóbil que o acompanhou por mais de 30 anos. Lula também era um picareta e isso ficou muito claro nos últimos dias quando se trancou num quarto de um luxuoso hotel em Brasília para negociar cargos com o baixo clero da Câmara em troca de parcos votos – que não virão – contra o impeachment.
E hoje é o dia do impeachment. É o dia em que a República Federativa do Brasil tenta retomar as rédeas da condução de seu próprio futuro e se fazer, novamente, independente dessa corja podre que hoje conduz nossas vidas em um presente de absurdos. É dia de celebrar, não a nossa estupidez, como cantou Renato Russo, mas a nossa luta, a nossa fé, a nossa esperança. Que comece logo a votação, pois, parafraseando Renato mais uma vez, “meu coração está com pressa, quando a esperança está dispersa, só a verdade me liberta, chega de maldade e ilusão”…
Que nos lembremos para sempre desse dia 17 de abril como a nossa primavera, o dia em que “nosso futuro recomeça… Venha que o vem é perfeição”!

Ser mulher é…

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Todos os dias, eu acordo pensando que é hora de mudar a minha vida: talvez eu devesse entrar no doutorado, retomar o curso de Inglês, me matricular na academia ou mudar a cor do cabelo. Olho o despertador e me convenço que cinco minutos a mais na cama não serão ruins. Afinal, são só cinco minutos em 24 horas, que mal há nisso? Nenhum mal, se esses cinco minutos não se tornassem trinta, quase todos os dias.

E assim começa o dia, já recheado de preocupações próprias: casa, marido, filhos, trabalho, contas… Enquanto eu leio as notícias no celular, escuto minha rádio predileta e falo com as minhas amigas pelo whatsapp sobre estratégias eficazes para a perda de peso ou sobre o resultado dos jogos do final de semana. Comentamos a última delação premiada e – kkkkkkkkk – alguém manda uma piadinha para descontrair o papo! Será que as crianças têm lição de casa? O que vou fazer para o almoço? Ai, esqueci que hoje é dia de entregar aquele relatório no trabalho. E agora? A aceleração já tomou conta do meu dia que começara tão preguiçoso pouco tempo atrás.

Mil coisas ao mesmo tempo, cabeça cheia de pensamentos desencontrados. A panela com o feijão está no fogo, os minutos passam rapidamente. Eu percebo que aqueles minutos que eu fiquei enrolando seriam preciosos agora. Vou me atrasar para o trabalho, de novo. Mas depois eu compenso, como sempre. Oh meu Deus, como eu queria ter um teletransportador ou uma máquina capaz de parar o tempo. Ah, e também um aparelho de maquiagem express e um aspirador à vácuo de gordura corporal para aquele vestido que me servia tão bem há 2 anos atrás continuar entrando no meu corpo. 

Chego ao trabalho e são tantas coisas para falar com meus colegas que um café vai muito bem. E café com bolachinhas então… É perfeito! As amigas do outro setor marcam um café para logo mais… E mais café, e mais bolachinha, e mais risada. E assim o tempo vai passando. A coisa mais legal do trabalho são os amigos que tenho por lá. Tudo se torna mais fácil e mais divertido quando a gente gosta do que faz e tem amigos por perto. 

E haja trabalho: aquele relatório precisa de mais informações. Aquele mandado tem que ser cumprido hoje, tomara que eu encontre o cidadão que eu devo intimar. Hoje vou minutar 20 sentenças. Putz, amanhã tem reunião na escola das crianças! Vou ligar para o marido e dizer que nós poderíamos comer uma pizza mais tarde. Estou com preguiça de cozinhar, estou cansada… Eu não deveria comer pizza, engorda. Ande, ainda faltam 20 sentenças… Esse tempo não para!

Hora de voltar para casa e nada de sentar no sofá. Esse dia merece terminar com uma cerveja. Deixa eu terminar de arrumar tudo, que aí eu sento e vejo um bom filme! Oba, terminei. Estou exausta! Ainda bem que tem a pizza! A cerveja fica para amanhã. Prometo! E o dia termina… enquanto eu durmo, faço novas promessas inconscientes, novos planos… É necessário que tudo recomece algumas horas depois. E em algum dia entederemos que nesta rotina reside a nossa felicidade.

Esse texto é dedicado especialmente a todas as mulheres que, como eu, acordam todos os dias com a missão de transformar o mundo. Não um mundo em abstrato ou um exercício de utopia, mas um mundo real, um mundo feito por gente de verdade. Um mundo onde dois e dois são quatro, mas podem ser cinco ou seis, caso haja mais pratos na mesa. Se o Dia da Mulher tem alguma função é só pra fazer com que nos lembremos que ser mulher é muito especial, afinal, somos o único sexo capaz de fazer mil coisas ao mesmo tempo – sem perder a beleza! Nós somos caóticas, mas o nosso caos faz do mundo um lugar mais divertido, mais leve e mais barulhento. Sim, nós falamos demais! Mas também, com tanta coisa na cabeça, não poderíamos ser diferentes. O mundo que nos escute.

Parabéns a todas as mulheres! 

Luiz Inácio falou, Luiz Inácio avisou…

Lula Rezando (melhor)

Os fãs do rock nacional devem se lembrar dos versos que usei para titular esse texto, oriundos de um sucesso dos Paralamas do Sucesso lançado em 1994: Luiz Inácio (300 picaretas).  A música, parte do EP “Vamo batê lata” tinha como condão uma frase de Lula de 1993 onde ele, na época um ex-deputado em preparação para sua segunda campanha presidencial assim definiu o Congresso Nacional:

“há uma minoria que se preocupa e trabalha pelo país, mas há uma maioria de uns 300 picaretas que defendem apenas seus próprios interesses”.

Adoro o tempo! Passados mais de 20 anos, o mesmo Lula agora é acusado de realizar negócios excusos com construtoras para reformar seus imóveis de veraneio, em processo iniciado enquanto ainda era Presidente da República.  Ao ser acusado de defender seus próprios interesses e confrontado com provas diversas, ele oferece como resposta a seguinte frase:

“Se tem uma coisa que eu me orgulho, neste País, é que não tem uma viva alma mais honesta do que eu. Nem dentro da Polícia Federal, nem dentro do Ministério Público, nem dentro da igreja católica, nem dentro da igreja evangélica. Pode ter igual, mas eu duvido”.

Claro que não, Sr. Lula… todas as ações atribuídas ao Sr. pela imprensa são só uma tentativa de macular a sua imagem, uma tentativa da elite golpista brasileira de enterrar seu legado inigualável de vida e de amor ao povo brasileiro…

Luís Inácio falou, Luís Inácio avisou, são trezentos picaretas com anel de doutor…

Eles ficaram ofendidos com a afirmação
Que reflete na verdade o sentimento da nação
É lobby, é conchavo, é propina e jeton
Variações do mesmo tema sem sair do tom
Brasília é uma ilha, eu falo porque eu sei
Uma cidade que fabrica sua própria lei
Aonde se vive mais ou menos como na Disneylândia
Se essa palhaçada fosse na Cinelândia
Ia juntar muita gente pra pegar na saída
Pra fazer justiça uma vez na vida

E o triste é que, por causa dessa imprensa golpista a serviço de uma elite coxinha, o povo brasileiro está em campanha para ver o Lula na cadeia – quer fazer justiça uma vez na vida punindo quem? o único homem que se interessou pelo bem estar de nosso povo… Que tristeza! Nosso Painho Padim Lula se declara vítima de uma campanha sórdida de difamação, com o intuito de fazer a nossa “imensa massa de iletrados” continuar sem vez – e voz – nesse nosso país tão desigual.  Nunca antes na história deste país, um líder foi tão achacado e humilhado.

De exemplo em exemplo aprendemos a lição
Ladrão que ajuda ladrão ainda recebe concessão
De rádio FM e de televisão
Rádio FM e televisão

Putz, quem ganhou concessão de TV não foi o filho do Lula, o Lulinha? Essa imprensa não tem jeito mesmo, não é? Já não basta acusar o pai, vão acusar o filho também? Não dá para confiar mesmo na imprensa… ainda bem que podemos confiar no Lula, um homem íntegro, honesto, cidadão modelo na luta contra a corrupção.  Um homem que foi enganado por seus amigos mais próximos, gente como o Zé Dirceu, o Zé Genoíno, o Vaccari, o Delúbio Soares, uma quadrilha que montou um esquema monstruoso para o aparelhamento do Estado pelo PT e para a perpetuação da legenda no comando do país…   Esses mesmos amigos, que traíram o Lula no mensalão agora o implicaram de novo na Lava-Jato, um pequeno processo comandado por um juiz ditador com ligações com a extrema direita representada pelo PSDB paranaense para tirar a Dilma do poder… Triste o o tempo em que não se pode mesmo confiar nem nos amigos.

Mas Luiz Inácio é, como todo bom sertanejo, antes de tudo um forte: Luiz Inácio falou:

“o governo criou mecanismos para que nada fosse jogado embaixo do tapete nesse País. Duvido que tenha um promotor, delegado, empresário que tenha a coragem de afirmar que eu me envolvi em algo ilícito.”

Claro que não…  Fascistas não passarão!

Oremos por Santo Luiz Inácio Lula da Silva.  Um homem acima do bem e do mal, o verdadeiro pai de todos os brasileiros.  Interceda por nós, Santo Lula! Se vier a Curitiba, prometo lhe fazer uma visita e prestar minha solidariedade! Força guerreiro!

Ironias à parte, esse texto é resultante de uma reflexão iniciada a partir de comentários publicados na página do Lula no Facebook.  Sim, ainda há gente que acredita no Lula, ainda há gente que curte o Lula e, pior, ainda há gente que defenda esse sociopata publicamente!  As pessoas são livres para acreditarem no que quiserem, mas a verdade será sempre a verdade – independente das nuances ou contornos que tentarem conferir a ela. No fim, toda essa loucura do Lula me lembrou uma frase dita por Rick Blaine, personagem de Humphrey Bogart em Casablanca:

“Não luto por mais nada, exceto por mim mesmo.
Sou a única causa na qual estou interessado.”

Sim, Lula também só está interessado nele próprio, em salvar sua própria história.  Tanto faz o que o Luiz Inácio falou… no atual contexto, as palavras dele não valem muita coisa.

Amar e mudar as coisas – um adeus a 2015!

Jpeg

Eu começo o meu último post de 2015 relembrado o meu último texto de 2014, publicado em minha página do Facebook no mesmo dia 30 de dezembro, um ano atrás:

“O ano está acabando e é a hora em que todos nós nos sentamos frente a uma cerveja gelada e começamos a pensar nos dias em que virão. O futuro sempre é algo importante em 31 de dezembro. Já no dia 01 de janeiro, esse mesmo futuro tem gosto de ressaca, de cansaço e de uma certa impotência – afinal, apesar de vc ter usado branco para atrair a ‘paz’ ou vermelho pra ver se os deuses do céu lhe conferem um novo e estrondoso amor, as coisas não mudam da noite para o dia.

Embora, porém, as coisas não mudem com a mesma velocidade com que passam os 10 segundos que antecedem o novo ano, o ritual de passagem é importante para marcar a nossa existência. Somos seres do tempo, somos perecíveis, somos mortais. E janeiro simboliza, naturalmente, o início de um novo ciclo, uma chance – mesmo que hipotética – de recomeçar o sonho da vida, de aprender, de perdoar, de ser feliz – é o mês das possibilidades infinitas.

Enquanto escrevo isso, estou ouvindo uma playlist do Belchior, na qual uma das músicas diz assim:

“Eu não estou interessado em nenhuma teoria
Nem nessas coisas do oriente
Romances astrais
A minha alucinação
É suportar o dia-a-dia
E meu delírio
É a experiência
Com coisas reais”

A minha alucinação é suportar o dia-a-dia… e lutamos tanto – ano após ano – simplesmente para nos mantermos vivos. E o que importa mais do que isso? Você pode ter dinheiro, pode ter um corpo maravilhoso, pode ter um carro fenomenal e filhos que falam inglês perfeitamente antes do fim da primeira infância – mas tudo isso não lhe garantirá uma existência feliz, porque a felicidade não está nas coisas materiais, na tua aparência, mas na tua força interior em tomar conta da tua própria existência, tomar as rédeas da tua vida, ser responsável por tuas escolhas, pela realização dos teus sonhos.

Que 2015 nos traga, então, grandes promessas, grandes sonhos e grandes realizações. Que a mágica dos 10 segundos contagie os nossos 365 dias e que saibamos que a vida real é bem mais fascinante que a vida de selfies compartilhados na internet. Como metas, poderíamos nos propor a perseguir um 2015 repleto de botecos, de cervejas geladas, de conversas ao vivo, de abraços apertados, de risadas sonoras, de amores imperfeitos, de vida real. É o que eu desejo pra nós, a experiência das coisas reais, tal como nos versos do saudoso e sumido Belchior! Que Deus nos abençoe e feliz 2015! “

Agora, que 2015 praticamente acabou, eu me empenho mais uma vez na tentativa de escrever uma mensagem de ano novo, talvez para avisar aos meus neurônios que eles têm que substituir as folhinhas do meu calendário interior.  Como eu faço aniversário em janeiro, isso é meio automático na minha vida, mas escrever é uma boa maneira de encerrar e iniciar ciclos.  E 2015 foi um ano tão intenso, que eu não posso simplesmente dizer adeus em silêncio… Eu preciso me despedir ao vivo e pensar que se 2015 fosse uma pessoa eu lhe daria um longo abraço e lhe diria as seguintes palavras, pouco antes da 00:00 do dia 31 de dezembro:

  1. Obrigada por toda a desordem que você trouxe para o meu país neste ano.  O caos, a instabilidade, o fracasso do sonho petista fez com que os brasileiros se tornassem adultos.  Nós terminamos 2015 não mais como o país do futuro, mas sim como o país do presente, do agora. Nós brasileiros percebemos que é imperativo tomarmos os rumos de nosso futuro, construir a nação que queremos para nós.  Nós aprendemos que sentar à beira do caminho e esperar não é uma opção.  Tenho a certeza de que no futuro nos lembraremos desse ano com as palavras da célebre canção dos Engenheiros do Hawaii:
    Nos livros de história seremos a memória dos dias que virão… 
  2. Foi legal você trazer de volta o Los Hermanos, foi legal o Gil e o Caetano fazerem um show juntos, foi muito bom vermos o Foo Fighters no Brasil, mas eu acho que a coisa mais divertida do ano na música foi ver o Chico Buarque desestruturado porque alguém questionou a sua posição política.  Sim, 2015, você arrasou nisso! E a gente está começando a aprender que os nossos heróis precisam fazer algo de concreto por nós e pelo nosso país – e não podemos idolatrar alguém cuja genialidade, hoje, consiste em dizer que Impeachment é golpe e defender esse desgoverno corrupto. Isso me lembra a frase mítica de Cazuza:
    Meus heróis morreram de overdose, 
    Meus inimigos estão no poder… 
  3. Eu disse que nós nos tornamos adultos.  E ser adulto é muito divertido, na maioria das vezes.   Mas os adultos carregam dentro de si, também, uma mala cheia de mágoas, de intrigas e perdem, muitas vezes, a capacidade de se maravilhar com o mundo ao seu redor.  Nós adultos somos muito chatos… Já disse o Raul:
    Ah!
    Mas que sujeito chato sou eu
    Que não acha nada engraçado
    Macaco, praia, carro
    Jornal, tobogã
    Eu acho tudo isso um saco
    É, tudo é muito chato… Leve essa chatice embora com você, 2015.  A gente não precisa se tornar idiota porque está imerso numa vida rotineira.  A rotina é uma bênção – e perceber isso nos traz felicidade e paz!
  4. 2015, pra terminar, já que está chegando a sua hora de partir, eu lhe peço que entregue a 2016, quando vocês se cruzarem no caminho do tempo, esse pedaço de papel com um pequeno trecho de um livro que eu gosto muito:
  5. “… poderia ser verdade que o sol se levanta regularmente por nunca se cansar de levantar-se.  Sua rotina talvez se deva não à ausência de vida, mas a uma vida exuberante.   O que quero dizer pode ser observado, por exemplo, nas crianças, quando elas descobrem algum jogo ou brincadeira com que se divertem de modo especial.  Uma criança balança as pernas ritmicamente por excesso de vida, não pela ausência dela.  Pelo fato de as crianças terem uma vitalidade abundante, elas são espiritualmente impetuosas e livres.  Elas sempre dizem: ‘Vamos de novo’; e o adulto faz de novo até quase morrer de cansaço.  Pois os adultos não são fortes o suficiente para exultar na monotonia.
    Mas talvez Deus seja forte o suficiente para exultar na monotonia.  É possível que Deus todas as manhãs diga ao sol: ‘Vamos de novo’; e todas as noites à lua: ‘Vamos de novo’.  Talvez não seja uma necessidade automática que torna todas as margaridas iguais; pode ser que Deus crie todas as margaridas separadamente, mas nunca se canse de cria-las.  Pode ser que ele tenha até um certo apetite de criança;  pois nós pecamos e ficamos velhos, e nosso pai é mais jovem que nós.  A repetição na natureza pode não ser mera recorrência; pode ser um BIS teatral.  O céu talvez peça BIS ao passarinho que botou um ovo.”
    Chesterton, Ortodoxia, p. 100
     
  6. 2015: Obrigada por tudo e vá com Deus!

Que em 2016, inspirados por Chesterton, exultemos de alegria por estarmos vivos e celebremos isso todos os dias com aqueles que amamos.  E que os versos de Belchior – aquele que ainda está sumido – sejam mais uma vez o nosso guia:

Amar e mudar as coisas me interessam mais!

Um feliz 2016 para todos! E que comecemos, em nossas ilhas cheias de distância e saudade, tudo outra vez!😉