Letras de Segunda – O assalto, a calça jeans, o celular e a fé num destino extraordinário

Hoje de manhã, quando saí para correr, um indivíduo me agarrou e colocou uma faca junto ao meu peito.  Ele parecia vidrado e me pediu para entregar o celular.  Eu olhei bem nos olhos dele e pedi calma, pois o celular estava no bolso da calça de ginástica.   Enquanto eu pegava o aparelho, ele encostou ainda mais a faca em mim, para mostrar que estava disposto a me furar caso eu tentasse qualquer coisa como fugir.  E assim que eu peguei o celular, ele puxou da minha mão e saiu correndo pela rua – e eu voltei a rezar o meu terço.

Eu confesso que me assustei com a minha reação, especialmente porque mantive a calma  mesmo com aquelas mãos nojentas em cima de mim.    

Hoje estava frio pela manhã e, no meu caminho, eu me peguei pensando em comprar uma calça jeans para ter algo confortável para usar em dias assim.  E pensar em comprar me lembrou que da minha dificuldade em pagar as contas e de entregar, na oração, essa minha condição para Deus.  Mas a vida muda muito rápido e, menos de 2 minutos depois, como numa tempestade, o assaltante me apontou uma faca e levou meu celular. 

Hoje eu aprendi que tudo a gente pode – e vai perder – pelo caminho.  Uma hora, seremos vencidos pela morte e todos voltaremos ao pó.  Eu sabia que nada aconteceria hoje comigo,  porque eu estava rezando o terço, e eu celebro essa fé como uma conquista.  

O salmo da missa de hoje, aliás, de ontem porque já passou da meia-noite, assim dizia: “O Senhor nos guardará qual pastor ao seu rebanho”.  Sim, Deus nos guarda e nos livra do mal.  Eu não vou poder comprar a calça, pois o dinheiro agora tem que ser usado para comprar outro celular.  E assim é na vida de todo mundo: nem sempre a gente faz o que quer, mas faz o que precisa fazer.  

Hoje eu ofereci várias ave-marias em intenção do assaltante, porque cada vez que eu pensava no ocorrido, eu lembrava dos olhos dele, tão sem vida.  Que tristeza jogar a própria alma no lixo.  Que Deus tenha piedade dele e também de todos nós.  

“Dificuldades preparam pessoas comuns para destinos extraordinários”… que a sentença de C. S. Lewis seja sempre a nossa realidade, independente das nossas circunstâncias e das coisas ruins que cruzarem o nosso caminho.

Que assim seja!

Letras de Segunda – O papel da solidão na construção da constância: minha alma não é miojo

O meu Letras de Segunda já virou letras de terça, quarta, quinta… Em dezembro, quando me propus a escrever ao menos um texto por semana por um ano, eu não tinha ideia da dificuldade dessa tarefa.  No fim, o difícil não é escrever, o difícil é se manter firme em um propósito, seja ele qual for.  

Hoje eu fiz um treino de 11 km e, enquanto eu estava na rua, me dei conta que já tinha tentado, há uns anos atrás, treinar para correr 10 km e abandonei o treino porque achava uma chatice ter que sair todos os dias para treinar.  Eu não tinha tempo, pois estava sempre muito ocupada com tudo. E a gente se acostuma a não ter disposição para fazer nada.  

A gente vai levando a vida sem se deixar levar por ela.   E isso vai nos matando aos poucos.  Nós nos tornamos incapazes de cumprir nossas promessas, de manter nossos pequenos e grandes propósitos.  Vivemos de forma irrefletida e automática, esperando uma fórmula mágica que nos traga uma motivação instantânea que nos faça sair da nossa zona de conforto, tal como um miojo que se transforma após três minutos (que sempre duram 6 ou 7) na água quente.

Mas a minha alma não é um macarrão instantâneo.  Eu não me sinto motivada para fazer nada ainda hoje, mas eu adquiri hábitos e hábitos são a minha salvação de mim mesma.  Eu nunca tenho vontade de sair para correr, de trabalhar ou de escrever.  Eu também não tenho vontade de ir à missa todos os dias, ou acordar mais cedo para rezar, mas é como comer: eu preciso cuidar da minha espiritualidade, porque ela é parte do que eu sou.  No fim, todos os dias eu venço a mim mesma, minhas vontades e desejos, e assim vou dando à minha alma o valor que ela de fato deveria ter tido desde sempre.

E isso vale pra cada um de nós, mesmo que nossos caminhos sejam diversos.  Eu hoje me comparei com a Aline do passado e fiquei muito feliz pelo meu progresso, porque eu sei o quanto tudo isso me custou – e ainda me custa.  Ao longo do último ano, encarando a solidão que eu tanto temi por toda a vida, eu aprendi a ouvir a minha própria voz e pude, assim, encontrar uma morada em mim mesma, lembrando-me todos os dias de onde eu vim e do caminho que fiz.  Eis a cura!

Solidão, aqui estão as minhas credenciais! Obrigada pela companhia! ❤

Elvis e a gênese de nosso tempo

Fui ao cinema ver o filme sobre a relação de Elvis com o empresário dele e e saí emocionalmente esgotada do cinema. Aliás, antes de começar a explanar minha impressões sobre o filme, um adendo: ir ao cinema é algo que está caindo em desuso, os millenials só lotam sessões de filmes de super heróis, mas o cinema é, na minha opinião, a melhor maneira de se entregar a um filme: é tudo confortavelmente pensado para que ali, livre de distrações, estejamos só nós e uma história (e uma pipoca também quando o dinheiro dá, afinal ninguém é de ferro).

Elvis povoa o imaginário ocidental desde que surgiu rebolando nos anos 50. Lindo, carismático, rebelde, sexy… Elvis foi a primeira paixão da minha vida, embora eu sempre me perguntasse, na época, se eu preferia os olhos azuis dele à cara de bobo fofo e inteligente do Paul McCartney – uma questão muito importante quando se tem 11 anos e começa a formar seu próprio estilo musical. Eu tinha orgulho, já naquela época, de gostar de música de gente velha. No fim, eu sou uma tiazinha desde que nasci, essa é a real. Mas como uma boa tiazinha, daquelas que desde sempre sabe ler entre as entrelinhas, eu sabia que aqueles olhos profundamente azuis falavam mais do que realmente a gente realmente via quando olhava uma carreira de sucesso com um fim melancólico. E talvez esteja aí a grande sacada do filme: ele vai além do óbvio.

O que seria o óbvio nesse tipo de produção? Contar a história de uma carreira incrível encerrada precocemente por um vício, naquelas histórias que funcionam como avisos morais, ao estilo dos vídeos do PROERD, para que nós sejamos bons meninos e não entreguemos nossas vidas às drogas. O filme consegue, com uma fotografia belíssima – que nos remete aos encartes dos jornais antigos – levar o espectador ao interior de duas mentes profundamente doentes: a de Elvis e a de seu empresário, passando ainda pelas outras mentes doentes que sempre cercam e alimentam pessoas assim.

Elvis era um cara fora de série e isso fez dele alguém especial e único. Mas o filme torna visível que ele só se tornou um fenômeno porque transitava, de forma surpreendentemente familiar e próxima em um tempo marcado pela segregação racial, entre os negros de sua comunidade. Ele era um branco que cantava como os negros, dançava como eles e utilizava elementos estéticos da cultura negra em sua constituição artística. E, tal como os negros, ele foi escravizado de várias formas, inclusive fazendo-se escravo de si mesmo.

A gente fica com raiva de tanta gente enquanto vê a história. Da mãe, do pai, do empresário, do próprio Elvis e do mundo… mas ao ver o filme saí com a sensação de que a vida de todo mundo, independente da nossa fama, do nosso dinheiro ou do lugar em que vivemos o hoje de todos os dias, é sempre um amontoado de sonhos criados e desfeitos, nos quais somos, ao mesmo tempo, vilões e heróis de nós mesmos e dos que fazem parte do nosso círculo de convivência. Não sejamos maniqueístas: todos somos bons e somos maus e só importa, de fato, o que escolhemos ser no instante que antecede a nossa morte.

Eu vi defeitos meus naquelas almas atormentadas retratadas no filme. Eu não tomo um monte de pílulas, nem estou enganando pessoas roubando o dinheiro do trabalho delas, mas o que me faz melhor que eles todos? “Ah, eu tenho uma religião e a pratico”, “ah eu acredito em Deus”, “ah, eu sou uma mulher que dou conta da minha vida sozinha”… Todos esses “ahs” não me fazem melhor que eles, não me fazem mais virtuosa, não me fazem santa, não me fazem perfeita. Todos ali, retratados em seus defeitos ou qualidades, estavam somente vivendo vidas cheias daqueles sonhos e frustrações diários que nos moldam a personalidade. E só!

Hoje é fácil olhar para o empresário e enxergar sua falta de limites. Saí do cinema pensando que tudo poderia ter sido muito diferente se Elvis tivesse feito escolhas diversas das que fez cada vez em que sua vida chegava àquelas bifurcações em que somos obrigados a escolher caminhos. Isso vale para o Elvis, mas também vale para mim: quem seria a Aline se ela tivesse feito outras escolhas quando ela teve chances? Quem seria você? Sim, nem sempre seremos felizes com nossas escolhas, mas seria a felicidade um valor supremo ou há coisas mais importantes para levarmos em consideração?

Amo quando um filme provoca tantas questões em mim. Eu não conseguiria dormir sem dar vida a esses pensamentos que me pareciam tão desconexos, mas que agora encontraram algum sentido. Somos todos Elvis, mas ele foi mais Elvis que nós porque permitiu-se consumir de forma pública para se tornar um ícone. Elvis definitivamente não morreu, vive para sempre nas nossas mentes, no espírito de nosso tempo.

Take my hand
Take my whole life, too
For I can’t help falling in love with you

I can’t tell falling in love with you – Elvis Presley

Sim, é impossível não se apaixonar pelo Elvis, pela história, pelo filme. Toca agora no celular uma canção de Sinatra chamada That’s life. E naquelas coincidências tão delicadas que constroem meu caminho, eu encontro uma forma de terminar meu texto… Sim, that’s life, é a vida, somente a vida!

Bom dia, ou boa noite! Já não sei mais e também não importa… Vou dormir porque daqui a pouco eu tenho que levantar, caso Deus me conceda mais um dia, para fazer tudo novo de novo, como todos os dias!

Que assim seja!

Letras de Segunda- Endrick, um sonho e toca Raul!

Endrick, o menino que me fez lembrar do poder de um sonho

Hoje Endrick, um menino de 16 anos,  assinou seu primeiro contrato profissional com o Palmeiras.  Ah,Aline você só está escrevendo sobre ele porque você ama o Palmeiras.  Não, esse texto é sobre sonho e, nesse sonho, o enredo é o que me apaixona (não o Palmeiras, que aqui é coadjuvante).

Eu estava almoçando com os meus filhos hoje e contei para eles a história do Endrick.  Como o menino da periferia do DF precisou somente de um clube que trouxesse a família inteira para viver o sonho.  Quantas famílias brasileiras não são como a família do Endrick? Eles eram pobres de tudo!  O pai contou que, certo dia, o Endrick olhou a despensa e não tinha comida e fez uma promessa a ele: “pai, eu vou jogar futebol e vou te ajudar a colocar comida em casa”.  

Eu sempre choro quando penso nessa história.  Eu amo pensar que Deus, lá do alto, pode dar a alguns de nós um talento excepcional, mas esse talento só gera frutos quando a gente mantém a nossa alma de forma humilde e é grato pelas pedras que constroem o nosso caminho.  Sim, o homem que saiu de Brasília com a sua família há 6 anos para trabalhar como faxineiro no CT do Palmeiras e acompanhar o filho treinando na base hoje levou a sua família inteira ao mesmo Palmeiras para ver o seu filho assinar o primeiro contrato profissional.

Até aqui, o Endrick é a maior revelação da história da base do Palmeiras.  Ninguém sabe do amanhã, mas ele já é um vencedor: ele tem uma família capaz de apostar tudo no seu talento, um pai que mostrou pra ele, vindo trabalhar de faxineiro no clube, que qualquer trabalho é digno e que um sonho pode se tornar realidade independente de onde a gente o começa.  

O Endrick hoje me fez recordar de todas as pessoas que foram anjos de Deus na minha caminhada e me deram a oportunidade de sonhar uma vida. E por essas pessoas eu sou grata. E até hoje eu encontro pelo caminho gente que me ajuda de formas que eu nunca terei como agradecer.  Não é porque eu sou legal: é milagre, é fé, é Deus!  Obrigada, Endrick por me recordar isso hoje.  Que Deus abençoe o seu caminho e o da sua família!

E se parecer impossível, toca Raul

Tenha fé em Deus, tenha fé na vida
Basta ser sincero e desejar profundo
Você será capaz de sacudir o mundo, vai
Tente outra vez

Tente outra vez – Raul Seixas

Letras de Segunda – Como eu sou girassol, Deus é o meu Sol!

A minha vida, como a de todo mundo, tem alguns dias ótimos e outros dias não tão bons assim.  Nos últimos anos, passada a euforia própria da juventude, eu aprendi a não me empolgar demais com os dias bons e também não me vitimizar demais com os dias ruins. 

Hoje o dia amanheceu chuvoso por aqui, não só lá fora, mas também aqui dentro da minha alma.  Eu acordei cheia de pensamentos sobre as merdas que sempre acontecem na minha vida e confesso que eu só não me paraliso porque eu tenho um senso de dever que quase sempre é maior que eu mesma. 

Como me sentia assim hoje, no meio da tarde resolvi que sairia correndo, porque precisava colocar em ordem a minha cabeça.  E saí para os meus 10 km diários, num papo cheio de revolta com Deus.  Até o meio do caminho, eu coloquei pra fora tudo o que eu pensava, chorei e xinguei todas as pessoas e coisas possíveis que, de alguma forma, trouxeram tanto sofrimento pra minha vida.   Ali, no meio do caminho, Deus colocou no meu coração que eu deveria ouvir uma música que chama Teus Planos, que assim me disse:

“Os passos que dei sem você

Só me fizeram fracassar

O tanto que eu já chorei

Me arrependo dos meus planos”

Teus Planos

Sim, eu fracassei todas as vezes que tentei viver de acordo coma minha vontade.  Depois da paulada, a letra da música seguinte foi um grande abraço de Deus:

“Presença forte em mim

Eu posso dizer: Habitas aqui

Porque escravo eu fui

E hoje eu sou mais livre aos teus pés”

Hoje livre sou

Sim, se não fosse o caminho construído pelas coisas e pessoas que me fizeram mal, eu nunca teria tido essa conversa com Deus que tive hoje e não seria a mulher que eu sou hoje.  O nosso sofrimento encontra sentido quando nos espelhamos nos sofrimentos de Cristo.  

No meu caminho de hoje, quando o meu coração já estava aquietado pelas músicas que Deus me fez ouvir, havia vários girassóis com suas flores já voltadas para baixo.  E eu então entendi que naqueles girassóis Deus me mostrava que, eu também sou um girassol devo guiar a minha vida pelo Sol que Ele é! 

“Meu tesouro, minha herança, meu Supremo Bem

Nem tribulações, nem dor podem nos separar

E jamais irão romper o que o amor selou

Hoje livre sou”

Hoje livre sou

Letras de Segunda – Tudo passa, só Deus basta!

Eu tirei essa foto num dia da semana passada em que eu tive uma espécie de estafa física.  Estava no meio da corrida e, do nada, não tinha mais forças para continuar o exercício e comecei a me arrastar para casa.  Foi uma coisa muito louca: eu parei na igreja perto de casa e sentei-me para conversar com Jesus, esperando que Ele me desse forças para andar os últimos 700 metros.  Pedir a gente pode pedir, mas Deus atender é outra coisa.  No fim, eu cheguei em casa e, depois de 30 minutos de banho quente, eu só consegui dormir.  Foi um dia perdido.  Eu fui buscar as crianças dirigindo e quase dormindo no volante.  Eu voltei pra casa e dormi sem almoçar, por mais 35 minutos antes de começar no trabalho.  Depois do trabalho, eu deitei e dormi de novo e assim foi até o outro dia.

Eu sou muito acelerada, então dias assim são realmente estranhos para mim.   Eu acordo com uma agenda bem definida na cabeça, então todos os meus movimentos do dia são friamente calculados.  Parece chato, mas eu sou tipo um bebê: eu funciono bem com a rotina.  Eu limpo a casa todos os dias no mesmo horário, eu deito quase sempre a mesma hora e eu tenho rituais para ocasiões específicas da semana, especialmente nos dias em que tem jogo do Palmeiras e eu não estou confiante na vitória (ou seja, quase sempre, rs).  Um dia em que eu não consigo seguir minha rotina é um dia em que a vida não aconteceu.

Eu passei dois dias meio lerda e isso me fez refletir o quanto a nossa vida deve estar de fato conectada às coisas que são importantes pra gente.  Fiquei imaginando como vivem as pessoas que não fazem nada de útil por longos períodos de tempo.  Nesses dias em que a minha cabeça funcionou mal, eu me perdi nos vídeos do Instagram e percebi que eles são todos iguais e servem somente para alimentar nossa cabeça de vários nadas. 

Eu quis tirar essa foto pra me lembrar de que, independente de como eu esteja, eu posso sempre escolher sorrir para a vida e pras minhas dificuldades.  Assim como os dias bons acabam, os dias ruins também se findam. O importante é sempre estarmos com Deus, pois Nele está o sentido e a razão de tudo.  Abraçar a cruz é abraçar o eterno e ser feliz com isso! Tudo passa, só Deus basta!

Letras de Segunda – E no meio do caminho havia uma flor

A vida passa pela gente e a gente passa pela vida. Estamos sempre a caminho do fim e a existência de todos nós é tão somente um compilado de situações em busca de algo que nos traga sentido e sentido a gente só encontra no fim.

Entre nascer e morrer, temos o meio e é no meio que nós passamos pela vida e a vida passa por nós. É no meio que aprendemos que viver é difícil e complexo, que nos sentimos rejeitados e amados, é no meio que nos sentimos feios, bonitos ou incríveis. É no meio que vemos pessoas e coisas nascerem e morrerem ao nosso lado. É no meio, só no meio, que nos tornamos parte de tudo o que existe e é nesse meio que erigimos o que nos marcará quando formos lembranças.

Vivemos com medo de sair do meio. Vivemos apavorados sem saber quando o nosso caminho será interrompido. Esculpimos nossos corpos, aprendemos outros idiomas, ganhamos dinheiro, beijamos quem amamos e conhecemos o mundo. Para alguns, o mundo é o quintal. Para outros, o mundo é o espaço. Não importa: o mundo terá sempre o tamanho de tudo o que sonhamos e amamos.

E enquanto estamos no meio, alguns de nós terão a sorte de envelhecer. Já outros, Deus logo levará porque, dos mistérios que marcam nossos inícios e fins, nunca teremos conhecimento completo. É nessa imprevisibilidade que marcamos nossa humanidade e celebramos o que há de mais incrível na nossa existência: a gente se joga numa grande aventura, sem de fato saber o que encontraremos como destino.

Uma flor nasceu entre as pedras do meu caminho. E eu parei para tirar essa foto. A flor desafiou o terreno pedregoso e encheu de beleza o meu mundo ontem de manhã. Às vezes, temos a bênção de encontrar pelo caminho pessoas que são como essa flor – cheias de vida e que, apesar de todas as dificuldades, de todo o medo, de toda a imprevisibilidade, insistem em florescer e encher de poesia a nossa existência, fazendo com que experimentemos, ainda aqui neste mundo, o tamanho do amor de Deus por nós.

Obrigada, Deus, pelo meio. Que sigamos confiantes – e juntos – pelos caminhos que nos farão com que nos vejamos, um dia, face a face!

E mesmo que pareça tolo
e sem sentido
Eu ainda brigo por sonhos…

Flores e Espinhos, Paralamas do Sucesso

Para Keli, com amor!

Parabéns ao Ramon, o pior cãozinho do mundo!

Ramon tomando o seu sol diário

Letras de segunda na sexta? Pode né? Afinal, já disse Einstein, “a diferença entre passado, presente e futuro é apenas uma persiste ilusão”.

Hoje Ramon completa incríveis 16 anos. Ele superou as estatísticas e já viveu mais que grande parte dos beagles. Eu brinco com os meninos e com os meus amigos que Ramon insiste em não morrer. Ele quase não enxerga, é totalmente surdo, tem dificuldades para andar, mas continua com o faro intacto. O faro é, sem dúvida, o grande diferencial dos beagles e, ver que ele ainda funciona muito bem no meu cãozinho tão idoso me faz pensar que a velhice pode te tirar muitas coisas e mudar tantas outras, mas você permanecerá sendo você mesmo se conseguir manter tudo aquilo que é especial e bom dentro da sua personalidade.

É engraçado dividir a casa com um animal idoso. Ramon criou rituais e rotinas ao envelhecer e, no fim, esses rituais e rotinas dele me ajudam a marcar a minha própria rotina. Eu saio para correr, ele está dormindo na sua caminha embaixo da escada ou ao lado da minha cama. Eu volto da corrida e ele já acordou e subiu para a parte de cima do apartamento, onde todos os dias se deita embaixo do sol e retoma o sono até a hora do almoço. No almoço, ele come, faz xixi e volta a deitar na sua cama, na qual permanece até a hora do jantar. Se eu estou trabalhando, ele se deita perto de mim. Se as crianças estão no sofá, ele pede para subir e ali se deita com eles. Ele janta e volta a dormir e assim faz todos os dias. Se está frio, puxa um cobertor para que nós o cubramos. Ele late enquanto comemos. Ele ama o cheiro de qualquer carne. Ele pede pipoca. Ele esconde tampas de caneta.

Quando eu o conheci, a dona dele disse: vocês têm certeza de que vão levar esse cachorro para casa? Ele é o pior cachorro do mundo, ele vai destruir tudo o que vocês tiverem. Ela tinha razão, mas quem se importa? Ramon segue me ensinando que, independente de como esteja sua vida, devemos sempre nos deitar ao sol e sentir que estamos vivos e que isso basta.

Obrigada por tanto, Ramon! Enquanto for possível, diga para a morte: “não hoje” e siga sendo o pior e mais adorável cãozinho do universo, afinal, você tem feito isso muito bem!
😍

Letras de Segunda – Quem tem amor na vida, tem sorte!

Ontem foi dia dos namorados e é muito legal ver as pessoas abrindo seus corações para o mundo e dizendo eu te amo para quem, de fato, merece essa homenagem.  Acho que o mais especial destas datas é o fato delas institucionalizarem a lembrança: você tem um dia para dizer ao resto do mundo o que aquela pessoa significa para você e como você se sente feliz com a presença dela na sua vida.  Ah, mas é comercial, blá, blá, blá… Não importa: quando você se acha melhor que o resto do mundo você é só um chato que não merece o amor de ninguém.  🙂

Brincadeiras à parte, todos nós merecemos amar e ser amados.  Eu li tantas declarações de amor ontem, de amigos, de parentes e conhecidos e é incrível perceber o quão humano é acreditar em um amor que durará para sempre.   Ninguém sabe do futuro, mas é necessário acreditar, no hoje, que aquela história é a história da sua vida e que ela será eterna.  Nós temos necessidade, como pessoas, de construir e alimentar narrativas, de fazer promessas e acreditar que podemos cumprí-las, porque isso dá sentido à nossa existência.

Às vezes, a vida real é diferente das declarações do dia 12: o pra sempre acaba, o que era incrível torna-se irritante e o que era paixão vira desprezo.  Pode ser que com o tempo aquele beijo perca o sentido, aquele abraço deixe de ser uma casa e aquele desejo desapareça.  E se acontecer de dar errado, talvez aceitar o nosso destino e seguir em frente seja o maior dos atos de coragem, porque só existe amor de verdade na liberdade.  

Antes que me acusem, eu quero esclarecer que esse texto não é sobre casamento, divórcio ou sobre fins de namoro.  Esse texto é sobre aquele amor que se manifesta como a maior das expressões de liberdade, que nos apresenta um vislumbre da nossa eternidade, tamanha a sua dimensão..  Não é sobre um eu te amo, mas sim sobre aquele eu te amo que nos consome até a nossa última gota de existência, que é absolutamente livre e que nos torna escravos dele sempre que nos damos conta de que nós não temos outro lugar para ir.  

Deus se fez humano e deixou-se consumir até a última gota de sangue por amor a nós. Ele escolheu ficar e para isso aceitou morrer.  Sim, “quem tem amor na vida, tem sorte!” 🙂

Letras de Segunda – Jovens, envelheçam e velhos saiam da 5ª série!

Eu sempre gostei de conversar com gente mais velha que eu. Quando eu era criança, sempre quis ser adulta, pois tinha a impressão de que adultos podiam fazer tudo sem pedir autorização ou esperar a aprovação de alguém. Adultos pareciam seres evoluídos e bem resolvidos e por isso eu sonhava em ser como eles.

E por que eu estou escrevendo sobre isso? Porque eu comecei esse texto dizendo que sempre gostei de conversar com gente mais velha que eu. E essa minha característica tem me mostrado que muitas pessoas chegam aos seus anos derradeiros sem ter uma compreensão real do sentido da vida.

A nossa sociedade líquida desfez qualquer elo das pessoas com a tradição, com a história e com a transcendência. Eu carrego em mim, na minha alma que é muito maior que o meu 1,57 de altura, toda a história do mundo: a história daqueles que vieram antes de mim, a tradição dos meus antepassados e a ligação humana com Deus, que transcende qualquer aspecto físico e cronológico, pois existe desde sempre (porque Deus é o início e fim de tudo).

Há uma luta em curso contra o envelhecimento e contra as coisas que esse costumava nos proporcionar. Eu não quero ser jovem para sempre: quero sentir no meu rosto, no meu corpo e na minha alma as marcas de quem viveu de forma plena todas as etapas da sua vida. Eu quero envelhecer tendo vínculos nos quais me amparar. Quero que meus filhos venham me visitar e tragam meus netinhos – e que eles me abracem e gostem de ouvir minhas histórias.

Jovens, envelheçam, como escreveu Nelson Rodrigues e velhos, aqui escrevo eu, sejam adultos e parem de se comportar como se estivessem, para sempre, na 5ª série da vida! Vocês podem ter vidas que vão além da satisfação das suas vaidades.

Não tenhamos medo de aceitar o nosso fim e chegar lá como quem, de fato, carrega o mundo dentro de si. Cuidemos de nossas almas como algo que durará para sempre e, repletos de esperança, façamos da nossa passagem por este mundo uma grande celebração de tudo o que nos torna verdadeiramente humanos – porque somos capazes de discernir e construir histórias – ao contrário dos animais que vivem para a satisfação de suas necessidades fisiológicas e de sobrevivência. Honremos isso!