Cada um de nós imerso em sua própria arrogância

 

snoopy

Outro dia alguém me mandou uma mensagem num desses aplicativos de mensagens anônimas dizendo que eu era insuportável e preconceituosa, uma babaca em outras palavras.  Acho que eu nunca tinha ouvido isso de ninguém e achei uma experiência bem interessante.  Achei interessante porque foge do estereótipo garota legal e inteligente que sempre me acompanhou, ou da imagem bicho-grilo que alguns me atribuem desde sempre.

Naquele dia eu parei para pensar o que eu fazia para ser uma arrogante preconceituosa.  Eu lembrei das minhas postagens polêmicas na internet, dos meus comentários ácidos sobre a vida alheia, da minha mania permanente de opinar sobre tudo – e sobre todos.

Acho que entendo o que você quis me dizer
Mas existem outras coisas
Consegui meu equilíbrio cortejando a insanidade

Legião Urbana – Sereníssima

Eu sou a representação do caos, é fato, mas quem não o é?   Que atire a primeira pedra quem nunca se sentiu um lixo num minuto e um gênio no outro, ou quem nunca julgou internamente a atitude de alguém – e não falou simplesmente pelo fato de não querer ofender a pessoa?

Todos têm suas histórias, seus sofrimentos, suas lutas e receios.  Todos têm medo, todos têm sonhos e desejos ocultos.  Todos esperam respostas adequadas e todos acreditam em soluções perfeitas – mesmo que neguem.   Todos sonham com um amor eterno, com uma vida perfeita, com o reconhecimento público.

Sou um animal sentimental
Me apego facilmente ao que desperta o meu desejo
Tente me obrigar a fazer o que não quero
E você vai logo ver o que acontece

Legião Urbana – Sereníssima

As pessoas esperam respostas que ninguém tem… e acreditam tão piamente que vão consegui-las que insistem em continuar vivendo, a despeito do imponderável, do imprevisível e do desconhecido.  No fim, todos nascemos e vivemos sozinhos… e o paradoxo da existência humana está no fato de que, apesar da nossa solidão, somos animais sociais – ou seja, fomos talhados para a convivência, para olhar o outro, para desprezar essa solidão que nos é tão natural, tão intrínseca à nossa existência egoísta.

Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.

Os versos de John Donne imortalizados no prefácio do livro Por quem os sinos dobram, de Ernest Hemingway, nos remetem ao fato de que somos parte de um todo, ao absurdo da vida humana de que o fato de sermos sociais nos integra aos demais homens e a inexistência de um deles afeta todo o resto.  Todos morremos quando um de nós morre.  Hemingway, ciente do absurdo, suicidou-se em casa, com um tiro na boca, aos 61 anos.  Decidiu acabar com a vida que insistia em lhe conferir pequenas mortes todo o tempo – porque viver é morrer aos poucos, até o dia em que se morre de uma vez.  Viver no caos é viver a existência humana em sua plenitude.

Tudo está perdido, mas existem possibilidades
Tínhamos a ideia, mas você mudou os planos
Tínhamos um plano, você mudou de ideia

Legião Urbana – Sereníssima

E os planos e ideias mudam permanentemente, a cada segundo, a cada minuto, a cada mês, a cada ano.   E o tempo passa tão rapidamente que muitas vezes não nos damos conta de que viver nesse caos permanente é a melhor coisa que pode nos acontecer – enquanto respiramos estamos vivos, enquanto lutamos, sonhamos e dos nossos sonhos sonhados juntos ou separados nasce o que de fato somos.

Não estou mais interessado no que sinto
Não acredito em nada além do que duvido
Você espera respostas que eu não tenho mas
Não vou brigar por causa disso

Legião Urbana – Sereníssima

E a solidão de cada um de nós se une nessa irmandade invisível, nessa sensação de pertencimento tão necessária à vida.  Outro dia, passeávamos Rafa e eu com o nosso beagle tarde da noite pelas ruas do bairro onde vivemos.  E como sempre acontece, o guardador de carros nos parou para falar de futebol, os velhinhos em suas janelas nos deram boa noite e os mendigos da praça vieram trocar uma ideia e pedir algum cigarro.  E esse compartilhamento da vida com desconhecidos que se tornam conhecidos nos dá uma sensação maravilhosa de que compartilhar a nossa solidão nos torna verdadeiramente humanos.

Ya pasó,
Ya he dejado que se empañe
La ilusión de que vivir es indoloro.
Que raro que seas tú
Quien me acompañe, soledad,
A mi que nunca supe bien
Cómo estar solo

Jorge Drexler – La Soledad (com tradução abaixo)

Já passou
Já deixei de me enganar com
A ilusão de que viver é indolor
Que estranho que sejas tu
Que me acompanhe, solidão
logo eu, que nunca soube bem
como é ficar sozinho

Viver não é indolor, viver é doloroso.  E por isso que devemos ser o que de fato somos.  Gosto da saber que as pessoas que me acham arrogante ou preconceituosa o fazem por ser eu do jeito que sou, por considerarem que eu abraço tão firmemente as minhas convicções que não estou nem aí para o que pensam os outros.  Eu estou irmanada com os outros, mas nasci e vou morrer sozinha.  Tenho que ser leal a mim mesmo, aos membros da minha tabacaria, àqueles que compartilham, de forma generosa e gentil, a sua solidão com a minha solidão.

Isso de querer ser
exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além

Paulo Leminski

Termino esse texto da mesma forma que Renato brada nos vocais ao final de Sereníssima, certa de que essa é a única postura possível perante a vida que insiste em compartilhar o caos…

Tenho um sorriso bobo, parecido com soluço
Enquanto o caos segue em frente
Com toda a calma do mundo

Legião Urbana – Sereníssima

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O Brasil é o país do futuro, sempre…

Hoje foi o dia ler no Facebook:

“O Brasil é uma merda… a corrupção venceu!”

“Porque a Dilma foi condenada, mas o Temer não foi porque faz parte do golpe do PSDB”

“Nenhum político presta… não vote no político tal que disse sim ao Temer”

E por aí vai…

O negócio é que, apesar de tudo isso ser verdade, o problema do Brasil não são os políticos. É o povo. O político não chega em Brasília sozinho… sabe aquele imbecil que tatuou o nome do Temer no ombro e passou a sessão pedindo nudes para uma vagabunda qualquer no WhatsApp? Ele teve incríveis 141.213 votos. Quase 150 mil pessoas saíram de casa para votar nele.

Há alguns anos atrás, eu trabalhei no PT – primeiro na Prefeitura de SP, na gestão da Marta Suplicy e depois como secretária de um candidato posteriormente eleito pelo partido. Na campanha, as pessoas faziam fila lá no Comitê para trocar voto por pagamento de conta de luz ou por uma cesta básica. Tinha gente que cobrava mais barato e aceitava uma camiseta ou uma vaga na creche do bairro. E tinha gente que ia todo dia, de alguns eu até fiquei íntima. Essas pessoas queriam um cargo na administração em troca do voto. E antes que me digam que as pessoas faziam isso por necessidade, por não terem emprego, eu afirmo: grande parte das pessoas que ia lá, tinha a certeza de que iria obter alguma vantagem – não ia pela necessidade, ia pela sem-vergonhice mesmo.

Passados alguns anos, a situação não mudou. As pessoas continuam elegendo seus representantes baseadas nas vantagens pessoais que eles possam lhe conferir. Isso não é errado, mas é ineficaz. Um parlamentar deve ser capaz de pensar em um projeto de nação. Enquanto ele pensar somente nos votos da próxima eleição, estamos todos condenados à mediocridade vista ontem.

Como já disse em outro texto, não compartilho do Fora Temer, porque vejo no processo uma tentativa de devolver o poder à esquerda – se é que ela saiu do poder com o impeachment da Dilma ano passado. Se o Temer caísse ontem, hoje já teríamos que aguentar o discurso: “Maia é corrupto, está na Lava-Jato… Fora Maia!”, porque o que essa gente da esquerda podre quer é ver o oco, como dizia aquela música do Raimundos. Essa gente não está nem aí para a corrupção, nem aí para a Lava-Jato – que só é aplaudida e necessária quando atinge algum político fora do mundo petista – e muito menos quer cumprir a Constituição ou lutar por um Brasil melhor. Essa gente só está preocupada com manter-se no poder – custe isso o que custar, inclusive a vida de alguns – vide o caso do Celso Daniel.

Sabe a Venezuela? Nós estaríamos lá se não fosse o fenômeno de Junho de 2013, descrito por mim aqui. E ano que vem temos novas eleições, onde essa gente toda vai se candidatar novamente. Enquanto pensarmos o Brasil com o estômago e não com o cérebro, nada vai mudar. Teremos impeachments a cada ciclo de 10 ou 20 anos. E nunca seremos de fato grandes.

O grande problema do Brasil não é a corrupção. Somos nós! É você que acha que vai passar em um concurso público para pendurar o paletó na cadeira e jogar paciência; é você que acha que tendo um amigo no DETRAN não receberá os pontos que acumulou na CNH; é você que fura fila na balada porque tem o contatinho da promoter gatinha; é você que cria o seu filho para ser o melhor de todos e não diz para o menino que a voz dele é irritante e que ele será um bosta se não aprender a respeitar as pessoas; é você que estaciona por 5 minutinhos na vaga de deficiente no mercado; é você que elege um cara que tem como principal função no parlamento vender o voto dele – que é o que você faria se estivesse lá também.

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Sabe aquela galera que abraça árvore e cuida da humanidade? É esse tipo de gente que quer te fazer acreditar que a corrupção é um problema dos outros… não, a corrupção é um problema cultural e não são os políticos ou juízes salvadores que mudarão a ordem das coisas por aqui. O que mudará nosso país são educadores de qualidade que possam formar, em 20 ou 30 anos, uma geração capaz de pensar fora do clichê esquerdista. É isso que nos salvará. Ou seja, meus filhos talvez sejam a mudança… estamos gestando o futuro – e a luta é árdua e longa…

Temos paz
Temos tempo
Chegou a hora
E agora é aqui

13 razões porque… ou um ensaio sobre o Papa é Pop

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No domingo, terminei de assistir a série do momento: 13 Reasons Why.  E como eu já escrevi algumas vezes aqui no blog, eu não consigo passar pela vida sem problematizar tudo o que eu faço, vejo e sinto.  Esse blog só existe para isso – para que eu possa estabelecer um diálogo entre o meu eu e o mundo – e de brinde ganhar a companhia de vocês – tão valiosos à realização deste duro ofício de entender e sair do exílio, tão comum a gente como eu.  Me acompanhem na viagem que fiz escrevendo sobre isso enquanto escuto o disco dos Engenheiros do Hawaii – o Papa é pop.

Eu me considero uma exilada – em todas as interpretações possíveis que essa palavra pode adquirir.   A minha alma, tão sedenta e angustiada vive em um corpo imperfeito, em um mundo imperfeito.  Eu mal sei quem eu sou, só vivo o vazio diário de seguir um caminho que, por muitas vezes, parece sem sentido.   A angústia da existência me consome e, tal como Sísifo, eu anseio pelo respiro que o alto da montanha me oferece… eu carrego uma pedra enorme, montanha acima, para simplesmente exultar de alegria quando ela rola, montanha abaixo, para que eu a encontre novamente e volte a carregá-la, montanha acima, até o final dos tempos.

Sim, eu carregarei a minha pedra até o final dos tempos – que, por mais que eu deseje saber, eu não tenho a minha ideia de quando chegará para mim.   Tal como Jesus carregou sua cruz, eu carrego comigo a incerteza do porvir e um grito sufocado em minha alma que repete, a todo momento, “meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”.

I am not the only traveler
Who has not repaid his debt
I’ve been searching for a trail to follow again
Take me back to the night we met

(Eu não sou o único viajante
Que não pagou sua dívida
Estive buscando um caminho para seguir novamente
Me leve de volta para a noite em que nos conhecemos)

The night we met – Lord Huron

Eu me sinto exilada de algo que eu nunca tive, que eu não conheço, mas que faz sentido.  A minha alma não é deste mundo, eu não sou daqui.  Eu vivo essa vida que me foi emprestada e sobre a qual eu terei que prestar contas um dia.  E na angústia humana eu me refugio e espero, espero e espero.  E sou feliz ao contemplar, de forma parcial e imperfeita, a imensidão divina, que enche, em minha angústia perene, o meu coração de esperança em uma eternidade que muitos insistem em desqualificar, em denegrir e em duvidar.  Meu corpo voltará ao pó, mas minha alma não é, nem nunca será pó.  Ela compartilha da filiação divina e será preenchida de plenitude quando deixar este mundo imperfeito.

Eu me sinto extremamente miserável e isso é tão normal.  De qualquer forma, eu aprendi que o sentido da vida está em algo maior que eu.  O meu sofrimento é aquilo que atesta a minha existência terrena, imperfeita.  E não há nada que eu possa fazer para mudar essa situação.

Blogs e redes sociais estão infestados de posts sobre a série e discussões sobre a glamourização do suicídio de Hannah Baker pipocam a todo momento em minha timeline do Facebook.   Sim, precisamos falar sobre suicídio, precisamos falar sobre bullying, precisamos falar sobre uma sociedade que oferece, como alternativa à angústia, o suicídio puro e simples.

Tudo que ele queria (não!)
Era encontrá-la um dia
Todo suicida acredita na vida depois da morte
Tudo que ele tinha cabia no bolso da jaqueta
A vida quando acaba
Cabe em qualquer lugar

A violência travestida faz seu trottoir – Engenheiros do Hawaii

A vida quando acaba cabe em qualquer lugar… e ela encontra sentido na absoluta falta de sentido.  Quando um jovem se mata, ele se coloca acima do bem e do mal e decide, deliberadamente, livrar o mundo da sua existência.  O erro aí está no fato de que, do mesmo modo que a existência do suicida é imperfeita, a existência dos demais também o é.

Uma nuvem cobre o céu
Uma sombra envolve o seu olhar
Você olha ao seu redor
E acha melhor parar de olhar
São olhos iguais aos seus
Iguais ao céu ao seu redor
São olhos iguais aos seus

Olhos iguais aos seus – Engenheiros do Hawaii

Os olhos de Hannah Baker são iguais aos meus.  E ela não encontra sentido em continuar – porque esse sentido não nos é ensinado, não nos é oferecido em smartphones com planos de pagamento mensal, tampouco está em fotos do Instagram ou em grupos do WhatsApp.  Hannah Baker desiste da vida porque, em depressão profunda, não encontrou alguém que lhe dissesse que ela não iria encontrar o perfeito, o ideal e o desejável porque isso não nos pertence.  Isso não é próprio de nossa existência imperfeita e vil…

Um dia desse
Num desses
Encontros casuais
Talvez a gente
Se encontre
Talvez a gente
Encontre explicação

Pra ser sincero – Engenheiros do Hawaii

Ela teria que continuar procurando, procurando e procurando um sentido em um mundo sem sentido… E explicações são vazias, palavras são inúteis.  Ela não encontrou um sentido e desistiu.  Ela quis desesperadamente amigos e no seu caminho encontrou 13 razões que eles lhe ofereceram para escolher a morte.  E não foi capaz de perceber que havia ali bem mais que 13 razões para ela não desistir da vida, para ela não sucumbir perante o vazio da existência.  E quantos de nossos jovens não encontram razões para continuar porque, imersos em sua superficialidade e em sua subjetividade, deixam de perceber, no outro, a imperfeição que nos faz humanos?

Uma canção no rádio, uma versão mal traduzida
Um pastor exorciza no rádio de um táxi
(Aqui estaremos em nome de Jesus!)
Uma certa impressão, uma certeza imprecisa
(Para pedir ao anjo de Deus!)
Quem não precisa de uma versão, uma tradução?

(Para colocar as mãos
Nas profundezas do teu corpo
Para arrancar a macumba
Para a glória
Em nome de Jesus Cristo!)

Um ditador deposto, marcas no rosto
Um gosto amargo na boca
E a certeza de que o último dia de dezembro
É sempre igual ao primeiro de janeiro

Anoiteceu em Porto Alegre – Engenheiros do Hawaii

Chegamos finalmente ao dia de amanhã – que Hannah não terá porque vive em um mundo desencantado, uma sociedade que cobrou dela e dos amigos uma perfeição impossível lhe oferecendo, em troca, uma promessa de felicidade inalcançável. Hannah desistiu com 17 anos, mas sua alma morrera antes, assassinada pelas promessas de plenitude oferecidas por uma sociedade que insiste em se dizer progressista, livre e evoluída enquanto transforma, cada vez mais, as pessoas em escravas da aparência e do transitório.

Todo mundo é eterno
Todo mundo é moderno
Como um relógio antigo
Atrás de brilho e de barulho
Escondido dentro de si mesmo
Todo mundo é moderno
Todo mundo é eterno

Nunca mais Poder – Engenheiros do Hawaii

E o mundo seguiu sem ela…

Somos um exército, o exército de um homem só
No difícil exercício de viver em paz
Nesse exército, o exército de um homem só
Todos sabem
Que tanto faz
Ser culpado
Ou ser capaz
Tanto Faz…

Exército de um homem só – Engenheiros do Hawaii

Qualquer coisa é um alvo – Hannah era um alvo, você é um alvo e eu sou um alvo… E seguiremos alvos até que a nossa alma sobrevoe o inferno e o céu e possa ser admitida em um deles.   Eis a vida real!

É qualquer nota
Qualquer notícia
Páginas em branco
Fotos coloridas
Qualquer nova
Qualquer notícia
Qualquer coisa
Que se mova
É um alvo
E ninguém tá salvo

O Papa é pop – Engenheiros do Hawaii

 

Metal contra as nuvens – e a necessidade de sermos livres

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Desde que eu era pequena (de idade, porque de tamanho eu serei para sempre), eu tenho fama de ser inteligente.  E é engraçado como, muitas vezes, a gente toma essa fama como verdadeira e acaba por acreditar que de fato somos o que dizem de nós.  Nos adequamos de tal forma à imagem que projetamos nos outros que passamos, mesmo que de forma irrefletida, a acreditar que somos o que os outros dizem que somos.  Desta forma, a Aline é inteligente porque todo mundo diz que ela é inteligente.  Ponto!

Em tempos de vida exposta nas redes sociais, isso fica ainda mais latente.  Todo mundo quer mostrar ao mundo como é feliz, bem sucedido e bonito.  Ah, é importante ter consciência social também: aí o sujeito fala contra o abate dos animais, chama o Temer de golpista, arrota opiniões tão profundas quanto uma tábua de madeira sobre a reforma da Previdência e se sente um intelectual ao curtir o Leandro Karnal ou compartilhar vídeos do Movimento Brasil Livre.

Essas pessoas vão mudando de opinião da mesma forma que o clima de Curitiba muda em um único dia.  Ah, Aline, largue de ser chata.  As pessoas não podem mudar de opinião? Sim, claro que podem.   Mas as pessoas têm que mudar por convicção, não por serem volúveis.  Como assim, Alineeeeeeeeeeeee?  Simples: a sua opinião não deveria depender do que os outros pensam sobre você, mas sim sobre aquilo que faz sentido na sua vida.  O que me faz feliz? O que me faz sonhar? No que eu acredito?  Essas são as perguntas que deveríamos fazer a nós mesmos todos os dias. E não se trata de pensar positivo ou aderir a manuais de auto-ajuda.  Trata-se, simplesmente, de vivermos para as nossas causas, não para as causas alheias.

Na década de 30 do século passado, Ortega & Gasset publicou a sua obra-prima “A Rebelião das Massas”, na qual descreve, com antecipação brilhante, o homem típico de nossos dias: o homem-massa, um homem esvaziado de suas noções de história, o homem que se sente, unicamente, sujeito de direitos – não de obrigações.  É o homem desencantado – sem crenças, sem valores, somente voltado para si mesmo e que não admite nenhuma contestação ao seu repertório de opiniões – vive na bolha.  Junta-se a alguma minoria para exigir do Estado que lhe conceda seus direitos infintos – sem oferecer nada, além da sua existência patética e vazia em troca.  Recomendo muito a leitura – porque Gasset explica tudo isso muito melhor que eu!

Voltemos à fama que nos persegue.  Com o tempo, por identificar a estratégia de massificação dos seres em grupos sem rosto e identidade, eu aprendi a não acreditar em tudo o que dizem sobre mim.  Aprendi a não crer em nada ou ninguém que me diga que eu sou muito melhor do que sou e também aprendi que não sou pior do que toda a gente feliz e bem sucedida que encontro nas redes.  Eu sou a Aline, filha, irmã, esposa, mãe e amiga.  Eu pareço inteligente porque, de fato, eu faço um exercício diário para defender aquilo que eu amo de ataques gratuitos.  E eu nunca recuo – enquanto eu acreditar que faço o certo.  No fim, a minha fama não diz muito sobre mim.  Ela é só um adjetivo vazio que não significa muita coisa.

 Vaidade de vaidades, diz o pregador, vaidade de vaidades! Tudo é vaidade.
(Eclesiastes 1, 2)

Renato Russo se definiu como metal, raio, relâmpago e trovão.  Faço desta a minha definição própria e repito, ecoando nos versos de Metal contra as Nuvens que se,

Esta é a terra-de-ninguém
Sei que devo resistir
Eu quero a espada em minhas mãos

Eu sou metal: raio, relâmpago e trovão
Eu sou metal: eu sou o ouro em seu brasão
Eu sou metal: quem sabe o sopro do dragão

Não me entrego sem lutar
Tenho ainda coração
Não aprendi a me render
Que caia o inimigo então
(Renato Russo, Metal contra as Nuvens)

E que a minha história seja cheia de coisas bonitas para contar – não pela fama, mas porque de fato eu não me comportei como uma escrava das massas que nos oprimem e nos moldam de forma vil.   Que a Aline seja gigante em sua pequenez.  E que seja tão Aline a ponto de estourar todas as bolhas que a sua condição de ser social teimar em lhe impor pelos caminhos.

Apenas começamos… 😉

Escutemos as crianças – e aprendamos a ser felizes com elas!

pikachu

Outro dia, alguém elogiava o modo como eu contava as histórias dos meus filhos. Quem acompanha o meu Facebook ou do meu marido já deve ter lido alguma das muitas histórias dos diálogos das crianças e do quanto eles têm uma visão interessante do mundo em que vivem. Vira e mexe eu escuto:

Como seus filhos são inteligentes, morro de rir com as histórias deles.

Que crianças únicas! Deve ser divertido demais conviver com eles.

E por aí vai… As pessoas gostam de perceber que as visões de mundo das crianças são perspicazes e divertidas, mesmo que muitas vezes sejam muito simples. Crianças não complicam as coisas, têm uma vida onde o branco é branco, o preto é preto e chocolate é sempre gostoso. E isso é lindo!

Sempre que alguém me diz o quanto meus filhos são especiais, eu sempre penso que eles são mesmo especiais, mas que isso não é privilégio deles. Que muitas outras crianças também têm coisas fenomenais para mostrar ao mundo e que só precisam de alguém que as respeite como indivíduos e que estejam prontas para escutá-las. E escutar uma criança nem sempre é fácil, eu sei. No fim, é um exercício de recuperação da inocência – que habita sim em cada um de nós.

Hoje enquanto eu levava os meninos para a escola, eles me disseram que estavam super felizes com o lançamento da segunda geração do Pokemon Go, já que poderiam caçar e conhecer muitos Pokemons novos. Nessa hora, tocava no rádio a versão que o Maroon 5 fez para The Way you look tonight e os versos do refrão foram estupendamente propícios ao momento:

Lovely
Never ever change

Eu, enquanto dirigia, fiquei comovida com a inocência de meus filhos e por um instante pedi a Deus que os conservasse assim para sempre: genuinamente felizes por uma coisa tão simples. E o Pokemon é um exemplo só. Lá em casa, meu filho mais novo adora criar rituais: para as sextas-feiras, o macarrão é almoço obrigatório; aos sábados, tem que ter churrasco e aos domingos lasanha. Ele também é criador, fundador e presidente (segundo ele próprio) de clubes importantes como o Clube da Costela e o Clube da Lasanha e gosta de agregar novos membros para as suas comunidades. Ele também adora finais de semana e queria que as férias fossem eternas – porque sempre diz que todo mundo é mais feliz quando está de férias. Já o meu filho mais velho, é tão maduro que me assusta às vezes. Ele gosta de discutir com adultos sobre política e dar suas opiniões sobre temas diversos – que vão de aborto à crítica ao padre que critica de forma velada o Trump na homília da missa de domingo, mas ao mesmo tempo ainda briga com os amigos que não acreditam em Papai Noel sobre o quanto isso é ridículo – Papai Noel existe sim – e burro é quem não acredita.

É interessante o quanto essa inocência deles me faz bem. E eu, que me sinto uma mãe terrível muitas vezes, vejo o quanto ter crianças pode contribuir para nos tornar pessoas mais felizes. Se há uma coisa que meus filhos me ensinam todos os dias é que a gente pode ser feliz com uma vida simples, amando quem nos ama e fazendo o que gosta – mesmo que isso não seja possível todo o tempo. Capturar um Pokémon em uma noite de verão, sentado na calçada da praça ao lado de casa pode ser uma experiência incrível. Crianças nos ensinam que o encanto está sempre ao nosso alcance, sempre! Um diálogo de ontem de manhã lá em casa retrata bem isso:

– Mamãe, se você pudesse ter algum super poder, que super poder você gostaria de ter?

– Ah, Bibe, eu acho que eu gostaria de ter o super poder de fazer todas as pessoas do mundo felizes!

– É um bom poder, mamãe… mas o meu é mais legal! Eu gostaria de ter o super poder da absorção.

Nisso o Murilo grita:

– Bibe, eu já te dei uma aula sobre isso… já te expliquei que você só pode absorver os super poderes das outras pessoas se elas tiverem super poderes. E se todo mundo tiver super poderes, os super poderes deixam de ser especiais e se tornam comuns.

Nisso o Bibe para, pensa e responde:

– Não é porque todo mundo tem super poderes que eles serão comuns. Todo mundo pode ter um super poder diferente e eu ser aquele que absorve tudo de melhor que todo mundo tem! 🙂

É, no fim o segredo da vida está em absorver o que de melhor as pessoas têm – mesmo que sejam super poderes muitas vezes escondidos e desconhecidos. E assim nos tornaremos verdadeiros super heróis na nossa pequena existência perante a imensidão do universo! Escutemos as crianças – elas sabem muito, muito mesmo sobre a alma humana.

I never wanna die – ou a história por trás de todas as histórias

snoopy

Os versos de uma das minhas músicas prediletas do Foo Fighters ecoam com força no meu cérebro neste momento:

I never wanna die
I never wanna leave
I never say goodbye

A tradução deles, eu nunca quero morrer, eu nunca quero partir e nunca dizer adeus é muito forte pra mim… é como se, num grito desesperado, o Dave Grohl expressasse o medo comum a todos os homens do mundo: o medo da morte.  E isso parece piegas, mas não é: a morte é a única certeza que acompanha a vida – é para ela que vivemos, na certeza de que iremos sucumbir em um dia qualquer.

Quando eu era mais nova, achava que uma morte gloriosa seria uma morte jovem.  Na minha cabeça, eu seria uma grande heroína se conseguisse cumprir rapidamente tudo o que Deus planejava para mim e ir morar de vez no Paraíso divino, onde todas as pessoas são felizes… Eu tinha certeza de que, como minha amada Santa Teresinha, morreria com 24 anos e tudo estaria terminado por aqui.  Eu já teria experimentado o sofrimento da existência por tempo suficiente para, enfim, encontrar a plenitude da vida eterna.

Minha mãe morreu quando eu tinha 22 anos e tudo foi muito difícil para mim.  Ela tinha 48 anos e deixou a vida de repente, num dia de sol.  Ela tinha o dobro da idade que eu queria ter quando morresse e naquele dia eu aprendi que o meu desejo pela morte não era heroísmo – era covardia.  Como seria fácil para mim morrer no auge da minha juventude – sem construir nada, sem sofrer o suficiente, sem ter filhos, sem me casar, sem deixar nada para o mundo.  Eu me considerava tão fudidamente superior aos outros que queria deixar a vida sem deixar nada para a vida.

Depois que minha mãe morreu, muitas pessoas que eu amava demais também se foram: a minha tia, minha segunda mãe, morreu três anos depois num câncer que a destruiu… meu filho tinha acabado de nascer e eu não pude ir me despedir.  Nunca vou me esquecer da sua voz tão fraca ao telefone, me dando parabéns pelo meu aniversário três dias antes de morrer.  Aquilo me dilacerou, mas eu não podia mais morrer – eu tinha um filho recém nascido para alimentar, para cuidar, eu havia gerado uma vida e a morte não me era mais permitida.  Algum tempo depois meu sogro morreu, também de repente – sem ver o anúncio que o estádio do Corinthians, seu time do coração, seria construído como um presente pelo centenário do clube.  Em seguida foi a vez da minha avó, que disse para mim que não iríamos mais nos ver a última vez que fui visita-la, três meses antes da sua morte.  Ela estava ótima, mas uma doença simples evoluiu e a matou.  E ela sabia que ia morrer – como minha mãe também sabia – um desses mistérios que acompanham as pessoas de fé – e aproveitou para me abençoar na última vez que nos vimos.  Um ano e pouco depois, meu avô morreu.  E como eu senti essa morte: meu avô é, até hoje, a pessoa mais marcante da minha vida.  Meu filho tem o nome dele, uma homenagem que fiz a ele ainda em vida.  De certa forma, eu queria que ele fosse eterno, mesmo quando não estivesse mais aqui – e assim foi feito.

Como eu estou de férias, tenho tido tempo de sobra para ver filmes – alguns que já vi milhares de vezes e outros que nunca havia visto.  E,  coincidentemente, a temática da morte foi o ingrediente principal de dois que eu vi esses dias e que me tocaram de forma aguda: P.S. Eu te Amo e I miss you already.  P.S. Eu te Amo eu vi por conta de um teste do Facebook que dizia que esse seria o filme da minha vida.  Sabe aqueles testes maravilhosos que falam desde a melhor tatuagem até a cara de seus filhos? Então, num desses testes apareceu a indicação de P.S. Eu te Amo e eu me dei conta de que nunca tinha visto o filme – que é até um tanto velhinho (de 2007).  No filme, o cara tem um câncer cerebral e morre de forma prematura, deixando cartinhas para a sua esposa, com o intuito de fazê-la voltar à vida após a morte dele.  E é lindo o esforço dele em fazer com que as cartas estabeleçam ritos de passagem, tão importantes a quem perde entes queridos.  Um bom filme romântico, sem ser muito piegas.  Neste filme, a morte gera vida, de uma forma um tanto inusitada, mas competente.  Vale a pipoca.

I Miss You Already foi mais pesado.  Até porque  intenção do filme é mostrar como duas grandes amigas enfrentam o diagnóstico de câncer e a doença de uma delas.  Tony Collete e Drew Barrymore conferem muita veracidade às personagens, fazendo com que o drama seja muito palpável.  Eu fiquei pensando que aquilo poderia acontecer comigo e pensei na minha melhor amiga ao meu lado, segurando a vasilha enquanto eu vomitava.  Pensei também no meu marido suportando aquilo comigo, no sofrimento dos meus filhos, dos meus irmãos e do meu pai.  E me debulhei em lágrimas pensando que eu não queria que eles passassem por isso.  É, o Dave Grohl está certo: I never wanna die…

A morte é um tanto injusta.  Não só com quem vai, mas com quem fica também.  A gente vive para morrer, mas não sabe lidar com o fato de que isso um dia vai acontecer. De certa forma, eu entendo quem busca a fórmula da eternidade – em dietas, exercícios, meditação: tenta-se controlar o incontrolável, dar sentido ao absurdo da existência.  Eu, Aline, sempre peço a Deus que permita que eu veja os meus filhos crescerem, para que eles nunca se sintam sozinhos no mundo – como eu me senti todas as vezes que perdi alguém que amava.  Mas eu sei que isso está totalmente fora do meu controle – e vou morrendo aos poucos, cada dia que passa – como todo mundo.  Que Deus, em sua infinita bondade, me dê a graça de morrer cheia de vida, cheia de amor e cercada por todos os que amo.  E que a certeza da morte transborde o meu ser de vida, de gratidão pela existência.  Viver é bom, fato! E desprezar o dom da vida é a maior das heresias que os homens podem cometer.

Que a vida nos seja leve -como a excelente cia. do Dave Grohl! ❤

https://www.youtube.com/watch?v=7f2dBKncYRs

 

Barcos, lagos e salada de macarrão: não nós!

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“Há quem tenha histórias fantásticas, que se passam em lagos, com barcos, amigos e salada de macarrão. Não é o nosso caso, não de ninguém neste carro”.

(para ver o vídeo com a cena original, clique aqui)

Essa é a frase mais importante do filme “Melhor é impossível”, um dos filmes mais geniais do cinema.  Acho que já a usei em outro texto, mas hoje essa frase, não sei porque cargas d’água, ocupou com força o meu dia!

Eu estou trabalhando, mas confesso que a minha cabeça está longe… sempre que eu faço aniversário, fico com alguma crise existencial.  A desta semana é: Aline, o que você vai fazer da vida no futuro? Outro dia vi um desses conselhos de Facebook que alertava: “ansiedade é excesso de futuro”.  Que coisa chata… Eu não gostaria que meu cérebro funcionasse desta maneira.  Acredito que a vida seria mais fácil se a gente pudesse passar por ela sem pensar muito – que as coisas simplesmente se colocassem na nossa frente e acontecessem.

Sim, eu não tenho talento para auto-ajuda, nem para acreditar que dizer “gratidão” mudará algo na minha vida.  Talvez as pessoas mais felizes sejam aquelas que consigam resolver seus problemas através de um livro, uma frase, um guru.  Todas essas coisas sempre me trazem mais problemas – crises novas, questões novas – mesmo que me ajudem a resolver as antigas.

O Spotify fez uma playlist com coisas que eu posso gostar e no meu Daily Mix, enquanto eu escrevo, toca “Patience” do Guns N’Roses:

Said: Woman, take it slow
And it’ll work itself out fine
All we need is just a little patience

Sim, tudo irá ficar bem se eu tiver paciência, diz o cara lá de cima! Mas o que é ficar bem? É ter dinheiro? É ter tempo? É ter amigos? É ter relevância? É ser inteligente? É ter um pouco de cada coisa – como aqueles mix de castanhas que, na maioria das vezes, só vêm com uva passa e amendoim?

Como eu disse, não tenho talento para acreditar que as coisas ficarão melhores. E com o tempo tenho me fechado cada vez mais em mim mesmo e eu, que sempre fui tímida pra caramba, tenho me tornado cada vez mais introvertida.  E a culpa é de quem? Acho que não há culpados, é simplesmente um fato da vida mesmo.

Mas voltemos à frase de Melvin Udall que abriu este texto.  Acho que gosto tanto do filme porque eu sou – como Melvin, como Carol e como Simon – alguém absolutamente normal.  Se um dia minha história virasse filme no cinema, iam me mostrar escrevendo para tentar entender o mundo que me cerca, iam me mostrar como uma mãe normal e uma esposa muitas e muitas vezes chata, como alguém que continuou a torcer para o mesmo time, mesmo após 23 anos sem um título nacional… Para dar uma animada no filme, talvez pegassem uma atriz que tivesse uma voz estridente (como a minha) e que gostasse de arrumar tretas na internet – simplesmente para conformar o mundo à sua vontade, ao seu ideal de vida e que com a sua verborragia muitas vezes chateasse pessoas próximas – mesmo sem a intenção de fazê-lo.  Não ia ter o barco, muito menos o lago límpido em que eu passaria minhas tardes andando de iate.  Ah, eu não curto salada de macarrão – então essa parte está ao menos resolvida para mim.

A genialidade de Melhor é Impossível está justamente no fato de que a história feliz é a história ordinária, a de pessoas comuns que vivem suas vidas absolutamente comuns e que não são vencedoras do modo como acostumamos ver os vencedores nos filmes.  O inútil da felicidade chega quando Melvin consegue atravessar uma rua pisando numa de suas linhas – e superando seu TOC.   Como nesta cena, a felicidade para cada um de nós pode estar está em algo absolutamente banal, mas tremendamente humano.

Como li hoje de manhã, “quem não tem Instagram não sabe o que é o pôr do sol”.  Sim, não sabe o que é o pôr do sol, mas talvez consiga enxergar que fora deste mundo de “barcos, lagos e salada de macarrão”, haja uma vida que pode ser grandiosa e espetacular em sua ordinariedade.  E para terminar o Spotify agora reverbera os versos de Steppenwolf “Born to be Wild”: uma boa forma do mundo me mostrar que pegar a estrada da vida é sempre a maior das aventuras!

 

E viveram… FIM????

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Há 04 anos, eu religiosamente faço uma coisa no dia 30 de dezembro: escrevo sobre o ano que passou.  E por que eu escrevo no dia 30 e não no dia 31? Porque, de fato, dia 30 de dezembro é sempre o último dia do ano.  No dia 31 de dezembro, ainda estamos no ano vigente, mas a cabeça já está no ano que vai começar.  Em 31 de dezembro há sempre muita coisa para fazer: preparar a ceia de ano novo, receber os parentes que chegam de viagem, chegar ou partir para celebrar o início do ano com aqueles que amamos e, claro, pensar em todos os sonhos para o ano que há de vir.  Em virtude disto tudo é impossível, ao menos pra mim, escrever no dia 31.

Hoje reli todos os meus últimos 4 posts desta data – viva as lembranças do Facebook – e percebi o quanto as experiências que tive no ano afetam esses meus textos.  Eu, infelizmente ou felizmente, não consigo escrever sem ser afetada por tudo o que está ao meu redor.  Quem acompanha este blog e me conhece pessoalmente sabe que eu só escrevo sobre o que eu, de fato, acredito e vivo.  Eu não tenho nenhum talento para escrever sobre coisas aleatórias que não façam nenhum sentido pra mim.   Eu escrevo pra mim mesma, para criar memórias que serão reviradas no tempo em que eu não for mais capaz de saber quem sou eu, ou o que me trouxe até aqui.   Eu escrevo sobre o meu presente e sobre o meu passado para, quando precisar olhar para trás, saber quem era a Aline e como ela sentia – e vivia – seus dias.  Eu leio sobre a Aline descrita em meus textos como leio uma história – a minha história, desenrolada e exibida em cada uma das palavras que compartilho com vocês que, gentilmente, demonstram tanto carinho ao lerem meus textos.

Se a vida é uma história, cada ano que termina é o final de um capítulo.  E, ao olhar para trás, percebo que os capítulos fazem todo o sentido quando unidos uns aos outros – mesmo que sejam tão diferentes entre si.  Alguns capítulos são mais emocionantes e decisivos – são aqueles anos que sempre estarão presentes na nossa memória porque foram os anos em que coisas importantes aconteceram; alguns capítulos têm um maior grau de dificuldade enquanto outros são mais leves e tranquilos.  Há também, no livro da existência, capítulos mais e menos interessantes, capítulos mais divertidos e capítulos mais tristes e solitários.  E esses capítulos são recheados de pormenores que os fazem imperdíveis… não adianta ir direto ao final do livro: só entenderemos o final da história se acompanharmos com atenção tudo o que contribuiu para aquele final.  Como o caminho é longo – mesmo que seja breve – pipoca nunca é demais….

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E hoje eu termino o capítulo de n. 34 na odisseia da minha vida.  E que capítulo, meus amigos! Que ano fantástico!  Sei que muita gente pegou birra de 2016 porque 2016 não foi um ano qualquer – foi um ano foda (desculpem o termo, mas ele é o único que abrange o meu sentimento sobre este terremoto que tomou conta do mundo)!  2016 não veio à luz para ser mais um ano.  Pelo contrário: foi daqueles anos que, pelo menos eu, me lembrarei para sempre.  Vamos aos fatos:

  1.  Com o impeachment tiramos o PT do poder.  Não significa que extinguimos o PT, que endireitamos o Brasil ou que estamos salvos do fantasma comunista.  Mas a força das ruas, aliada à enorme pressão política, impôs uma estrondosa derrota àqueles demagogos que comandavam – parecia que de forma eterna – os rumos do nosso país;
  2. E esta reviravolta política – para o bem quase sempre – não aconteceu somente por aqui: três processos se destacam ao redor do mundo: os ingleses disseram sim ao BREXIT , os colombianos disseram não ao acordo de paz com as FARC e os americanos – ah, os americanos – elegeram Donald Trump presidente.  Estes três eventos simbolizam a vitória contra todos os elementos tidos por corretos mas que se constituíram, ao longo dos anos (em capítulos anteriores), como as bases para toda a desordem que vemos hoje – Estado Islâmico, massas de refugiados, o politicamente correto ditando o que podemos e não podemos pensar, falar e fazer. Me parece que o melhor nome para o capítulo 2016 é: Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós!
  3. Fora da política, nos divertimos nas Olímpiadas e nos demos conta do quanto os brasileiros são um povo a ser estudado – the zuera never ends!  Ainda no esporte, o Palmeiras foi campeão brasileiro depois de 22 longos anos e a pequena Chape encantou os brasileiros até ter seu sonho interrompido por uma queda ridícula e inaceitável.  Aliás, como escrevi em outro texto, o sonho da Chape diz muito sobre nós, pessoas comuns que ousam enfrentar o mundo… Ah.. no ano tido das coisas improváveis, o Brasil foi campeão olímpico de futebol.
  4. Eu me tornei uma pessoa melhor em 2016… e superei um monte de coisas que me faziam ser mais lerda do que sou – agora até correr eu corro.  De qualquer forma, comecei a mudar alguns paradigmas da minha existência – e isso me fez mais bem do que mal.  Eu também briguei com muita gente, inclusive com muita gente que eu amo.  Mas continuo a acreditar que não dá pra ser o que nao somos simplesmente pra ter amigos ou para agradar os outros…

E o mais legal de 2016 é que ele me preparou bem para 2017… Que promete ser um grande ano porque eu vou fazer 35 anos.  Ou seja, vou chegar na metade da existência esperada para a minha vida.  Se eu viver até os 70 anos, morrerei feliz! Se eu morrer amanhã e não puder escrever o texto de 30 de dezembro do ano que vem, morrerei também feliz, pois Deus me fez ver coisas incríveis neste ano – das quais me lembrarei para sempre!

Portanto, nadando contra a corrente, eu digo: obrigada, 2016! Vou sentir falta pra caramba de você, já incluído entre os anos que mudaram minha vida e mudaram também o mundo!  Avise para 2017, no milésimo de segundo em que se encontrarem, que ele tem o dever de te suceder bem. 😉

Já é madrugada, hora de encerrar este capítulo… Mas ainda não posso dizer: todos viveram felizes para sempre.  Só saberemos disso no fim – num fim que não sabemos como e quando chegará.  Então, fim do texto, fim do capítulo, mas não do livro… Que continue a história!

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Tantos sonhos morrem…

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Há uma semana atrás, estava sentada no sofá de casa com o Rafa e o Junior vendo o jogo da Chapecoense.  Começamos vendo a final da Copa do Brasil entre Grêmio e Atlético Mineiro, mas desistimos porque o Grêmio ganhava fácil e o jogo da Chapecoense era muito mais interessante. Era mais interessante porque a Chape lutava, até aquele momento, por um sonho inédito: conquistar um título internacional – o que, para um time oriundo de uma cidade do interior de Santa Catarina, era algo grande, muito grande.  Ao final do jogo, extasiados pela defesa do Danilo e com os olhos cheios de lágrimas pela linda festa no Índio de Condá, decidimos que viajaríamos a Chapecó para ver a final da Copa Sul Americana: seria histórico, seria lindo, seria inesquecível: um corinthiano, uma palmeirense e um são paulino unidos pelo amor ao futebol – representado em sua forma mais pura pela genuína alegria do time da Chape naquela noite.

Nossos planos terminaram hoje, ao acordarmos com a notícia do acidente que vitimou os protagonistas da nossa promessa de festa.  E eu chorei em vários momentos do dia -não só pelas vidas ceifadas de forma brutal e inesperada, não só pelo futebol e os atletas que morreram trabalhando, não só pela tristeza que acompanha todas as tragédias.  Eu chorei porque um sonho morreu.  Um sonho que não era meu, mas que eu, por alguns dias, partilhei e sonhei junto.  É triste demais ver a morte de um sonho – ou de vários sonhos, como aconteceu hoje.  Em dias assim, viver é um pouco mais difícil: as lágrimas obstruem a nossa visão e impedem que vejamos claramente o mundo a nossa volta.  Enquanto dirijo, com os olhos marejados, uma estação de rádio toca Oração ao Tempo:

Tempo tempo tempo tempo
E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo tempo tempo tempo
Não serei nem terás sido

E viva o tempo… que tanta coisa muda, transforma e cura.  Ano passado, minha família e eu quase morremos em um acidente de avião.  Naqueles minutos de pânico onde temíamos pelo pior, lembro-me bem da profunda sensação de impotência que nos tomou de assalto. Enquanto as bagagens voavam pelo interior do avião, um filme passou pela minha cabeça: eu não queria morrer, não queria que meus filhos morressem, que meu marido morresse, que minha irmã grávida, meu cunhado e minha sobrinha perdessem a vida ali.  Naquele dia, que tudo tinha dado errado antes de dar certo, eu entrei no avião e decidi rezar o terço. E enquanto o avião decolava em meio a uma tempestade de raios, eu me peguei agradecendo a intercessão de Nossa Senhora por estar ali.  E tive a certeza de que não morreria ali e que no fim, como tudo naquele dia, tudo daria certo depois de parecer dar tudo errado.  E assim foi.  Mas desde aquela noite que terminou feliz, a sensação de que a vida acaba num piscar de segundos me acompanha desde sempre.  E eu espero driblar a morte muitas vezes, mas um dia me encontrarei com ela e serei história e só uma lembrança – espero que boa – para todos aqueles que eu amo e que me amam também.

Tantos sonhos morrem… E tantos sonhos nascem todos os dias… No fim, sonharemos os pequenos sonhos diários enquanto a vida pulsar em nós.  E morreremos um pouco cada vez que nossos sonhos morrerem também.   Um dia como o de hoje só permite que nós tenhamos a certeza de que coisas grandiosas – boas ou ruins – só servem para nos lembrar da nossa humanidade muitas vezes esquecida.  A solidariedade que nos une como pequenos irmãos diante do desconhecido eterno é o que dá sentido à vida e faz com que a nossa existência valha a pena.  Todos esquecemos nossas diferenças hoje e nos unimos através da hashtag #ForçaChape!  Dias como hoje são mágicos, embora profundamente tristes.  Nos lembraremos de dias assim para sempre!

Que tenhamos a coragem de perdoar todos os dias.  E que tenhamos a coragem de dizer que amamos todos aqueles que são importantes para nós.  E de ser sal da Terra e luz para o mundo, com ações concretas e não só com palavras.  Que essa nossa vida tão curta seja profundamente feliz! Que exultemos na rotina que dá sentido à existência.  E que isso nos faça eternos, nos faça viver para sempre…

Que Deus nos abençoe e que nos ajude a criar permanentemente novos sonhos… Novos sonhos como o sonho interrompido hoje, de forma tão brutal e inesperada.  Que o #ForçaChape seja, mais que uma hashtag, uma demonstração da nossa humanidade que muitas vezes esquecemos em algum canto dos armários da vida.

A Chape somos todos nós que temos a ousadia permanente de sonhar o sonho gigante da vida, sem nenhum controle sobre as consequências.  Um pequeno clube de futebol tornou-se gigante e nos fez gigantes, ao mostrar que quem é capaz de sonhar junto nunca estará sozinho no mundo!

#ForçaChape! Obrigada por nos devolver um pouco da nossa humanidade!

Homenagem à Chape feita pelo Liverpool

Aline Jones, Aline Maria: uma reflexão sobre a passagem do tempo

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Essa semana eu fui ver o novo filme da Bridget Jones no cinema… Rever a Bridget foi como rever uma velha amiga, daquelas que você fica anos sem ver e quando encontra é como se o tempo não tivesse passado.  Aliás, reencontrar uma velha amiga é uma das boas alegrias da vida!  Bem, voltemos a Bridget.  Eu confesso que, como hiper fã dos filmes, estava receosa com o que encontraria no cinema: afinal, passados mais de 10 anos do lançamento de ‘Brigdet Jones: no limite da razão’, eu não conseguia imaginar Bridget na casa dos 40 anos e grávida.  Eu pensava comigo: se eu mudei, a Bridget também deve ter mudado… Mas como será que ela está?

Ansiosa pelo nosso reencontro, segui ao cinema.  E quando a vi na tela, tão mais magra e sem tentar esconder as marcas da passagem do tempo, me senti feliz: eu envelheci, mas ela também envelheceu.  E, embora ainda sejamos nós mesmas, também somos outras, forjadas pelos sonhos vividos e não vividos nesses mais de 10 anos.  Ela com 43 e eu com 34 – quase 35 – já sem muitas das neuras que nos atormentavam há 10 anos.  Com neuras novas, possivelmente, mas isso não entra no nosso assunto.  Eu já sou mãe há alguns anos e ela está esperando o primeiro bebê, sem saber quem é o pai, mas nem isso soa forçado no filme… pelo contrário: a forma como a questão é abordada tem a mesma leveza do sorriso da Bridget, que enche por inúmeras vezes a tela gigante durante o filme.   Eu quero saber dos seus amores, como ela chegou até ali, por que se separou de Mark Darcy e por que mesmo assim ele pode ser o pai do filho dela.  Ah, mas que atire a primeira pedra quem nunca ficou preso num relacionamento que sempre pareceu fadado ao fracasso.  Eles são tão diferentes, mas ao mesmo tempo é legal vê-los juntos, dá uma sensação familiar de que as coisas estão no lugar onde deveriam estar… Ai, Bridget, a sessão acabando e nós ainda com milhares de coisas para falar.

Enquanto Bridget me conta a sua história, eu começo a perceber que sempre gostei dela porque temos muita coisa em comum. Não somos iguais, mas acho que temos a mesma leveza ao trilhar os caminhos da vida.  E isso é bonito!  Talvez das personagens femininas que eu admiro no cinema, Bridget seja a mais próxima de mim: eu não tenho a resiliência de Ilza, de Casablanca (filme no qual eu sei todas as falas porque sou completamente apaixonada por ele), ou o glamour de Anna Scott, em um Lugar Chamado Notting Hill (filme no qual também sei todas as falas porque minha irmã é completamente apaixonada por ele).  Também me falta a determinação vingativa de Beatrix Kiddo, de Kill Bill e tenho um longo caminho para trilhar se quiser ser Amelie Poullain.  A vida de Bridget, por sua vez, é tão trivial que é impossível não se identificar e não se apaixonar por ela.  Ela é a irmã mais velha que eu não tive, a minha vizinha, a minha amiga do colégio.  Ela é aquela pessoa que eu saíria para tomar uma cerveja e voltaria para casa com o próximo happy hour já agendado – afinal, uma noite não seria suficiente para tanto assunto. 🙂

Pensar que sou tão ordinariamente comum me lembra uma música do Milton Nascimento, uma das prediletas da minha mãe: Maria, Maria.  Ultimamente, seus versos têm ecoado diariamente na minha cabeça, como se ouvisse minha mãe cantá-los pra mim em forma de conselho:

Mas é preciso ter manha
É preciso ter graça
É preciso ter sonho sempre
Quem traz na pele essa marca
Possui a estranha mania
De ter fé na vida

Maria, Maria: uma mulher que merece viver e amar como outra qualquer do planeta… sim, todas nós merecemos amar e todas nós merecemos ser amadas.  No fim, é sobre isso a saga de Bridget, é sobre isso a minha saga, é sobre isso a saga de todo e qualquer ser humano: todos queremos amar e ser amados, todos esperamos o amor – qualquer seja a sua forma.  E quando nos amamos, quando somos felizes, transformamos o mundo em um lugar melhor, mais humano porque amor gera vida, gera frutos.  O amor nos traz a estranha mania de ter fé na vida!

Eu posso ser Aline Jones, posso ser Aline Maria, posso ser a Aline que eu quiser enquanto persistir minha fé na vida.  E o tempo se encarregará de juntar todas as partes de mim em minha melhor forma. Foi uma delícia reencontrar a Bridget.  Espero que o nosso próximo encontro – nos livros ou no cinema – seja tão delicioso como esse último.   Que sejamos outras mil, sem contanto deixarmos de ser nós mesmas!